domingo, 31 de janeiro de 2010

Teorema

Por que será que a vida são provas?
se o que quero provar
não está nos livros

o coração da donzela
a cabeça do dragão
não são um código, uma fórmula

são os dedos plangentes do bardo
sobre o sabor indecente da lira indigente

sábado, 30 de janeiro de 2010

All over.

uma garota numa das salas/me instigou mas era miragem trêmula
eu no corredor, absorto
mexe na bolsa à cata de objetos que não a definem
leio octavio paz
de onde estou só vejo um resto de pernas/ela já veio e sei que é bonita
ou não me vê ou finge bem, seus olhos me driblam
tem esse ar de quem quando espera espera andando de um lado a outro
tenho escrito com o sono embalado pelo vai e vem das pernas que não encostam no chão
arruma o cabelo algumas vezes/troca de posição na cadeira
agora vejo melhor seu rosto que é uma colagem das minhas palavras
e vice-versa
em algum lugar alguém liga uma música que dá urgência a estas palavras ao imobilizar as ações
a porta é a moldura de seu olhar quando encosta no meu
quando sai sua presença tropeça no mundo que não é mais confinamento
se afasta sem saber
os seus passos são a medida do que o papel recusou.

ensaio um discurso para quando ela sair
planejo um concurso para a pressa dela disfarçada de ansiedade se confundir com minha preguiça
os sapatos não fazem nenhum barulho quando pegam a avenida do corredor
ou não percebi ou fingi que não percebi
e foi miragem mesmo escorrendo pelo ralo do dia
fica o poema
fica o retrato das pernas indecisas oscilando
ficam as pegadas dos olhos que trombaram em mim
e os passos tendendo a infinito
que já é um modo, obviamente imperfeito, de tê-la havido.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

seja marginal seja herói

Um pilotis de aguardo
dos anseios
gavetas escancaradas vomitam papéis em branco
é o silêncio camisadeforça
maquiagem do arlequim que escorre pela caneta e inunda os quartos de onde estamos - eu e umas memórias que fogem
é o silêncio domador de ímpetos de tigres de legiões de tigres na noite sabendo
sentindo o gosto e tendo o gosto
de cada passo que seja em vão
e que as alternativas são avenida truncada de um labirinto
o edifício de não agir flutua
no precipício de não escolher flutua
na luz trêmula da manhã ainda indecisa
quanto ao princípio de calar e manter
vasos quebrados ruínas de si mais-valendo que por seu conteúdo
contém o
silêncio que é a certeza de ter dúvida
e a parede dos limites do que deveria ser feito

Argumento ornitológico II

Não tenho escrito sem antes observar os pássaros, a aleatoriedade deles é arbitrária como a minha presença diante do papel e da caneta. Eles são e sabem que são, sem perguntar sem pedir a alguém que o autorizem, sem pedir a si mesmos sequer. Uma escrita na corda bamba dos galhos ao som do vento, tudo ali é perigo e eles inconscientes, eles apenas fazendo. Ignorância é uma benção diz o filme, melhor ainda é a ignorância que me deixa fazer o que quero sem parar e pensar, sem deixar de agir. Da minha caneta saem sabiás, dos meus dedos rouxinóis, beijo minhas frases como quem quer a revolução das guilhotinas em flor e não como quem quer comer, alimentar os filhos e sucesso no anonimato. Respiro o pólen e meu espirro, minha alergia é tudo o que sinto e o que sinto é o que observo e que está no bloco de anotação. Caderneta de desenhos.

Os seis.

How could he know this new dawn's light would change his life forever?
 The unforgiven III - Metallica

São seis na esplanada
seis da manhã
seis pessoas
é aniversário de uma delas
a comida acabou
assim como o vinho
um improvisa ao violão
enquanto outro canta algo
enquanto outro acompanha
com as palmas
mais gente, gente canta
mais gente toca o violão
esperam o nascer de um sol
que não virá
conversam daquilo e disso
e dançam
as nuvens não deixaram ver as estrelas
são os últimos
esperam nada de si mesmos
nada além da vinda do sol
ou da hora de ir embora
estão plantados ali
falta vontade de manter
e vontade de ir embora
alguém surge com lembranças
de outros tempos em
que não faziam isso
e tocam e cantam
no vazio sob o céu cheio de nuvens
no concreto sob um abstrato
de azuis
deitados no centro do planalto centro
que ali é o centro do mundo
de um mundo lateral
que vê sem apreensão aumentar o
número de carros nas ruas
uma chama na noite difusa
uma chama confusa na noite chama
venham sentem-se aos meus pés
perto do pombal
e façam o de sempre cantem dancem
conversem
nada importa menos que o trânsito
e mais que as condições meteorológicas
e mais que querer sair do mundo
e cair num outro de sons e luzes
e promessas

seis sorrisos
seis bocejos
seis gestos
seis silêncios
seis histórias em uma
seis querendo ficar na esplanada
às seis da manhã de um janeiro

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Prometeu é o fogo
nas palmeiras da costa
deixou aos humanos
alfabetos
refez inúmeros dialetos
de desafiar os deuses

Poema sussurrado pela brisa

Nada melhor que eu agora
porque vim de um mundo imprevisível
desembarquei aturdido
vi um sol num céu que não é meu
vi um rosto num sorriso alheio
vi a sombra de um gesto antigo
projetada por outras mãos
e me ensinaram a escrever
prometendo que fazê-lo é driblar o estranhamento

mentiram: escrever é o estranhamento
nada é meu
nada é seu

o mundo é um recém-nascido que nos contempla
e não o contrário
nunca o inverso das palavras
esteve tão próximo
do primeiro sentido dos sentidos.

o que ninguém disse
ou sentiu
é só o que toco
o que meus dedos imprimem
em nós palpitando de anseios na noite clara
escrevendo nós
de momentos e murmúrios
para um e outro
não por um e outro, mas
na raiz frondosa permanecendo

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

S.o.s

Fique longe do corpo
a poesia morreu
sem ao menos suspirar
morreu como ninguém esperava

em prosa hierática
não pediu flores no caixão
endureceu envelheceu enriqueceu

vil endureceu
flácida envelheceu
ruiu trocou de máscara

não é mais a poesia
e nem o que sempre combateu
é a outra coisa

domingo, 24 de janeiro de 2010

comedor de homens antropófago canibal



o sol de tarsila é
uma rodela de abacaxi
reverenciada por um boneco de pepinos

pés descalços escalavram a terra
à luz do ovo escaldado

o vento é rural
o monstro concorda

passeando no lombo de um burro verde

Uma caravela chamada legião

O mar sussura um nome
entre as pedras enquanto
traz cheiros esquecidos
e
abraça um naufrágio

nunca junta as peças do quebra-cabeça
ou guarda

o céu e o sol
lutando contra o vento
refletido na pele da água

no dorso da água irritada
cavalgam ignorando as vísceras
de algas e peixes e ondas
que são o resumo do mar de multidões

o mar é o deserto da recíproca verdadeira
a sala de cirurgia com o pé-direito alto
a saguão da estação
e o campo das possibilidades em flor
como raparigas proustianas

o mar não é o que as pessoas pensam,
elas pensam na superfície

Lentes

Durante a lua no céu
enquanto a chuva no mar
perdi minha memória

seus olhos na estante
as traças nas paredes
amputaram as migalhas dos que fui

sou (d)os restos
a morte é passageira

sábado, 23 de janeiro de 2010

O sábado sabe.

A chuva sussura seu nome
por entre as folhas
que derruba

as nuvens são meus dedos
que envio para ver como você está 

o vento tem o seu perfume
o seu rosto está nos meus livros

Prometemos como o nosso céu

A vida não muda
cada engravatado de hoje teve um sonho
como os meus

e se a mulher atolada em dívidas
teve a impressão há trinta anos
de que o mundo não lhe faria mal
ela estava errada

o mundo o mercado as obrigações
se encarregaram de soterrar
cada invencionice dessas cabeças ferventes

e se nem eu mesmo entendo um décimo de minhas aspirações
quem são eles para julgá-las
relegando à gaveta das inviáveis
das que não se concretizam fora da vida hippie

se o mendigo é assim por suas escolhas
não certas
o burocrata também

e se não há luz para além de se deixar
levar, o suicídio não é uma opção
e é muito fácil coagir com dinheiro
renuncio

não aos sonhos, mas da vida em que
os sonho
para viver o que já é plano

Passou.

