segunda-feira, 22 de novembro de 2010

a chuva correndo fora estrondeia
um reflexo do estrépito dentro de mim
mas suas lágrimas não são as minhas

o pior dilúvio sou eu às portas
da maior alegria.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

a chuva perdeu as horas
outonalmente, como folhas de livro
desgrampeadas pelo caminho
e permeou tubulação - recrudescida
pelo acúmulo de detritos atravancando
infiltrados nas vidas alheias -
subreticiamente lavando

a chuva açoita as costas nuas das casas
arranhões visíveis na pintura, comprovam
que a chuva perder a hora e sedimentar
aluviões de apagamentos nos canos
sob a cidade, contaminando os poços
de amnésia,

depois de perder as horas; anestesiando,
a chuva disseminou uma indolência tardia
ninguém mais trabalhou
no fim da tarde, deitam nas praias do rio
contaminado indolente também
conjecturando o céu e as garças, mais limpos
cuja memória, a chuva erodiu

a chuva cava buracos no chão, lixivia e
nubla um solo do qual passam a brotar
cigarras contagiantes pigarreando a deixar
cabeças preenchidas por
nuvens apenas, orfãs de corpo

terça-feira, 16 de novembro de 2010

rufem os tambores, o homem-bala-de-canhão prepara um vôo sobre a platéia
o alvo é a rede de proteção, localizada ao fundo da lona
a propulsão pode aplicar força demais nos pés dele
aí nem o capacete dá conta, e saia da frente quem estiver na frente
a complicação são esses dois aros em chamas, no meio do caminho
e calcular o lançamento pra não acontecer o que aconteceu ao último
homem-bala-de-canhão, que deixou orifício ainda não remendado na lona
quase em cima da arquibancada, passou reto destinado a pousar
uns bons cem metros fora do perímetro a milímetros do cacto que
lacerou o macacão, azul estrelado reaproveitável pelo novo
cuja próxima façanha pretendem que seja planar sobre sem atingir os tetos
de oitenta e três carros compactos, intrepidamente

longa duração, sem proteção
homem-bala-de-canhão, voa mais alto que um avião.
os livros escoltam o sono
encostam qual cachorro
fingindo que as costelas
esfregadas na perna alheia
são sem querer, o dono sabe
mas finge que não, prefere
ver até onde vai a carência
os livros são cachorros mudos

o frio invadindo pela janela
é tão desejado quanto o golpe
de misericórdia sob a forma de
último suspiro, dos sons da rua calados
o que não é o quarto calado
o lirismo dos nomes calado

os livros escoltam o sono sem dizer patavina
como se carregando um caixão pelas alças
desenganados fumegantes ainda
mantidos acordados pelo frio que vem da janela
artilharia
batalhão
batalha
balestra
besta
bombarda
bombardino
brinquedo
infantaria
(sétima) cavalaria
embarque
fragata
galeão
filibusteiro

embuste

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

um pássaro entrou pela janela aberta
no silêncio pegajoso que só o calor pode propiciar
à procura de um canto para dormir
vasculhou armários e gavetas, os livros e as roupas
e os papéis não deixavam espaço
suas garras firmaram-se na tela retrátil do notebook,
a qual achou volátil, mais quente ainda
sem abrir o bico
tentou a luminária, quente demais
de debaixo da cama o mau hálito de um monstro
o enxotou - tá ocupado, amigo -
quase depenado, desistiu logo do ventilador
o vai e vem da maçaneta o esmagaria dentro
de pouco
o barulho no violão pareceu insuportável
chegou a cogitar a fresta entre a cama e a parede
e preferiu, foi ficando, sem palavras;
não se sabe o que irritou, o calor extra dos lençóis talvez
o fato é que o flagrei outro dia com as patas no meu rosto
tentando habitar minha boca
nidificar na minha voz
o delito cometido não é contemplado no ordenamento deste país
não é delito portanto, embora seja punido, habitualmente com morte
no dia em que decidiu deixar as coisas interminadas

e terminar o que não começou e partir do meio para acabar no meio
revertendo a ordem, de delineamento das condutas
dos personagens deste país, desfiando a linha de raciocínio
que outros usam para se guiar dentro do labirinto
descosturando à noite o tapete costurado durante o dia
aos olhos vigilantes dos pretendentes sórdidos

o delito de sempre de desviar ao longo do percurso
da linearidade e dos contornos precisos
e da responsabilidade de viver combatendo a desordem
se não é punido, é visto com maus olhos
no ordenamento retilíneo do país das consequências

no dia em que, de cabeça pra baixo, resolveu trocar os gestos de lugar
sofreu a reviravolta do looping invertido.
perfiladamente as cabeças olham para a esquerda
procurando por um leste através das nuvens
tingidas sanguinolentas
um destacamento qualquer, posto avançado
encravado no deserto em que traçaram
fronteira difusa

no pátio extensamente cimentado
trinta e sete homens hesitam ante a vontade narrativa
de submeter o curso dos eventos
a uma lógica interna,
perfiladamente decidem se depois de fuzilados
doarão de boa vontade sua carne
para ir substituindo no prato dos oficiais
a caça que escasseia

procuram um leste desorientados
o cachorro que uivava por ali já foi pra panela
junto com as garças capturadas em seus rasantes
na forma de última refeição do regimento