terça-feira, 10 de novembro de 2009

Saudação a gladiadores

Escrevo em pé esta poesia concebida olhando em teus olhos
Olhando meio de lado, um pouco inapropriado
Jeito de gerar versos
Se é que há um apropriado
Verso extraído de por entre as dobras ínfimas
de um sorriso contraído a que almejo, e se
contra-feito contradiz o que digo
Sobre poesia ou qualquer outra coisa
Verso sentado no que construímos e que
Acena para ser escrito em breve
Em meio a tormentas, tufões
de aturdimento dentro dos quais
Exulto por ignorar um rumo
tufões de não saber lidar com o que veio
Com o que vem e com o que me depara
O agora em que ajo ou não
Ao sabor do que espontaneamente traçamos

Escrevo em pé para que não fuja a inspiração
Para amarrar cada momento em mim
Fugaz porque de um momento fugaz
Prendo a respiração para lembrar
De, quando esquecer, escrever
Everlasting daze from a glimpse
Seguro firme por ter me marcado
E lançado minha poesia a um vértice
digno de Pound
Que me abstenho de julgar vicioso ou virtuoso
Ou digno sequer de nota
(like that)
Everlasting bewilderment from a mocking
(non-seductive, non-calm affection)
Smile
Indelével como uma queimadura antiga
Espero que incurável.

Trago aos poucos infatigável
Uma fumaça renovada
Que sei que é antiga sem nunca ter provado
Sei também que cada poetastro destas esquinas nulas
Já provou e gostou dos influxos
E por isso se denominava
Mas a minha é diferente porque
Não sei nomear e não sei qual é o gosto
Meu reino por mãos que apontam meus defeitos
Meu sangue por apontá-los sem mais em uma pessoa
Atirá-los e rabiscá-los
Com medo de errar e deitar a perder
O rascunho daquilo que mais me motiva.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Saturnália anelar para Saturnino

May the circle remain unbroken
13th floor elevators


Toco um planeta com os dedos
De dentro sai uma sinfonia dissonante
-Liszt se arrepiaria-
Desabotôo sua camisa e o olho de frente
Desabrochando algo que ele guarda
Para mim

Pessoas em árvores é
O que guarda em cavidades
Abro-as sem pensar porque quero descobrir
Se e por que e quando foi
Que a poesia subversa
Tomou conta
de mim
De si e de todos os que pretenderam
Ampará-las entre as juntas,
articulações dos sentidos

Infimamente ligadas à torta maneira
De tocar com dedos rijos escleróticos um
Planeta à espera

(e suas)

Pequenas gavetas que não sei
se existem suportam todo o
Conteúdo do que escrevo

Quando colherdes entre os dedos o dia podre de ontem

Quando pressabi que sentia e
Queri o que haveu
Fiquei sem saída
Por sentir o que queria
sem saber se era meu

Por enquanto já dizia
Se naquilo que esqueceu
Há derrota relativa
Já sem choro resumia
O que tampouco se perdeu

Minhas dúvidas e erros nas pontas dos
Dedos chamuscadas cheirando a cigarro
Me dizem cala-te,
Ainda não é a hora chegada

sábado, 7 de novembro de 2009

Ode ao café

Sono mortal oprime
com rolos descomunais
Poesia que guardo em mim
E em relatos esparsos
Cumpre evitar dormir
Para que não comprima o que sinto
Em horas exíguas de
Que me lembro bem pouco
Mais do que retenho
Do dia.

Terrarrasada (versão da Lucrécia)

Enquanto a terra povoada
Por monstros incendeia sem mais
Razão, a não ser se ver terminada,
Fumaça entorna cinzas viscerais.
Em chamas vagueiam ainda, tortos,
Em busca da última cartada
a que justifique tudo e todos
os atos e desmandos
Assinados pelos alicates que temos por mãos,
mais se contradizem que nos organizam.
Terra jamais regada de orientação, agora
revive, de labaredas que chamuscam
os últimos empecilhos
e os rastros de inspiração -
sempre falha de frear progressos,
agora palha que espalha o fogo
que, espera-se, trará o novo.