A ausência era uma presença que incomodava, Julieta partira e ele não conseguia mais ferir o papel sem lembrar cada vez que seus dedos retiveram aquelas mãos e isso imobilizava. Um acesso de fúria destruiu a máquina de escrever e queimou todas as folhas, à loucura da convivência que ele recusou seguiu-se a loucura dela ali intocável em poemas, acessível em lembranças apenas. Ele decidira e Julieta aceitara achando que era melhor mesmo ele ser impassível neste ponto, ninguém desconfiava de que seria a poesia dela a que seguiria menos transtornada nisso tudo. E cada verso tinha o rosto dela sorrindo sarcástico sabendo. Não havia lágrima, só vinho e deitar no colchão olhando o teto, as moscas no teto e como as infiltrações no teto tinham a forma de um sorriso específico. Ele culpava o barulho do ventilador por não conseguir escrever, por ela estar livre e ele preso a algo intocável que não pode recuperar.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Semáforo

Ando devagar na contra-mão
dos pensamentos
que atropelam os sentidos
os atos e as intenções

a escrita é um bocejo
quando quero parar de pensar em você
quando quero parar de tudo

a poesia é um bocejo
quando quero parar de escrever
e não consigo

dizer que a leio em tudo não é suficiente
dizer que é tudo o que escrevo também não
já é uma parte de mim dizer
e saber e parar e hesitar
e seus olhos na minha retina/memória

se esteve tão claro esse tempo todo
e se tudo se restringia
por que seguir
por que esperar
por que entender
ou parar e pensar

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Blues da garota que passa

Sun, sun, sun, here it comes
George Harrison

A saia já é o começo do sorriso
é o vento que afasta nuvens
e abre as portas
das pausas decididas
dos gestos ensolarados,
de quem sabe e se diverte
sabendo o que quero


Olha de lado, mas olha
só quer prender meu olhar
e prende, não solta
me mostra que é o desvio
a calçada é sua
os olhares da calçada
e faz como se não fosse com ela


Como se as artérias do trânsito
fossem construídas
os ônibus parassem
a cidade segurasse a respiração
para quando ela passar
procuro fôlego nos bolsos
quero suspender o momento em que vai


se a calçada acabasse aqui
sua presença permanecia
como caravelas no horizonte

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Poema do dia recente

Uma inundação de você
uma enchente
dos silêncios dos gestos contidos
sorrisos desabridos
olhares nas entrelinhas
trocas que não planejo

uma overdose a que não sobrevivo
me afogo e não quero nada além
do que já tenho

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Don't you do it to

A lira desafinou
o compasso desandou e não sou senão poeta

prédios tão altos
e noites tão escuras
firo tatuo o papel com o que não importa

jogo a bituca em qualquer lugar
minha respiração se deixa entrecortar
por ruídos de pneus
e sinais de fumaça

jogo a garrafa em qualquer lugar
perdi o último ônibus

se há uma orquestra destartalada por tŕas
e um infinito abusado pela frente
por que escrever?

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Manchas de café

escorrem sem manchar
as marcas não se apagam
e por isso não são manchas,
mas parte da paisagem

são a pintura das paredes do nosso prédio
sólido em construção ainda

Coração menor que o mundo.

O que sinto é pequeno como este poema,
um instante capaz
de cegar todo o resto.
o que prometi, vivi esqueci
só tenho falas soterradas
a garganta entupida
e a tinta não escorre.

O mundo é verde-musgo

Queimo meus livros
corto as cordas do meu violão
não quero mais fugir para o méxico
e nem sei se vou dormir
ou comprar cigarros

a cidade é cinza porque o céu reflete os faróis
da madrugada inconseqüente
o que escrevo não vale a pena publicar
ou traduzir
é mentira, ilusão, farsa
chamem como quiser

Dunas movediças

A chuva fina é um cobertor sobre as decisões que não tomei
atos que caíram de maduro, podres aos meus pés
agora piso, são com as minhas e todas as palavras
valem nada
são a escada com o degrau partido
ou meio-partido a rachadura estava escondida
caí de bem alto quando tentei subir
quando tentei alcançar
piso em meus próprios calos e não sinto nada
escorreguei em um vazio sem pensar
e para não pensar e para não agir
uma bolha que me joga na cara todas as misérias
de que sou culpada as minhas e as alheias
a madrugada não termina
me levem às duas da tarde
não quero ninguém na estação

Espelho

O mundo é sempre o mesmo porque as pessoas mudam
o ruído que elas fazem muda
as intenções também
os rostos mudam
e as expressões se mantém

promessas têm esse nome por ser relativas
por quebrar o que está assentado

falho em atingir
em saber de palavras
que me enganam

domingo, 17 de janeiro de 2010

Aspirações noturnas

Casa velha, não estou só
numa mão a mão de alguém
na outra a luz da lua que entra pela janela aberta
deixa ver que seguro algo
uns papéis
amassados em que um vento mexe

Umas, poucas, estrelas brilham longe
quase prometendo
o estrondo de nuvem
e o cheiro de tempestade

Casa vazia de pé-direito alto
o passado grita, não estou só
as cortinas rasgadas
o vinho derramado
o cinzeiro cego e mudo
nos seus olhos meus olhos perguntam
e na minha boca ecoa uma certeza
atos, maiores que as palavras,
são os meteoritos de que preciso

crateras são perguntas
e não dúvidas na noite que recusa
a casa quer dizer algo, mas, tímida, sugere apenas
sua mão é o que sinto
e seu rosto memorizei
seus gestos não sei , estão um pouco borrados
e a boca não prevejo

sábado, 16 de janeiro de 2010

Felinos

bukowski gostava de gatos
eu gosto do ron ron deles

gosto da independência
de como não precisa de mim ou de minha autorização
pra nada
e não quer dizer que não goste
ou que quer fugir

talvez eu seja controlador demais, mas gosto deles
de como o desdém deles me arranha
e não quer dizer que não goste
talvez queira dizer que mereço um afago de vez em quando
e saber que não me esqueceu

e isso é gostar de um gato
sabê-lo aventureiro
mas não desapegado
não frio e pouco acessível

um gostar bem livre e sem amarras
ele vai e volta e mudou pouco
o ron ron é o mesmo
e as garras estão tão afiadas quanto
mas senti-lo perto compensa qualquer coisa

*Esse poema é fruto de um desafio, propôs-se um tema para ser desenvolvido em dez minutos.

Bauhaus

Para a Ju.

Uma linha em um céu simula uma realidade
Um céu que é espelho
e que a cada camada modula
assim é o que sinto um ritmo em equilíbrio torto
muda de tom por qualquer coisa
do roxo de raiva ao verde abacate porque sim
porque você iluminou de um jeito diferente

a realidade que projeto é muito parecida
mas não é igual
na minha tudo é mais ampliado e mais
dramático toma proporções grotescas
de relógios derretendo e coisas assim
ínfimas infinitas
cuja forma serve à função
e nunca o contrário.

quero mais perto
mais vísceras
seu humor oscila e o meu com ele
minhas ações são estáticas
sempre querendo o mesmo
sempre querendo provar
a cada mês
semana
dia
hora
respiração
que nós somos algo que vale mais do que nós mesmos.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

head shot.

Era regra nunca perceber o corte de cabelo dela. Sempre fazia isso. Por trás da desculpa, você é sempre bonita, ainda estava o grande defeito. Ele não percebera. Ele não percebia. Em qualquer tempo, modo e declinação era possível saber. Um pseudointelectualunderground que pede desculpas, não o é verdadeiramente. De resto tudo vai bem, suponho, trocam poesia e se fazem promessas. Contam os sonhos, contam coisas que nenhuma outra pessoa no mundo entenderia. Eles são importantes. Intrinsecamente importantes, dentro de um anonimato externo, internamente se importam com algo ou com tudo.

Cronológio

O dia era bom, pedia que ficasse em casa, recolhida, sem ver ninguém, sem falar com ninguém, ouvindo Portishead, bebendo vinho, talvez assistisse a televisão, talvez deitasse na cama e olhasse o teto. Estava apaixonada, saiu à rua com esperanças e teve a impressão de que as flores desabrochavam ao simples toque de seus dedos. Ao som de pássaros cantando e vento penteando a relva, teve a impressão de que os varredores de rua diziam bom dia e que os barulhos dos carros deixavam aberta a porta para o sussurro das pessoas. Andava tão distraída , satisfeita consigo mesma, que não prestou atenção ao atravessar a rua e foi atropelada por um ônibus. A morte foi atribuída a um fratura no fêmur e várias outras faturas em outros ossos, todas causadas pelo impacto com o veículo. Entre seus pertences, que ficaram espalhados pela rua após deixar a bolsa cair, estava uma edição de O Caso do Vestido, de Drummond. O motorista fugiu do local sem prestar esclarecimentos.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Um copo e uma garrafa na madeira escura
isso é minha poesia
receber o mundo de qualquer garrafa
na noite dos sentidos que se escondem
atrás da lua e nos meio-fios

A rua é um silêncio num deserto
de carros que ignoram carros que ignoram gente
o barulho é pouco usual
mercúrio derretido numa frigideira
a fumaça é pouco usual também
pedaços de memórias esfaceladas contra os vidros
compulsoriamente fechados
o ar-condicionado à toda ruge
a rua é um túnel com altura mínima para navegar

Fora de temporada

É preciso que ela não esteja 
em todo lugar que você procure pra poder 
perceber que ela está em você e isso é irreversível.
Eloisa

te leio em caligrafias estranhas
e mulheres desconhecidas
não é raro topar com um gesto seu
sorriso seu deslocado
palavra sua fora da ordem
num muro em outros rostos
em postes e constelações
em letreiros luminosos de outras proprietárias
só vislumbro você

Many fast cars

um verbo que inventa a si mesmo
inventa uma ação uma ação e suas conseqüências
tenho escrito para fora
tatuando o que levo dentro em outras peles
imprevisíveis

domingo, 10 de janeiro de 2010

Anoiteço à meia noite com você aqui
os dias são longos
só acabam na hora de chegar em casa e escrever poesia

você é de porcelana
fragilmente
rodopio ao seu redor
ao redor de momentos cristalizados
que retive num lugar anterior
à memória

bailarina de caixinha de música
pelas estradas sujas
faz evoluções, revolui
sem deixar rastro
sem perder o que delicado
mostra que é
mostra que transpira ânsia contida
prevenindo oscilações

com seu tom de voz aprendi a evitar extremos
porque o do sorriso é o da lágrima

sábado, 9 de janeiro de 2010

Sábado 09/01/10

Eles nunca se falaram pessoalmente. Mas acharam normal ter o telefone um do outro prevendo alguma eventualidade. Se conheciam pouco, de amigos em comum e conversas talvez breves, mas profundas. Sobre assuntos que ele, presunçoso, achava que nunca ia conversar com mais alguém. Agora sentados em um bar pela primeira vez ela o analisa, ela que à primeira vista parece tão tímida, não deixa passar um detalhe. Ele cortou o cabelo, aquele garçom está olhando pro meu vestido.
Ele está sem-ação, a acha madura, talvez um pouco sensata e se acha incapaz de ir de encontro aos interesses dela. Ela está curiosa, com a impressão de que ele não quer lá grandes coisas daquele encontra, talvez mesmo não a valorize como deve, está insegura.
A cerveja é o ponto de encontro de mentalidades atribuladas pela presença de uma outra. Um fixa aos cigarros, enquanto o outro se agarra aos olhos que parecem se afastar. Talvez não tenha sido uma boa idéia ir ali.
Ela estrala os dedos e isso dá agonia. Se levanta e vai embora assim sem mais.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Internet 08/01/10


*isso é parte de uma conversa que eu tive com a Eloísa no google talk um dia desses. Tardes no computador também são poesia, acreditem.


[...]
eu:  Sim sim
Ou não
mas é bom sim
nunca pensei sobre
 Enviado às 18:31 de

sexta-feira
 eu:  Acho que eu vou nessa.
 Eloisa:  Você vai e a chuva vem. há
Ainda terei companhia.
 eu:  Nunca sozinha
Sempre protegida
Ainda que quase nunca segura de tudo?
Eloisa:  Nunca segura de tudo.
Pronto, não te falta mais nada.
 eu:  dava um poema
 Eloisa:  São poucas as pessoas que me fazer ler em voz alta o que escrevo e você conseguiu.
Também pensei que sim.
 eu:  sintonia
 Enviado às 18:36 de sexta-feira
 eu:  fazemos um trato?
[...].



Poesia crônica

os dias em que não te atinjo
são os dias em que mais apanho
caminhos despedaçados
e portas nas entrelinhas

por onde seguir
se o lugar aonde quero ir
é o único que você me impede

sua boca é a lua que se afastou
por quê?
minhas palavras não criam círculos concêntricos
em nossa superfície
seus gestos podem encostar em nada
a conversa aqui é a pálpebra
do ar que não enxerga a si mesma
um cheiro de manhã inconclusa perturba

você tirando fotos do sono
da gripe
do horário torto
da ligação
do ron ron
se irritando quando perguntei
a utilidade da câmera

nunca te beijei
nunca segurei sua mão
nunca acariciei seu rosto ou afaguei seus cabelos
desconheço o porquê da confiança que tenho

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Quero saber sem duvidar
parar pensar hesitar assim
por que uma dúvida soterra o que eu gosto
a pessoa de que gosto e
tudo o que fiz para mostrar?

ela não me deixa escolha
refleti demais e cheguei a nada
pude nada
querendo tudo
vejamos qual é o futuro
se tem algo que eu possa desejar.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

poesia aspirada ou à medida da dor

conto a cada respiração
dois pensamentos em você aqui
um quando você me inspira
o outro quando o poema expira

Você perguntou o que farei amanhã

Amanhã fico em casa
pensando na vida
se o amor é ferida
que quero curar

se tem algo de abrigo
se é apenas castigo
se devo esquecer
ou se devo lembrar

a luz que me engole
me leva a sentir
que tenho algo a perder
sem você aqui

o que tive a perder
o que tenho escondido
agora repito
pra você reparar

mas não me arrependo
te quis e te entendo
se sou tão sensato
e sem medo de errar

me faço a pergunta
retorno ao assunto
quero saber
sem que te doa

sem que justifique
cada erro meu
sem que te faça
parar e hesitar

não uso o passado
não uso o pretérito
sem futuro também
pra nos planejar

uso o que tenho
é uma vontade
continuar e reter
o que houve de bom

nada houve de ruim
sem deixar de aprender
não mais padecer
não antecipar

apenas viver
mantendo o vício
errando sempre
(é inevitável)
sem medo de amar.

última barreira do deserto

o som dos carros afoga
em azul sem nuvens
a estrada não quer saber
de parar e perguntar
quer o agora do asfalto quente
e do céu inquestionável

Mittelalter 05/01/10

não entendi o desânimo súbito ontem
se teve a ver comigo
você ainda não percebeu
que sou melhor a sós com seus óculos?
que você é melhor a sós com os meus?

abro brecha incoerente
e sou errado

Rastros de sangue

acordei cedo e exalei
o último suspiro da madrugada
mancha vermelha num céu que me disse
você está enganado,
a vida sabe e segue sem medo

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Waltzing Matilda

Você é de cristal
fragilmente
rodopio ao seu redor
bailarina de caixinha de música

sua delicadeza é minha valsa fluida
que não retenho entre os dedos
mas que à simples memória
me faz perceber
por esta vida vale a pena seguir

o que é nosso é de cristal
pelos poucos registros
que não papéis
é frágil e bonito
funcional também
ainda que à margem de convenções
faz querer permanecer manter

Já te pedi calma e confiança em nós dois
e você lá impassível
se dizendo imperturbável

?!?

O calor da madrugada lembra uns olhos
Não que fossem quentes madrugadores
Transmitiam uma intensidade
que pulsava como a versão brasiliense
Desta nula hora do dia.
Hora que me refrearia em qualquer outra cidade,
Me faria esquecer deles
Mais que dos olhos
Do olhar e do sorriso -
Ansiados porque inconclusivos e vice-versa -
Que esta cidade nula, numa hora cheia,
me leva a lembrar; hesitar em
atribuir a ela a culpa
Preferia colocá-la nos olhos
Incisivos vagos de ar suficiente.





*este poema é bem antigo, achei perdido no meu e-mail e resolvi postar.