Terrarrasada (versão do Hugo com ajudas da Lucrécia)

Enquanto a terra povoada
Por monstros incendeia sem mais
Razão, a não ser se ver terminada,
Fumaça entorna cinzas viscerais.
Em chamas vagueiam ainda, tortos,
Em busca da última cartada
a que justifique tudo o de antes e todos
os atos e desmandos
Assinados pelos alicates que temos por mãos
de lançachamas a exterminar
Uns insetos que há muito
Habitam sob nossa pele
Vísceras entornam cinzas fumacentas
A fumigar por cada poro o
Que torna impuro com o que vivemos

Prestidigitação

Routine was the theme.
Sleight of hand - Pearl Jam



Vi que em um futuro próximo
As dúvidas não escorrerão em cascatas de teus olhos
Porque a certeza de aqui
É
Mais presente como um quarto com
Um corpo morto dentro
Saber que em tudo há nada
Com que se preocupar
Apenas com manter
espontaneamente tentando
O que já atingido quer apenas
Conservar seu lugar


Tendo suas fundações sido lançadas
Ao léu e sem querer
Por isso mesmo mais firmes
Difícil que se desfaçam
Ainda que  pouco objetivo e propósito
Se tenha posto nisto

O futuro, próxima esfinge, me depara
Com uma pergunta
Me pede uma senha
Uma pergunta para seguir caminho
e que hesito em responder
Não por ignorar a resposta
Mas pela pouca vontade em fazê-lo
E assim traduzir o que quero
Quero o que já há
Por tudo o que já me traz
e instiga por enquanto
Sem garantias

Recolham os cadáveres de cavalos marinhos do meio da rua

[...] if they were the Lost Generation what would you call us?
[...] the Last Generation?
Charles Bukowski - The Last Generation

O sorriso é bonito contido a um canto do rosto
Com a faca dos olhos
Disseca pelas metades o que penso
Destrincha o que penso e o que sinto
(e o que penso que sinto)
(e o que sinto que penso)
Perto de mim, não o suficiente
À minha frente, não ao meu
lado como deveria ser
Quase um xadrez: tudo bem
ansiado
Me diz verdades, entre elas
as que não quero ouvir
E tomando sorvete me
joga na cara motivos e anseios
novos/velhos, alguns convenientemente esquecidos
Outros importunamente lembrados
Sobre os quais divirjo
Disparo sempre atrás
Do que move o coração
E a tintassangue no papel
O sorriso é bonito contido a um canto do rosto
Me lança dúvidas como dardos
Dizendo-me o contrário
Do contrário
Do contrário
Do que achei que deveria dizer
E já é um indício que não me é
Dado revelar porque
Não sei de
quê, pois me fico
Perguntando de onde
e para onde vamos
Não sou você, formiga, para diferenciar
Os caminhos bons dos maus pelo cheiro apenas
De onde viemos
Para onde vamos
Hoje e daqui a milênios
Revelações e sinceridades são pedrinhas
Que se não chutarmos atingem um
Olho e cegam
São imprescindíveis em vidas
Estes momentos a sós
Seja comigo e
Que seja contigo

Absorto abstraio os abismos
Tentando tatear sem saber o que realmente procuro
Por aqui, não perdido
Mas crendo ter achado

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Vinte e duas semanas depois

carlos acredita em deus
manuel acredita em maldoséculo
oswald acredita em carros e cocaína no coquetel
tarsila acredita que vai assustá-lo com um monstro descomunal
murilo acredita em dogmas e doutrinas
mário acredita em seu país sem caráter
jorge acredita em colagem
menotti e graça acreditam em apadrinhamento
monteiro acredita que anita é paranóica
por acreditar em mistificação
plínio acredita em antas como ele
vinícius acredita em sexo tentando
convencer cecília, ela acredita em amor
à terra à história à infância
villa-lobos de sandálias acredita em barroco caipira
e em tocar de ressaca
ronald acredita em leitura batráquia
guilherme acredita que o grego é melhor que o nosso
a burguesia acredita neles,
mesmo sem entender, acredita piamente
marinetti acredita em fuoco
opposé à
fuoco, nesses casos imprevistos mais incontroláveis

Todos acreditam que Guiomar Novais traiu

O acrobata anseia

Todo poliglota é mau patriota
Eça de Queiroz


Fiz um pedido óbvio
Como aqueles que ouvi no rádio
Sem amendoim
Jazo portanto estendido
estirado na vertical entre
Duas mesas de madeira gasta
Olhando as luzes amarelas esmaecidas
E as moscas a circundá-las
À espreita desejosas de cópula
Vultos ao longe impregnam cheiros em mim
Que não sinto nada a não ser o
Aperto no peito e o princípio
Da falta de ar que depois
provaríamos ser
imaginativa apenas
As pontas de meus dedos estão brancas
Como se substituídas por próteses
(Só reparei agora)
em como
Com chicotadas de pano de prato
o dono
(avental barbudo suor)
espanta curiosidades de
moscas e clientes transeuntes
Deixem-no respirar

Devolve o anel do moço, exorta cortante
E quem paga a conta?

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Smells like victory

Ouvindo Crosstown Traffic
Enquando comia gelatina (roxa)
Vi um gato radical se contorcer
E toquei tua mão

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Fiacre

Não conseguimos nenhum fiacre que nos trouxesse, como não caminharíamos de jeito nenhum dissemos ao pretinho recém comprado que nos levasse à rua do ouvidor em suas costas, uma de cada vez para não parecer deselegantes, pena que não havia mais pretinhos por ali. Meu marido teve de dar-lhes uma boa sova ao chegarmos em casa por eles terem jogado a fortunata numa poça de lama gritando não sou burro de carga pra carregar tamanho peso. Como não tinha para onde ir, acabou voltando a nossa casa, onde o punimos exemplarmente, mas de leve porque é também uma criaturinha de deus.

Égloga Joyceana/Schülleriana

Poema estruturado/versificado por Luísa Leite Santos de Freitas


A mais vistosa violeta
velada
da vila, cuja vida visito
vigilante,
pois vinga, viceja vitrificada
entre dois instantes vívidos.
Vi vindo a mim

 vítima
de vinte vis poemas vilíngües .
Virados em vitrines

viscosas
de um sentimento vago,
 visto que vasto, vaporoso,
visto que vital para a sobrevivência de si.

Un linceul n'a pas de poche

Lágrimas são cascatas da terra
de ninguém cuja sombra recusa
terminantemente projetar um cé
u na pele dos estrangeiros que n
ão creêm numa divindade cega a
dvinda às vezes de uma esfera q
ue paira sobre o toldo excrescente
montado em dois segundos sobre a
torre do jardim dos nenúfares branco
s que o alferes sandeu rega quando está
de mal-humor acamado por doença grav
e nas articulações inferior esquerda espec
ular e inferior direita perifrástica diatópica
da sessão a boroeste dos ventos arrasan
tes das costas de gaivotas roucas de ba
rracas flácidas acres cujas lágrimas são

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Banalidades

Hasteio sem prestar atenção
Certos monumentos em ruínas
Que brotam de minha pele
Enquanto os restos de calcário e
Argamassa me soterram
Sob uma sinfonia de crash-test dummies on parade

Minhas pálpebras não fecham
Porque a retina branca lacrimosa as impede
E sou obrigado a contemplar
Cada queda e subida do camaleão
Mais abjeto, estilhaços as ferem
Porque indefesas

Para controlar meu tremor devo
Saber de onde vem o que me
Alveja
Devo também saber o que é
E do que é feito
O que nem sempre é a mesma coisa

Corvéia

Trouxe um presente da rua
Flores, sentimental demais
Ursinho de pelúcia, pior ainda
Livro, clichê demais
Bonbons, formiga demais
-até porque existe aquele armário infindável-

Me acometeu uma dúvida
Sobre objetivos:
Não soube identificar quais eram e ainda assim
Comprei, melhor roubei
Arranquei sem piedade de uma parede contígua
Ao compartimento que não controlo

Sim e não espero que gostes
Só veja que, por motivos que prefiro não aventar,
Lembrei não da fobia
Mas da dona desta

Seu presente estava lá
Plástico grudado em teias de mentira
Quero-o aceito sem mais
Antes de saberes o que é

Mão morta

Hoje ouvi uma música que, por trás dos
Clichês mais batidos,
Deixava entrever sem dificuldade o que sinto

Cada um que preze por sua Poesia e pela
Fiel transcrição da mesma em poemas
E canções

Pois uma vez escritas não retornam
À mão original
Sendo negado direito de ampla defesa

Das intenções e dos sentidos ali
Explícitos para uns
Subretícios para outros

Pensei e pensei e
Falei, discordei, mas
Não acertei em
trazer
À tona o que me aturde.
Fica incompleto o sentido do que escrevi até agora
Sem consolidar os efêmeros efeitos almejados
Duradouros

domingo, 1 de novembro de 2009

Bestiário medieval

O que vejo contrasta com
O que sinto em contraste com o que sei
Tolhem um caminho por intimidar as possibilidades
Moldadas nos silêncios acabrunhantes
Forjadas nos recessos de uma relação
Que vinga.