Crônica

Para a Ju

Nunca achei escrever lá muito fácil e não explico por que o faço usando a velha desculpa da necessidade que vem de dentro. As pessoas se entretêm dentre outras coisas em alinhar motivos para escrever quase como se fossem desculpas. A mesma coisa na vida, as pessoas têm que ter uma razãozinha para fazer as coisas. Nada é justificado por si só, em tudo há um plano ancestral concebido para não fazer a pessoa ficar mal perante as outras, mesmo que não as conheça. Eu escrevo por um motivo pífio, quase dá vergonha de dizer, mas é o único que explica o que estou fazendo. Não sei lidar com atos, as palavras são meu disfarce, meu jeito de acreditar que consigo mudar algo. O mesmo na vida, não sei lidar com atos, por isso me importa tão pouco (tem importado cada vez mais) o que os outros têm a dizer. O que faço é por si só decadente, então sair de um carro para vomitar e arremessar uma garrafa de vinho com muitos conhecidos, amigos e amigos em potencial assistindo é o ápice de nada. Nem da mediocridade. Disseram que houve estilo, e dessa afirmação eu gostei, um bonvivant oitocentista não faria melhor, fui um perfeito dândi. Foi cinematográfico, diria, sair às pressas do carro se escorar na primeira palmeira ainda com uma garrafa de seiláoquê na mão, vomitar algo que não me lembro de ter comido, arremessar a garrafa longe e tentar achar um lugar para mijar, e, não encontrando, fazer ali mesmo. Em retrospectiva me lembro daquele filme cujo nome, como de costume, me escapa. No trailer há um tigre e Mike Tyson no quarto de hotel de três homens em Las Vegas. Um deles pergunta am I missing a tooth. As coisas se são para ser decadentes, tais como escrever ou vomitar em público, que sejam feitas deste jeito. Dignas de aparecer em um blockbuster da vida. Senão não vale a pena.
Tem que, sendo já decadente, ser verborrágico para aparecer e ser palatável à platéia qualquer.

domingo, 3 de janeiro de 2010

Desafio dos dez minutos.

Fui desafiado a elaborar treze haicais em dez minutos e consegui. O resultado ficou péssimo, mas posto assim mesmo:


1.
Já não sei de nada
do que fui senti pensei
aqui me perdendo

2.
próximo tijolo
na estrada que percorri
não está mais lá

3.
o segundo uivo
e o terceiro grito meu
não se ouviram mais

4.
o ar não transpira
esperando as pessoas
o atravessarem

5.
espelho quebrou
me refletindo total
mente desgarrada

6.
as garras afundam
na pele do que não houve
mas não não foi ali

7.
caí e percebi
que não basta escrever
para fingir isso

8.
pronto já te digo
que a verdade vem à tona
se não procuramos

9.
não sei como faz
para escrever haicais
em tão pouco tempo

10.
agora já sei
as rimas vêm fáceis lá
onde não procuro

11.
pergunto a você
se é mesmo preciso amar
para saber tudo

12.
escavei resposta
de onde não procurei
achar mais indícios

13.
um tesouro escondeu
as respostas nos sorrisos
teus e só teus olhos

Açúcar-orgânico-cristal

A minha escrita se derrete
em lágrimas
estátua de açúcar ao
sol do meio-dia de minha tristeza
cristal fundido
orgânico
que choro pela ponta dos dedos
tudo
o que escrevi
o que senti
o que pensei
o que menti
já repeti que são gotas
no oceano de você aqui.

Àquela altura da noite enevoada ninguém repararia se aquele menino cego atravessando a rua sobre uma corda bamba se olhasse no espelho e fizesse a mesma pergunta em uma língua morta a se debater no asfalto recém-frio

as órbitas vazias de intenções pairam sobre o pavimento misturando-se à fumaça que sai dos bueiros

um caminhão quando vem à toda e acerta o menino o motorista é que se pergunta em língua morta por que a lataria não amassou

mas ele segue

a rua também é uma corda bamba e sempre pode vir algo maior que o caminhão e levá-lo e seguir

o próprio menino já havia feito isso atingindo a si mesmo quando se contemplou no espelho sem respostas

os faróis vazios de significados por isso mesmo dilaceram tudo inclusive o que não quis saber

tudo à tona de localizações de países distantes a atividades secretas das pessoas próximas do asfalto recém-turbulento

a placa do mendigo à margem da cena diz deus é cego surdo mudo e paralítico

como eu espantalho das moscas com meu chapéu sem copa e botas furadas

trepidando o caminhão a corda o menino o espelho e a rua sob um olhar atento de estrelas que se fazem pergunta nenhuma

sob um olhar atento de revoada de andorinhas carnívoras de ossos

otimistas todos em suma sabendo a corda é bamba e o atropelamento iminente

uma pergunta é uma bomba um monumento ao que se quer destruir seja por hesitação ou por vontade de descer da corda e sair do meio de uma rua que é simples artéria de muitas outras

sábado, 2 de janeiro de 2010

Esqueci de quando as orquídeas em bando imploraram
aos berros tocaram meu rosto, mas não
me convenceram de que tudo ia bem
pensei dispensei sorrisos
e elas se foram, raivosas

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Poema sobre o ano-novo

Para o meu patinho

As lágrimas de fogo que escorrem do céu são pífias
se comparadas às multidões de gritos
e sorrisos e sons

a noite é uma língua que leva a todos os lugares
mal-iluminada serpenteia jurando
no ano que vai nascer
um dia que é promessa se erige em concreto ali
promessa intermitente como um farol
num horizonte de todas as cores

cada sofá e banco de carro é um pedido de desculpas
cada camisa branca veste um atestado
em cada taça de qualquer coisa flutua a garantia
de que ali as garantias estão suspensas
e a brisa à beira do lago é um sussurro respondido com um sorriso

os violões rasgam as roupas da neblina
com seus dedos inábeis sob o olhar atento
de um deus menos presente
menos antediluviano

cobertos pelo lençol da chuva frágil insistente

viver é esperar a próxima espera
mas nessa noite ninguém pensa nisso
dentro da espera, faz-se
e não importa como vai voltar

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

A bíblia resumida

Saio do bar sem ter como voltar para casa
segundo uns eu não devia fazer
sair sem saber

uma amiga me perguntou quantas melhores amigas eu tenho
e na sua frente
o que eu respondo numa ocasião dessa?
se não te considero uma amiga comum
o que te torna aos meus olhos inclassificável
não queria que o que digo soasse falso depois de ter bebido
ver seu sorriso, que você virtuosisticamente varia,
é sempre bom
tem o contraído que presta atenção na conversa
tem o que se escancara quando você vê alguém
que há muito não via
tem o sem graça quando eu tento olhar nos seus olhos
prestar toda a atenção te elogiar
e puxar assunto ao mesmo tempo e falho

ler a carta também é sempre bom
mas você ali
supera tudo
a presença com que eu contava
mas que ainda assim surpreende
cito de memória algo
a incapacidade de apreender a peculiaridade um do outro

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Se o dia amanheceu bonito
devem ter regado com a noite
chovendo lágrimas sem orvalho
os canteiros de sentidos que agora
florescem como girassóis procurando
os grãos de pólen da luz para germinar

se o dia amanheceu feio refletido em escritos
cinzentos de nuvens trazidos
calmos sem relâmpagos como o dia
a que almejei
o vejo assim mesmo
borrado
água demais
teto branco baixo demais
faróis que ofuscam mais que o sol que substituem
a própria poesia sai muito densa
palavrosa demais pretendendo o que não devia

os postes não são duchas tão boas
para quem volta para casa tarde
ou prefere se abrigar sob os bancos

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Mundo perdido

Quando encontrei Juan estirado no chão de seu apartamento, havia sobre a mesa da cozinha uma carta incompleta ainda, que transcrevo aqui para que possam entender tudo sem difamá-lo. Uma parte do escrito está manchada e ilegível, mas isso não apaga a vontade de reabilitar a memória do meu amigo. Publico o que consegui entender.


" Juan Gelman, Barcelona 19/03


Me pergunto por que insistir em continuar a viver num mundo que torno mais sórdido a cada minuto em que piso nele. Mas a decisão já é tomada. Sou fraco e incapaz de mudar as coisas para melhor, esta decisão talvez seja o único ato de vontade próprio que concluí na vida. Aceitar o que me foi vendido, com todos os sentimentalismos eufêmicos, só me trouxe a inércia de saber que posso nada . Não posso, nunca pude, ao menos querer ser nada, mas, ao contrário de Pessoa, estou vazio de sonhos. Cada luta foi vã, perdida de antemão; amor, dinheiro, sexo, câncer, poder, poesia, álcool e nicotina, são substitutos. Nomes falhos com os quais é impossível tapar o vazio em cada existência. E se ainda há quem se pergunte por que é essa a época em que o maior número de pessoas se mata, a resposta vem fácil. É simples, é a época mais feliz do ano, de uma forma artificial - uma forma que escancara a falta de preocupação do consumismo com o dilaceramento das personalidades. É mais fácil e estimulante acabar com a própria vida agora porque percebemos o quanto nos falta para atingir, em qualquer campo, uma plenitude que é exigida e nunca alcançaremos. Por isso a opção pelo caminho mais egoísta. Não há dor que sufoca e aprisiona, apenas uma escolha racional, uma opção por não partilhar mais dos ideais falidos que nos obrigam a comprar a cada dia...