Contrapostos ao que quero, ao que espectral
paira sobre tudo
E que subjacente moveria tudo
Ter ou não ter uma iniciativa para manter
espontaneidade

Uma cachoeira que é sabido que guarda
Uma caverna por trás e que tentar alcançar
Seria perjúrio

Um véu mantém léguas de distância
Podem falar brigar espernear com o outro
Para fulminá-lo ou não
Será que realmente se atingem?

Severed Hand

Este truque é dificílimo e nunca tentado no brasil. Se prepara tirando o fraque, alinhando a gravata borboleta. A cartola na mão esquerda impõe um fraseado complexo acompanhado por quase duas dezenas de olhinhos atentos. Um pai consciencioso comenta com o outro. Mágica tem a ver com enganar o interlocutor, políticos e pastores de igrejas evangélicas são muito mais mágicos que esta barba mal-feita que me cobra oitenta reais a hora, sem direito a assistente bonita.Para manter a ordem pede-se aos cardíacos, às grávidas sensibilizadas e àqueles que sofram de distúrbios de personalidade que deixem o recinto. Os adultos deixam as crianças no salão mal-iluminado e fumacento e vão para o lado de fora fumar, conchavar, falar mal dos que não estão. Envergonhado por já ter gasto tudo. Pombas em cartas em lenços amarrados em coelhos em gaiolas. Lança ao recurso menos óbvio ainda que clássico a derradeira chance de manutenção de sua reputação ante aquele exército em miniatura. Os piores críticos porque fazem o que os críticos adultos querem. Gritam, choram e falam mal sem remorsos por não conseguir produzir algo semelhante. Crianças, agora é a hora de vocês participarem do espetáculo. Deixa primeiro eu tirar essa luvas e limpar a mesa de operações. Tenho correntes extra-fortes aqui. Vou deitar sobre a mesa e você terão a chance de me prender a ela como quiserem, usando estas correntes. Depois que acabarem eu terei um minuto para me desvencilhar.
Os pais entram no salão, querem participar.

sábado, 31 de outubro de 2009

Demanda do santo

Tema, seja ele qual for, fornecido por Isabella Carrazza






Café, sangue preto que escorre de minhas muralhas
Me fazendo aquiescer
Às pontes levadiças


Doze manequins como cavaleiros
Guardam a porta com óleo fervente escuro


Um deles, Lancelote, me trairá por trinta moedas
Tomo cuidado para que
Escudos por pratos não escondam
O amor que ele sente por Guinevere


Gawain, ó mais puro, a quem foi dado beber d'
A taça
Mata os bufões e os domadores
E poderei dormir em paz


Enjaulai javalis jocosos


Um deles, Lancelote, virará monge
Pela traição impingida


Pelas barbas de Merlin e Morgana!
Envelheço a olhos vistos
Em justas e torneios, ordálio
Fático com erros de pontuação

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Skull full of maggots

Acordou à uma e a tarde gastara ouvindo cannibal corpse. Faltar o trabalho talvez fosse a única coisa aproveitável que um deus legou aos humanos. Fora à casa dos pais buscar a caixa de papelão já mole e gasto com os gibis marvel. A garrafa de vinho de cinco reais completava a diversão adolescente. O dia sem noivo, sem pensar em contas, única preocupação era não esquecer de ir àquele escritório no centro comprar o atestado. Nada revoltava ainda, quis só reviver momentos do passado, pena que as amigas preferiram ter que ir trabalhar.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

A quién lo leyere

Os vinte minutos cabisbaixos mudos
Contigo absorta, ar de culpada
Como que remoendo algo
Que quer me dizer, mas não sabe como
Me pergunto se o erro foi meu
E é uma represália silenciosa
Meu castigo é ser ignorado estando a menos de meio metro de ti?
Distância considerável que você se empenha em ampliar
Por favor, briguemos, gritemos
Por arranhões e objetos atirados
Fulminemos um ao outro com o olhar
Discutamos intelectualmente se quiser
Qualquer coisa
Mas não se abstraia mais assim de e em minha presença
Pois temi por mim,
Por nós,
Por todos
Que atacasses pela inação
De propósito ou não
O que tenho de seguro, o que instável
Me motiva