P.S. 1
P.S 2: Minhas únicas testemunhas são aqueles que nunca falharam comigo. Tom Waits, Lambrusco, maço sempre meio vazio de Marlboros vermelhos e quatrocentos e oitenta e sete pílulas de ansiolíticos."

Veloz

Este poema é breve porque sei
que me espera nada

chaleiras apitam à passagem dos fios
cortados do que fui
com lágrimas de vapor prenunciam minha urgência
de marionete
em articular
por impostação fazer crer que sou
que penso escrevo e logo insisto

a luz do palco me cega
mudo não comunico com o zunido surdo
do que implora para ser escrito
descrito
transcrito
proscrito
subscrito
Ela estava pensativa desde que o computador pifara. Não tinha sido uma boa boa idéia jogar cerveja no processador para fazê-lo funcionar mais rápido graças a uns agrados. Queria fazer a pergunta derradeira, jogar na mão de outra pessoa aquela escolha que sabia não haver porque a resposta era óbvia demais. Continuo insisto e permaneço ou com o rabo entre as pernas conservo lembranças do que foi bom enquanto intenso?

Esperando lá, na chuva. Não poderiam ter me esperado dentro da lanchonete?

domingo, 27 de dezembro de 2009

À anfitriã

Poema escrito na magrudada na casa da Júlia às 05:32
Palavras na calada
da noite dos tempos do dia
ecoam mas não rebatem
porque ficam
porque atingem e seguem caminho
entre abismos de desprezo
indiferença e acolhida

na multidão a não esqueço
pairando sobre o que vão dizendo

palavras na calçada
correm dos postes
recorrem a cigarros que iluminam

pensamentos erráticos
e conclusões preciosas que atiro ao ar
não conseguindo segurar
nos meus dedos gastos

tocar por trás de um muro
que quero demolir
na ignorância
cinzas de não saber como agir

minha consciência é a de esperar
agir deixo para os pássaros que em gaiolas
observam de longe

sábado, 26 de dezembro de 2009

Haicai-encontrado num bolso

Espero para
te dizer o que fui ontem
mentindo agora

Haicai-ornitológico

Pássaros em fios
invisíveis batem asas
choques no infinito

Haicai-pressa

O poste já foi
e eu não vi seu som ardido
Noite interna minha

Sem dúvidas

Ex-você na ponta dos dedos
Porque agora quando sorri
Sorri de esguelha

Spleen/saudade menos blasé

Me acomete a tristeza indescifrável
como a tosse sem causa
e o alfabeto asteca

as crateras na lua dizem menos
do que já disseram
refletem o teu olhar mais torto

A norma oculta

Amanhã você vem
e eu fico sem sorriso
meu
teu
nosso que não houve
ninguém soube tomar seu lugar
o lugar de mãos de pianista que acenam
Ao longe
De longe
Pra longe
ou vou ou fico para parar de pensar
ou parar para pensar
nas culpas escondidas a um canto
que quero exterminar
antes que você chegue
antes que as luzes se apaguem e eu me perca de novo
e elas se espalhem por aí
tenho que ser rápido
amanhã você vem

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

A caverna

Cabeças rolantes como os queijos pelas colinas
sem ter dependido defendido
maços pelos campos de guilhotinas em flor
de espelhos e pétalas de suspiros

nuvens em formação atacam
nuvens
cactos refletidos em um deserto
não mais silencioso
suspiram
expiram
exalam

como roupas postas para secar
à espera do vento que resolva

sobrevivi

Os malabarismos falharam e me sinto bem
por ter tido todas as chances roubadas
de mentir e disfarçar

nenhuma estátua chora mais
ou sangra
todas já cansaram de inventar motivos
para ficar tristes

nenhuma pena vale mais
o que valeu
quando quis saber por quês
em velas meio apagadas
e maços meio comidos

um pássaro me veio dizer que sim
que estive errado e era tudo drama

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Poesia gelmânica

Tenho uma maçã para oferecer e só
meio enferrujada, ainda está boa
parece que as asas dela estão emperradas
basta espanar um pouco esse pó

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Haicai-autoescola 5

pus o que me aflige
numa carta que perdi
olhando em seus olhos

One-track mind

o silêncio devora as palavras
nas entranhas claras da noite
iluminada por postes caducos

hesitante aprisiona
apreensivo digere
dita as regras do esquecimento
sempre indeciso
sempre adiado

o silêncio apaga a silhueta dos atos
um telefone que toca na madrugada
e que ninguém lembra de atender
os contornos do som indo longe
miragem na distância que os dedos não alcançam

liberta do que prende aqui
substituindo o vivido
por prótese
a que me resignei
quando me amputaram as palavras

recolhe os pedaços que caíram
e junta fora de ordem

alinha os escombros que te formam
antes que venham ver

fazedor de quimeras que como
nuvens rumam para o sul
de que não lembras mais

absortas obcecadas em procurar
as pegadas do que foi apagado,
uma mancha nas lentes de uns óculos
não se nota, se sabe

o silêncio é uma estátua em chamas
no escuro do que foi dito

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

digitar as runas do que sinto em teu rosto
de monstro mitológico
inexpugnável como aquelas muralhas porque
ininteligível despreza a tudo e todos
quero seu corpo dobrado em cólica gritando
e em outros momentos também

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Feito de cinzas

vou desbravar a geografia dos seus lábios
que, impassíveis como um pôr do sol
a que assisti refletir o que me cega em
seu olhar,
desabrocham em rosas irônicas
pavimentando meu caminho áspero

segurar suas mãos é sentir o mundo sob penas
a correr pelas minhas veias
exército delas
macias diminutas e vermelhas como o seu cabelo
sempre me fazem esquecer todo o resto

acariciar teu rosto de estátua que desdenha
rosto cálido e seus rios ainda não conheço
é saber que o erro está ao dobrar da esquina
sendo que a única solução é o maior deles,
gritar para que todos saibam que te quero

em meus braços
em meu papel
em cada ato desgovernado
em cada gole novo de vinho
em cada cigarro mal apagado na noite
cujos passos perco de mim caindo

subir no poste mais alto e agir
como o marujo imprudente,
avistar a terra não tão firme assim

te escrevo como quem desenha
de memória
o mapa de um labirinto recém aprendido
pelas pontas dos dedos
respirando fundo e sem calma

domingo, 20 de dezembro de 2009

catadores de pedrinhas, às margens dos rios, à espreita

Quero uma palavra
mas não qualquer uma porque já conheço muitas
evito que seja muito sorridente
evito que tenha um olhar que traga à tona milhares
de perguntas
uma palavra sensível que me enraiveça
por não traduzir o que sinto
e que me tome todo errado
entregando uns significados imprevistos
a quem passa e observa

quero uma palavra pra mim
que não se deteriore depois de
três meses muito intensos
uma que mantenha o significado pra sempre
mas que seja tão voraz quanto e tão escritora quanto
qualquer outra
que saiba que à luz da lua e à luz do abandono
todos os poemas foram tatuados

quero uma palavra encharcada em álcool
embalsamada por mãos antigas que entendam
que ela precisa voltar inteira
depois de tudo o que farei com ela

Elegia soviética

Para Dona Nídia de Miranda in memoriam

andropov é o poder ao povo
sobre as máquinas e o dinheiro
acumulado nas mãos de poucos
não mais

brejnev distensão e batalha
mortal rindo de watergate
arrecada e trabalha
para todos

kruschev não continuísta
renovador
quase anti-trabalhista
ri do vietnam do sul

tchernenko estertor agônico
canto do cisne do que funcionou
a todo vapor, irônico
seu sucessor

gorbachev abre as pernas de tudo
para um capital doentio
numa virada absurda
de reformas inconsequentes

stalin máquina de guerra
não sabe o que são estatísticas
e os mortos que enterra
contribuíram

lênin fundador de  fábricas
e de sociedades paradisíacas
derrama última lágrima
por sua entusiasta

sábado, 19 de dezembro de 2009

Haicai-autoescola 4

Sei de nada quero
tudo menos escolher
caminhos não líquidos

Haicai-autoescola 3

Tá, os seus são únicos
Mas na falta deles, bastam
Tá, é mentira, não bastam

Haicai-autoescola 2

Não se veste como
é menos branca mas os
olhos são iguais

Haicai-autoescola

ela lembra você
irônico demais
mas pura verdade

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Pixies throughout the place.