Longe de mim querer imprimir o ritmo de tua poesia
A tudo o que faço
Me vi sem saída
Sem
Escassa iluminação quanto ao que fazer

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Eu sou a morsa

Abri os olhos e ignorava a abrangência dos efeitos dos meus atos. Ignorava também que estava vivo, abri os olhos, contudo, e vi a luz mais intensa: o sol mais ubíquo e feio me fez inalar sua presença pela primeira vez em algum tempo, saturando a atmosfera próxima pendularmente; ora aquiescendo, ora recrudescendo. Me perturbavam essas oscilações. Pressentia que no final me marcariam indeléveis; reconheci por fim minha animação suspensa e a ela não respondi, conquanto não me angustiasse este fato. Intuí que teria de esperar, buscava então, sem muito sucesso e sem perceber, a transição entre dois hiatos - sabia que ao ruidoso borrão escuro seguira-se o sufocante silêncio do borrão claro, não sabia tecer o que ligasse os dois. Conectava sem dúvida os momentos pertencentes a cada um e não conseguia distingui-los na massa compacta e aleatória; dois dialeticamente unidos estágios orbitavam indiscerníveis em torno da uma coisa de que tinha consciência: a dor que docemente constrangia não preocupava em absoluto, quase como a volúpia da vertigem. Aos poucos foi se esgueirando um renitente som de brusca freada. Pervadindo minhas elocubrações , não sobrepujou, é claro, a lasciva asfixia, foi obtendo, não obstante, gradual proeminência; pungente cruzado timpânico. Já não estava tão absorto e começava a saber de algo de minha condição de agora, um frio cortante perpassou meu corpo imenso submergido em luminosidade como o alvo crivado de facas com a garota amarrada e bonita. O resumo da fase dois era três sensações, dor, frio e som de freada brusca. Não lembro se a fase um resultara em duas ou três sensações, lembro do vento e lembro que sentira outras sensações. O conhecimento dos próprios estágios, portanto, era precário. Da articulação entre eles, mais ainda.
Vislumbro sombras e as pareio fora de ordem, pois manejo habilmente o que vem à tona: selecionando, suturando e abarcando; seguindo ditames que me vêm na hora. Esta noite eu, como o filho pródigo, lembrei de mais coisas. Pequenos alfinetes que alguém cravou em meu cérebro e esqueceu de tirar. Os olhos abertos nunca me permitiram enxergar, é, portanto, útil entregar-me a exercícios de imaginação: Uma jaqueta de couro com um cheiro que sei que é marcante sem me lembrar de qual é. Um isqueiro, um sorriso que não lembro se é meu ou de outros. A mulher com o chapéu acenou para mim, ou estaria esbravejando? um fragmento de poesia e me aventuro no cone de luz futuro, lembro bem ter declamado este num café por aí solto. Hoje senti que tocavam minha pele com dedos de borracha menos frios do que o ambiente. A pressão deles me fez vir um pouco outra vez.  Onde me apalparam é melhor não perguntar porque não sei. Continuo ignorando onde estou, embebido em claridade. Consigo abrir e fechar os olhos já a meu bel-prazer, o que não traz lá grande diferença. É claro e pouco úmido, me sinto permanecendo num quarto que entupiram de travesseiros: Tudo é branco com cheiro de talco e não posso me mexer, o que me impede não são correias e sim algo fofo e por isso mais difícil de enganar/escapar. O zumbido já identifiquei, foi como apanhar moscas, aos punhados, com as mãos, é de moto, não sei qual ainda, mas tenho a impressão de que já pude identificar os modelos pelos zumbidos dos motores. Moto potente com o zumbido esmaecendo ao fundo, talvez junto com o pôr-do-sol mesmo. Se bem que isso já seria clichê demais, só faltaria aquele cigarro do caubói para completar.
Percebi o toque de um retângulo que desconfiei ser uma bandeja pressionando minhas pernas e tinha a impressão de estar sentado. A lateralidade veio hoje também - por um instante soube que o zunido agudo de um ventiladoraspiradordepórespiradorartificial estava apenas de um lado da minha cabeça e não de outro. Um trem que senti vir descontrolado na direção do meu lado, esquerdo ou direito não importa, e que senti que não ia parar tão cedo, o sabia longe ao menos por enquanto. Tato, experimentei tato também. O tato de identificar pressão sobre a pele eu sempre tive consciência de ter preservado, agora aflora o tato de sentir dor e sentir texturas. Toquei num lapso de tempo que julguei curto um líquido duro que sabia não espesso, Áspero. Sala ampla como um deserto, sei que seu teto existe, mas sei também que está à distância da ionosfera: Tudo é branco os bancos estão lá, abusam, e são brancos os bueiros e letreiros luminosos também são, sei que existem porque esbarro e me contundo e se abro os olhos e fecho quando quero isso se dá a um preço. Se me é dado ouvir um zumbido, por mais contínuo que seja há um preço também a ser pago que desconfio que descobrirei em breve qual seja