Assustado desprevenido
recolho escombros de mim so
nolento

pedaços do que fui
tentando esquecer o que

sou o que fiz

cato todo tipo de restos
que caem do meu corpo
à medida que morro

já procuro nada
está tudo perdido
soterrado o corpo vejo a mão
que pede ajuda por entre
escombros

outro dia mexendo uns livros
 velhos
achei duas notas fiscais daquel
es tempos
de cafés na rua nove
e lembrei do frio que me
perpassa e desmorona
retive seu sorriso de então, acredita?

daquela madrugada em que choveu conosco lá

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Cada angústia é gaiola de um pássaro no peito
zune e se debate
anseia, mas insatisfeito
assiste impassível
ao desfecho que não controla

Pássaro acorrentado ao que já
foi
de asas cortadas
e sorrisos perdidos
rememora papéis
registros escondidos de
cumplicidade não almejada mas atingida

Pássaro ferido de asas abertas esperando
sedento observa
como a comida vem muito aos poucos
naquelas gaiolas que não são prisão em miniatura
e sim o lugar que buscara
a clausura divertia um pouco
até porque dava a impressão
de que poderia sair

Cada cigarro é uma chave falsa
que abre a porta da angústia justo o tempo suficiente
para o pássaro achar que se livrou

cada poste que se apaga,
centelha que morre na rua instável fumacenta
é uma esperança a mais para quem
vê apenas os reflexos da lua

cada máscara desta cela já conheço
de já ter voado ao redor como mosca
atrás da saída

Tragédia moderna

triturado pelo dia em abandono
penso em você
no desdém que nega ter
nos olhos longes guiam menos
meus passos meus gestos
minha boca é raiva e a sua
não esconde mais um sorriso

torturada pelo dia
a folha que cai é o que deixei para trás
o que ainda quero que sejamos, mas
me abandona aos poucos
errei sem volta.
cansa ter que dirigir meu pensamento
a uma escolha
dirigir o que escrevo à que me acusa
de ser cego pra longe

o que há perto, é fato, agrada mais mesmo
tudo que se afasta me relega
ao cansaço do esquecimento que não quero

Diatribe

o que foi que você disse
solto por aí
sentados num lugar
que nunca entendi
?

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

El rulfo 2

Árvores suspiram porque falham em me fazer
parar de fumar para parar de pensar em esquecer, Luísa
como se eu pudesse desviar do que me acerta
e me atordoa
rotina eu quis e a que tive
a que tenho me faz escolher entre lembrar
e deslembrar, pedir e desistir
ou desentender despedir e continuar
para seguir num caminho que torno mais dramático a cada passo
você lembrou o tema da primeira poesia minha que leu
e isso não me tira todas as reflexões desanimadas

mapas: rascunhos de topografia

uma praça da cidade besta de drummond
dois sentados e um sabiá
num balé desconcertado de palavras
sem concentração mantiveram pouco
do que prometeram sem esforço conservar
o que sobrou para agora além de papéis?
algo de intocável
algo de desdenhoso
uma ruela da cidade imaginária de bandeira
esconde com seus postes intermitentes
umas razões
de ser de e de deixar de ser
que dão voltas a trezentas revoluções por minuto
mosca kamikaze vertiginosa vorticista

recuperar porque prometi quinhentas folhas
prometeu-se muitas coisas
e você diz que eu fiquei devendo

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

fluxo-anti

Sentada no ônibus que passa vai uma paisagem
que grávida do que deixo para trás
pergunta se o aborto é realmente necessário

o pedinte me oferece pastilhas para a garganta
e não tendo o que procuro
vai

o pedinte quer me vender pílulas para a memória
em versão normal e milagrosa
já sai do bueiro mostrando-as

mas eu não quero lembrar
e eu não quero esquecer
quero substituir o que aconteceu

uma prótese para o que pretendo amputar em mim

Français très facile

Nem sempre esperei
A quis e consegui
Por segundos achei que consegui

Ciclo findo

uma pedra esmaga o meu melhor
suspenso intermitente
cuja morte é só mais um tipo de existência
incerta
de que não fujo e que não procuro

domingo, 13 de dezembro de 2009

Sexta ali quase perdida

tinha tempo que eu não me divertia assim
sem pretender nada
nem no sentido português
nem no sentido inglês da palavra
pensando em quase nada talvez em porque
das pessoas que saem do nada
conversamos e conversamos como se houvesse
um amanhã que não preocupava
eu cansado do mundo e você cansada do trabalho
fingindo que não queria ir a festa alguma
achando que me engana com essa carinha
brasília é totalmente diferente à noite à luz
da igrejinha e do cheiro de cachorroquente
houve beatles e o disco deles seu favorito é o meu
também ouvimos algo do que outro disse
e a noite
não se perdeu por um daqueles imprevistos
tão comuns
imagina só, parada de metrô do final da asa sul
de madrugada pode ser mortal às vezes
ou não, depende

sei que valeu a pena perder a festa
tinha tempo que não falávamos e nos víamos assim

sábado, 12 de dezembro de 2009

a entrada é um vão escuro com uma escada
e a promessa paira no ar como a garoa
distorcida pela luz dos postes intermitentes
o homem do outro lado da rua observa
a lua que observa o movimento dos que entram porque
se não gostarem deles lá dentro já não saem
bem pouco foi mantido depois daquele incêndio
só digo que os conservadores foram a favor de não reformar
e fazer tudo entre as ruínas e as cinzas mesmo
ganhou uma outra ala, a renovadora, que reconstituiu
no mínimo dos detalhes a lamparina com insetos
e a chapeleira em madeira escura no saguão
de luzes parcas como os primeiros frequentadores

um cheiro é peculiar se ninguém sabe de onde veio
e assim são as memórias que não vividas
afloram desabrochando nos dedos de cada um ao menor
toque como rosas tímidas esperando o primeiro movimento do namorado
memórias sem grau de parentesco com peso do que
já houve

tentar esquecer é evocar novas vivências ainda que não
próprias

a rua em frente é deserta habitada pela lua
pelo astrônomo e pelo cachorro
carros não podem parar perto do portão enferrujado
corroído pela passagem de tanto o que esconder
e pouco que aprender nunca lugar
a que ninguém vai para isso mesmo o motivo
de atravessar uma rua um pouco longa em semipenunbra
e cruzar uma passagem que exala

mendigo eventual passa com sua carroça é impedido de seguir
por aqueles que sabem que desejam esquecer
tomando para si o que foi de outros
a memória falha em roubar, num alzheimer contrito
arrependido dos pecados por isso me contento
com lembrar só o que tenho
e com escrever o que não vivi

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

No one knows it's gone

aquele lugar era meu refúgio
árvores e cigarras e as coisas eram verdes
e puras
o passado - talvez porque idílico - é sempre melhor
e banquinhos e bonbons já não há
só ruínas de mim pedaços tortos jogados pelos cantos
eu fumava bem menos e tomava sorvete
porque sim
uma ou outra tarde sem bigode que
ainda tinha caminhos a ser percorridos
e poemas a ser escritos na pele vertiginosa
de acontecimentos em profusão
tudo foi fato e tudo foi novo e tudo foi puro antes da ferrugem
cobrir com poeira fina mas impregnada
o que hoje é um ferrovelho
parquedediversões de umas lembranças
curiosas
sem ninguém pra espanar
lembranças com órbitas vazias abrigo de vermes
que singram a carne não para corrompê-la
mas para descobrir o que houve
e de alguma forma preservar não sei pra quê
destroços de civilizações antigas que cultivaram
como tabuletas astecas brotando do chão
é isso que esses vermes procuram mas falharão em encontrar
poesia é estes vermes que não se sabe se mais ou
menos moribundos do que o que escavam
do que gostei está estirado
jaz em algum lugar esperando enterro digno
sobrou a estátua sem braços morta no meio de um jardim