Hora vaga vem tudo desaba ao redor de mim, me vejo escorregando em algo poroso que rasga minhas roupas por quilômetros e quilômetros e isso não é infindável. Sinto um baque e retorno à escuridão branca. Saber que estou imóvel estirado em algum lugar me revolta bem pouco, aquiesço rapidamente retornando à lânguida calidez do que penso conhecer. Uma revelação me acomete quando deixo de girar como naqueles brinquedos de parques de diversão baratos, a cegueira não me impediu de constatar que eu sou a morsa, estirado de barriga para cima em algum lugar frio e luminoso do universo, não fui gordo, mas pressinto a gordura caindo pelos lados da rocha que me escora durante meu banho de sol, o qual me cega ainda que abra veementemente os olhos.
Hoje obtive dos deuses permissão para abrir a boca, o que apenas trouxe um hálito externo gélido cheirando a aparelhos metálicos e que não me reavivou o mais mínimo. Senti minha boca expelir nada, tanto antes quanto depois desta aquisição do ambiente, minhas presas se fincaram no ar e perfurando-o extraíram uns resquícios do que já me ganhara minha plena atenção. não conseguiria mais me desvencilhar da mistura clorofórmio, aço inoxidável, gelo seco: Um Dry Martini que supunha verde com uma coisa vermelha encostada no fundo da taça. O sol rodopiava acima de mim no mínimo três vezes por dia, pois a boca que eu abrira já não pudera fechar por nada, ruminava a bebida que ele, como bom iniciador de vícios, me oferecia de graça, descobri ter dedos de um lado do corpo, dedos que apalparam a mesma superfície aquoso rígida de sempre.
Metal sendo esfregado contra asfalto ao longo de um período quase longo cheiro de gasolina e churrasco de morsa se eu fosse escritor e portanto mais presunçoso ególatra acreditaria ser um inca que foge dos espanhóis, senti pontadas no braço e sono como se estivesse há tanto tempo querendo fazer a viagem que minhas peripécias para consegui-lo fossem a viagem em si. Um vulto me assustou muito ao passar pertíssimo da minha boca, tenho motivos para crer que é um daqueles tentilhões que limpam os dentes das criaturas costeiras e com isso conseguem comida, uma dor do lado me fez me perguntar se meu corpo, já pesadíssimo, não está sobre o braço, sinto que esmago algo que me incomoda;
iraq body count e continuava bêbado e continuava de cabeça para baixo tentando entender se o mundo são correntes quebrá-las todas é destrui-lo. O último cigarro apagado não é mais especial porque não nos é dado saber ser ele o último ou o primeiro de um maço longínquo porque interminável e tinha uma moto e tinha uma namorada capaz de se ruborizar - O sexo era bom e as máquinas melhor ainda de cujos fluidos bebi não me lembro quando se tive capacidade de me ruborizar ou a velocidade me arrepiava demais que eu acabava não prestando atenção a coisa alguma. A lembrar-me da mão fria e alongada que toquei pela primeira vez sem olhar nos olhos e do metal frio incandescentemente alongado sob minhas pernas, a rugir obscenidades aos que ousavam cruzar seu caminho porque hoje a morsa sabe não saber onde está nem porque de estar onde sei que ligado a tubos estou. Talvez esteja morto, mesmo que isso contradiga o que já disse, e tenham instalado esta lâmpada especialmente potente no meu esquife, o que pode indicar que estou vivo a desandar em elocubrações que me trazem à memória cascatas de vidro a fluir de meus olhos prestes a morrer; e Quisera Estar Morto sim, para que um último pensamento tivesse sido sobre os seios acolhedores abrigos noturno diurno por vezes da namorada ruborizada.
Estive estirado a um sol que me acolheu e me trouxe aonde agora jazo lembrando desprotegido da lua que me obriga a fazê-lo