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

deitado num banco acendo um cigarro olhando as nuvens
de bigode alemão e de nave espacial
sem dinheiro não quero voltar a pé
estou esperando algo acontecer
e não sinto esse cheiro no vento
nem de carona nem de ônibus
o conhaque está mais caro
os suspiros estão mais caros
e os sorrisos e os gestos nada mais é de graça
ou pelo menos tudo hoje requer dinheiro para ser feito
só quero dormir e esquecer das pernas
que ela já não se incomodava em fechar na minha presença
do cabelo fino perto da nuca e dos cigarros
devorados
abre a boca e fecha os olhos que aqueles mexicanos
estão nos encarando
já te disse pra não usar esse salto que ele me machuca
nem é porque você fica mais alta que eu
os pés mais suaves para a alma mais suja
talvez mais suja que a minha
a cerveja era tão amarga quanto hoje
mas era mais divertido sair sem pagar ou embebedar
o dono e seu cachorro antes de fazê-lo
quando começou a chover tudo o que você disse foi verdade
porque era mentira pela qual lutamos
grita comigo se você não tiver ido embora
e vamos voltar a fazer poesia
com a caneta e com os ossos
sem atrasos pra agora se você ainda estiver por aqui
e ainda quiser algo disso
e algo mais que ficar deitado nos bancos sem retocar a
maquiagem e os olhos seus que presumo borrados agora
me fale de sade que eu te falo de cortázar
antes do fim de um mundo que vi pela sombra
que era ideal e que não quero que tenha acabo
à força de minhas elocubrações
à força dos erros obsessivamente repetidos que revolvo
deitado num banco fumando um cigarro olhando a lua

Gaivotas são ilhas solidificadas no meio do ar

Está frio e abafado aqui
O tipo de clima mais estranho
Um tanto claustrofóbico
Como úlceras que se abrem
No ar e aprisionam

há espera e desespera
e vontade de solução ou
de manter o que está
noivas contendo a vontade de correr do altar
para os braços do marido
para os braços do amante
para os braços do pai e dos bichinhos
de pelúcia

dedos se abrem e não encostam
hesitam em tomar a decisão
e isso já é fazê-lo
na falta de habilidade para abrir um
sutiã qualquer
retirar os dedos é com certeza decidir

cheira a fritura aqui e isso não
foi deliberado
mas suportar ou não sim
dentre alguns caminhos vê-se um
percorre-se um desdenha-se um
em detrimento de todos os outros
nas costas de camelos
deste deserto anoitecido
em que estrelas e escolhas caem
como meteoritos maduros

cada centímetro avançado
é um que aumenta a distância
entre o que se é e o que se quer
ser e querer

eu vejo todos e não opto
inapto

Santorini

a manhã trouxe frustração
sem saber o que queria
nada funcionou e os postes desmentem
todas as intenções e algumas chamadas perdidas
amanhã será melhor se
deixarmos na estrada o que
nos trouxe em busca do novo que perdemos
esperarei três horas e meia e
nada mais
para que surja em algum lugar o que
quero só por não conseguir
entender por não conseguir tocar
e que não creio que me fuja
mas tampouco creio que se aproxime
a mim porque está indiferente ao saber que
gosto

venho pensando em parar de escrever
essa ânsia dói
não doerá mais ou menos se firo o papel
mas deixarei de precisar lidar com coisas

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Fell through the ice

nenhum dramaturgo conseguiu
por expressões e feitos
caretas pantominas e frases de efeito
traduzir o cerne de cada coisa
sem que a falsidade gritasse

é tudo representação

tudo é palavra e nenhuma me serve
quando um tipo de agulha me rasga
procurando em vão que eu resista
que eu escape
de uma dor que em ondas simples
e por isso mais demolidoras derrubam
do nada o tudo

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Tangled up in blue

Nem eu poderia imaginar que hoje me despejariam de meu apartamento. Eu gostava bastante dele até porque não era lá muito fácil encontrar apartamentos com banheiro naquele bairro que era o único em que meu dinheiro me permitia morar. Não sei se é bem despejo quando dá pra ver uma luz por debaixo da porta e barulhos. Meu colchão estava escorado na porta e era tudo. Sem aviso e sem resposta quando bati. A fechadura tinham trocado já. Como eu estava sem ter aonde ir decidi sentar na calçada e esperar até alguma coisa acontecer. Pelo menos não tinham me trancado fora da minha carteira de cigarros. Dinheiro era sempre pra mim uma doce ilusão mesmo, o problema era onde dormir. A vantagem era não precisar mais pagar os aluguéis atrasados. Decidi arrombar a porta e por isso subo as escadas correndo, pra pegar impulso.

the blues is dead and mark lanegan is a fag

aprendi de um jeito a andar
um jeito que ninguém usa mais
em que o chapéu torto e o cigarro
no canto da boca
não são sinal de irreverência
nem a jaqueta puída e a calça gasta
com o bloco de notas sempre
em mãos de ornitólogo insincero

manequim de magritte que vê o ovo
e pinta-o já gestado
com asas para desenhar a outros
tipos de ciclo no meu bloco

acende-me a estrela da manhã
que a sua janela escura me impede
de ver teu rosto

colhe a luz entre os teus dedos longos
aprisiona-a num movimento de sufocar pássaro
e prender cigarra

acende-me a estrela da manhã
porque aprendi de um jeito a jogar
pedrinhas te acertando
até que você acorde
sem querer saber que horas são

colhe a luz para que o brilho em teu rosto
resida
acomode-se
e sempre se saiba que dali não escapas

o rosto é uma mão que afaga e repele
com unhas mais afiadas que as de costume
aprisiona pois o que ainda não cativo
jaz estirado a um sol que não o teu

domingo, 6 de dezembro de 2009

naufrágio longe da costa, muitas pedras invisíveis










, fiz uma besteira outro dia com o fuzil. 
Quem ia saber que você também sofre do mal-caduco?
fiódor mikhailovich dostoiévski

o ventilador quebrou. a noite me sufoca sob um teto de nuvens tornadas brancas pelos postes excessivos. a prova disso são estas moscas em carrossel ao redor da luminária evocando o sorriso falso que nenhum dinheiro de que dispus pôde comprar. o olho vermelho da cafeteira está me censurando. é hora de parar. é logo desmentido pelo cinzeiro cheio. espere o fim dos sons da noite para ir. não a esqueci. também não gosto menos dela. é como fumar sabe-se que é prejudicial e que é uma obsessão que vale a pena manter. deixo as decisões para o momento em que baterem à porta. a retribuição dela ao quero te ver deitada de costas pra mim com a bunda empinadinha foi um sorriso curto seguido de uísque do copo dela em meu rosto. eu achava que espelhos em tudo. estofados de oncinha. água de colônia imitando perfume. trinta reais de consumação. me davam o direito de falar o que eu quisesse para qualquer um. tudo um rito de iniciação que permitiu começarmos a conversar. depois eu saberia que sob uma vigilância distante mas atenta. o que mais atraía eram os dentes brancos. uma assimetria nos de cima, um um pouco maior. dava vontade de lambê-los. falei de nerval e latréamont. que ela não conhecia. enquanto acariciava meu rosto olhava para os lados. nunca nos olhos. não tínhamos trocado olhares nem nada. o vizinho à esquerda martela nossa parede contígua desde que eu cheguei em casa. a luminária começou a piscar. gato malhado se esgueira entre dois prédios desviando das primeiras gotas molhadas. às vezes acho que o que me fez gostar de vez foi ela nunca receber antes. uma política de satisfação garantida. o pulso hoje do martelo em meus tímpanos é o pulso ontem dela arfante sob mim suado. em silêncio. sequer parecia haver esforço. tudo deslizava. os joelhos dela. ora em meus ombros ora em meus rins. nos olhos fechados carregados de pintura envelhecida um quê de recusa. quase no final ela arranha minhas costas. sem fazer qualquer som ainda. hoje estou realmente sem dinheiro. faz uma promoção. a rua estridente do outro lado da ligação entrecorta o que quero dizer. nem doida. tá querendo me passar a perna seu viado. o direito de pernada é uma reminiscência medieval. você sabe o que é. cala a boca. financia um pacote de horas pra mim. só aceito à vista e em dinheiro. você sabe. eu não tinha seu telefone. se é que ela tinha um. conversas por orelhão. o dia em que você se apaixonar por mim você deixa de me cobrar e eu beijarei sua boca. você e eu sabemos que é mais fácil acontecer o contrário. qunado ela desligou na minha cara fiquei com o cigarro em uma mão. o telefone em outra. pensando na tradução que estava atrasada duas semanas. a fumaça que trago é mais limpa do que  muito do que ela me deu. logo depois de receber o adiantamento pela série sobre o zé do beco comprei um vinho. mandei flores e um táxi ir buscá-la. desci para comprar velas. quando voltei ela estava sentada na escada do andar esperando. levantou-se e vi. maquiagem borrada escorrendo pelos cantos do rosto. pupilas gigantes. saia rasgada com manchas úmidas. o que mais me intrigou foi o cabelo. sempre solto. em coque. fiz com que entrasse. embora ele estivesse em meu colo a vontade era de afagar seus cabelos e perguntar algo. em silêncio dei banho. café. camisa que depois ela vendeu e entregou o dinheiro para ele. foi o que disseram. ela fingiu a própria morte na época em que adotei a estratégia de só revelar que não tinha dinheiro após o terceiro. fingido ou não. orgasmo dela ou o primeiro meu. o que viesse antes. o zelador foi convencido por ela a dizer que fora atropelada. as colegas de trabalho não atendiam o orelhão. o pedestre que o fazia não sabia reconhecê-la só pelo nome ou pela descrição. mereci um tapa e um abraço ao pedir uma cerveja. agora você aprende a não me dar o calote. comecei a ligar todos os dias. sem abandonar a estratégia. ele veio me visitar. arrombou a porta. quebrou o meu nariz e o telefone, ao avançar para a máquina de escrever o empurrei. o vidro trincou e a moldura amassou no ponto em que ele tentou se agarrar. já caindo. a ligação orelhão orelhão não pôde ser completada. atendeu um corretor de seguros querendo comprar ouro. tampouco a encontrei nas calçadas de sempre. nos bares de sempre. tanto é que acabei no primeiro. no do estofado de oncinha e espelho nas paredes. seria mais fácil achar que ela nunca viu a carta escrita num guardanapo. carta mais pragmática que romântica procurando. implorando por um lugar. para ir. para deixar. para incinerar. para esquecer para concretizar alguma coisa. em seis palavras pedi. escrevi em pé apoiado no balcão e a dei ao garçom. que achava que entendia a história toda por causa da variação do grau etílico dos pedidos. da margarita jovial ao uísque de milho para apagar ausências. fazendo com que prometesse que ia entregar. esperou eu ficar razoavelmente fora de mim para anunciar o que esteve esperando a noite inteira para anunciar. é hora de fechar. encerre sua conta. e todos os esforços são em vão porque ela se matou ao saber da morte dele. apago o cigarro arremessando-o por cima do ombro. a garoa. pó fino que arde na minha pele. me fustiga. não tenho pressa. o nariz retém memória da dor. vou contemplando a rua estática. mal iluminada. gatos copulando dentro de latas de lixo que amplificam seus ruídos. presenças intuídas tremeluzem. se esgueirando entre prédios. fugiam da água que crescia. o passante eventual me aborda visivelmente alterado. orbita outras coisas. olha em meus olhos. agarra meus ombros e os sacode gritando. ele a matou por ciúmes de você. talvez tenha sido a hora de começar a ficar preocupado. já estava ensopado procurando a chave no casaco da porta do prédio que dá para a rua. sob a chuva já muito aumentada. não sei o que o zelador estaria fazendo àquela hora acordado. ele abriu a porta por dentro e quase me tranquilizou. ela fugiu ao saber o que você fez. esta poltrona é realmente boa. abstraída das minhas perguntas de quanto de verdade há em tudo isso. nas fugas. nas colisões. nas unhas. nos gestos. comandados ou não por outros.

sábado, 5 de dezembro de 2009

The piano has been drinking

um dia eu serei velha e ficarei devastada por ter conseguido viver tanto
Mia Zapata - The Gits

fugir para o méxico para iludir essa gaita
que está em tudo kafkianamente

ela me disse que eu ouço sombras
e isso vem piorando
porque agora converso com
algo que me entristece
sem que eu saiba como
e não entendo se o díficil
deste labirinto é sair ou entrar

sentado num banco esperando
um homem me aborda
me dá uma ajuda
ele quer isqueiro e gole do meu vinho
acaba me mostrando
que sentir é um problema
infelizmente apesar dos pesares
tão tangível quanto falta de dinheiro
de cigarros ou de dentes

sorriso apagado foge amedrontado
pelos cantos do que escrevo
reluta em aparecer mesmo que seja
para brilhar pela ausência
ele sussurra é melhor parar
que ficar rastejando
mas a isso não dou ouvidos

Poema X

Ontem me acusaram de dramático
Mas a verdade é que gostar de você dói
E isso compensa talvez porque eu sou masoquista
Dói a despeito de todos os esforços
Para que não doa
Afastamento e aproximação falharam
Em mudar alguma coisa porque ainda sinto o mesmo
De sempre
i'm stuck in this feeling i like so much
Não estou fazendo drama, sério
Eu gosto de reclamar e às vezes
exagero, sim
É ilusório achar que eu sou assim
e É mais acertado dizer que
Você me faz assim
Porque eu só falo penso ajo respiro escrevo você
Ainda que algumas muitas vezes na sua ausência
O que é uma pena
E não tira o valor do que sinto
E de sua onipresença sufocante que me
Apraz muito
Por vezes fictícia
Por vezes concreta
E com sorrisos e com piadinhas infames
contra mim e gestos e brigas
E com pintas que descubro em seu rosto e sei
que são a coisa mais bonita do mundo
E com olhos delineados por trás dos vidros
dos óculos
mãos largas rubrogabrielas, maiores que as minhas
Tudo isso faz qualquer coisa valer a pena

Me falaram uma vez que eu tenho
certa filosofia de vida à la canto de ossanha
Amor só é bom se doer
mas não, pra mim é mais ou menos diferente
O que tenho é bom, muito bom
E a distância disso me dói um pouquinho
E disso eu gosto também
acaba que tudo é bom, então
This is more or less what I like
about this cumpilicity thing that happened
suddenly alone; and here's to us our lucky strike

Ressaca

Algo ecoa dentro da cabeça
Um seixo que bate
E reverbera sempre que
Acham que ele tinha ido embora
Algo ecoa nas veias nos pulmões
e no sexo
Uma marca que ninguém quer para si
Mas que diz viveu-se amou-se respirou-se
Ou não
Uma tatuagem dentro
Uma mancha de nicotina dentro
Um sorriso dentro
Do vômito inunda as ruas
E que ninguém quer para si
Finge-se invisível para penetrar
Nas casas e em tudo
Afogando todos os viventes do local
Que negaram haver esta marca
e que não a vestiram em sinal
de desprezo à vida que cauteriza
deixando as piores cicatrizes
Inquisição à la conto do cortázar sobre fumigação

Sendo tido ali

[...] toda pasión tiende - con mayor velocidad 
que el resto de las emociones humanas - 
a su propio fin, tal vez por la frecuentación
 excesiva del objeto del deseo.
Roberto Bolaño - El viaje de Álvaro Rousselot

 Se afastando pulsa
Ao longe ouço zumbir e quero
Me afastar deixar ser
Para preservar o que é bom

A gente não escreve mais poesia.
é isso agora?

Drama, ó pérfido drama
Derrama tudo por aqui Porque
não sabe dizer na cara

Me afastar, deixar de ser para conquistar
Um espaço
Ou seja um
Imperialismo ao contrário
No combate à obsessão

Isso é bom?
Isso de querer evitar a tal frecuentación
excesiva
Pra preservar algo?
Eu sinceramente acho que vai levar a lugar nenhum
E queria mesmo mais desvarios.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Tendo sido ali

Me trancaram do lado de fora
Quando o despejo já não era mais um recurso válido
Sobrei com o maço de cigarros em mãos
E um sorriso perdido em algum lugar da boca
Um sorriso com que eu quis mostrar que estava bem
Mesmo tendo sido deixado para morrer
Sem saber o que é pior
Ser trancado do lado de dentro
Ou do de fora das coisas

Batem a porta infinitas vezes
E no mínimo instante antes dela fechar
Eu via tudo lá dentro
E a visão me intrigava
Como o abutre de Prometeu
A visão de
Como arruinaram minha mobília
(sofá, microondas e caneca)
Virando os cinzeiros de cabeça para baixo

Sem saber aonde me dirijo
Parto sem tentar fazer nada
Pois já não consegui abrir a porta, mesmo

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Aviso aos navegantes.

Se alguém lê este blog, gostaria de deixar registrado que agora estou participando de um outro, http://descemaisum.blogspot.com/ , de colaborações; um autor para cada dia da semana. Entrem, bastardos.