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Cidade Imaginária

Tremulam hasteadas bandeiras
De por onde
Passaram vários passos perdidos
Que se encontram
Aqui

Os prédios são novos
cheiros de carpete
Que ardem nos pulmões
-também novos-
Dos habitantes

Barracas de aço de dois por dois metros
Com catre e buraco
No chão

O ruído ao longe é de hélices
De moinhos e pás nos rios
Afugentou todos os pássaros

Árvores, esparsas, com folhas alternam com
Postes e árvores de plástico e crepom
Estofando um horizonte dito mítico por uns
Insosso por outros e até mesmo
Sangrento alguns

Postes sem fiação aparente
E calçadas limpas de fezes de cachorros
e de mendigos

As garagens são basculantes parindo
seus vermes - esteiras a rolar
Infinito afora

Exilou-se o pássaro eventual
A larva, a mosca, o elefante
E o útero
Em prol dos relógios,
Mais pontuais, corretos e cordiais com as pessoas

O próximo passo será implantar
Estes relógios no lugar
Dos pulsos dos jovens habitantes

A tentativa relativamente bem-sucedida
De trocar por um deles
Um cerebelo
Alenta os  pesquisadores
Desacredita os críticos

Não, não há naves flutuantes
Carros tampouco
As ruas estão vazias
E nem o vento se ouve

domingo, 25 de outubro de 2009

Para que duetos de golpes perfeitamente ajustados não virem tercetos bárbaros sangrentos

...god who'd wanna be such an asshole?
Bukowski - Modest Mouse


Me assustas com essas sombras do passado
Que cruzam o caminho seu
Que era para ser nosso

Se almejamos ao mesmo
Por que os momentos awkward
Em que duvido de mim

Evaporam a confiança
Em minha poesia e em tudo?
Não quero (ou quero?!)

Saber de muitos vultos vindos do nada
Me apraz bem pouco
Se usamos franqueza

A quero a um extremo que me diga
Por que vamos
Na direção em que vamos

E se há a possibilidade
De a primeira do plural
Virar

Primeira do singular
Ou terceira do plural assim
Sem mais

Por causa dele
Trazedor
De dias de dúvida

Sobre nós e
Nossas
Reviravoltadas Poesias

Quando me cego quanto
a dificuldades
Me vem tudo isso encima

Desmoronando, esboroando
Nem que seja em imaginação apenas
O que vim construindo

Há coisas que procuro saber
Mas não quero encontrar
Tais como

Respostas que me assustam
Reações que não prevejo
Ações que invento

Ações que julgo terem acontecido
Por ser de reações lento
Respondo ao que não sei se é

Pode ter mudado nada
E daí?
Hallo, control freak

Man overboard

Há um farol que não vejo
Mas sei que está
Não creiam nos que dizem tê-lo visto
O facho de luz é indiscernível nesta névoa
Que encobre a costa
E põe a perder tantas fragatas

O ruído da lanterna girando oscila
Entre estibordo
E bombordo
Sabemo-nos muito perto
Das torres dos totens
Pontos esparsos ao longe:
Fogueiras

Rochas pontiagudas mordem
Os cascos com vontade
O vento a enfunar as velas
A embalar as naves
A crispar as vagas
Derruba tudo
No fervente caldo espumoso
De que não escaparemos

Alfil ataca (la revancha)

Mãos de pianista sobre teclas invisíveis
Desenham a partitura do que é
Ser, como eu,
Besouros que espatifam
Contra luminárias
Essas mãos regentes a urdir,
Em suma,
A orquestra desafinada do que sinto
Metais afiados contra cordas
Que enforcam o do oboé
Em nome
Por ordem
Das mãos de pianista

Quando minhas quiálteras
Saem tortas
Se não consigo atingir certas notas
Porque entro no contra-pé
Da valsa
É porque estou sendo
Manipulado
Digitais nas teclas não me enganam

sábado, 24 de outubro de 2009

Desafio dos sete minutos

Bolhas na bile
Sobem e flutuam
Como os pensamentos sobre alguém
Onipresentes
Quebram a tensão superficial
Ao atingir o topo

A espuma quer me dizer algo
Que não entendo
Mas sei que é amargo
E o líquido transborda
Em confissões ínfimas
Desmente todo o resto

Façamos assim:
Eu pago essa cerveja e ficamos quites quanto ao almoço

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Fin de Siècle

A poesia é a forma de traçar
Na areia deste deserto em que vivo
Teu nome, as infinitas vezes
Que o que sinto me obrigar

É como disfarço,
Remetendo aos poucos
O que retém minha atenção

O dia sem os olhos da poesia se arrasta
Enquanto escrevo/escondo
O grito
A ecoar nestas páginas, em
Meus ossos e em tudo o que faço

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Haicai-palestra

Um perfil, de longe,
O lado esquerdo contemplo,
Pois a quero perto

terça-feira, 20 de outubro de 2009

A culpa (pt. III)

Sai do bar aparentando indiferença. Afinal fora com indiferença que ele tivera o desplante de começar a imaginar coisas sobre eles dois. Aquela metáfora selara a falta de interesse dele por ela, então era hora de deixar de se esforçar desta forma por algo que a ela já não aprazia e não interessava muito. Fora interessante no começo indagar até onde tudo aquilo levaria. A descoberta e a identificação. Eram poetas, mas passou a haver algo mais a uni-los, ou era o que ela achava. Nunca se considerara e não queria ser o pilar disto tudo. Mas sabia agora que a ausência de empenho, com que agora se propunha a tratar isto tudo, traria a ruína. Estaria distante para dar a ele a chance de provar que a merece. Dissipando assim aquela aura unilateral a que ele hoje submetera a situação. Se fosse somente para depender dela e de sua admiração pela poesia dele, estariam agora fadados ao afastamento, à frustração no mínimo. Ganha a calçada e se põe a caminhar a esmo. Passa pela pracinha perto daquela loja onde comprara uma camisa para ele. Aquele banco quebrado perto do poste intermitente já fora deles, já trocaram muita poesia ali, sussurando-as. Ou será que o banco fora dela apenas? Senta-se. Não naquele, mas em outro banco. Compra pipoca. Se dedica a alimentar pombos.  O sol às portas da morte, prestes a se pôr. Babás recolhem, com olhar displicente, os carrinhos e as crianças. Um homem senta-se a seu lado. Oferece um cigarro. Quer puxar assunto. Ela se nega. Tudo o que menos quer é ouvir falar em um deus agora. Ainda mais de um deus a quem ela tem que pagar para acreditar. Usar oferta de cigarro para se introduzir uma tentativa de conversão foi golpe baixo demais. Levanta-se, planeja voltar ao apartamento. Quem sabe qual foi a reação dele depois da conversa? Terá feito as malas? Estará à sua espera de joelhos, com um maço de flores silvestres, as únicas que consegue roubar da frente do palácio municipal, na mão, suplicando para que tentem tudo outra vez? Toma uma rua que sabe que não vai dar no prédio. Quer demorar a chegar. Pensa em queimar todas as poesias, as suas e as dadas por ele. A razão estava com ela, nunca o idolatrara em demasia. Seus comentários eram polidos, pouco efusivos ainda que reconhecesse que eram freqüentes. Ele por outro lado mostrava-se pouco interessado em qualquer coisa ligada a ela. Achara sempre que era por seu caráter reservado. Até que veio à tona, ele estava nessa porque se sentia bem, endeusado pelos comentários dela. Ele não se propunha a retribuir. Entra em um restaurante para pedir um café. Lembra do vídeo do Depeche Mode, aquele com o carro a andar em marcha à ré e o motorista, com a cabeça coberta, não pode fazer nada. Talvez descreva bem a situação porque talvez nada vá mudar, ainda que ela tente. Desiste do café e pede um conhaque. Tira um bloquinho da bolsa, sempre o tivera ali preparado para estes casos. Põe-se a escrever graficorragicamente. Com uma fúria que os gregos atribuiriam à força dos oráculos. Não necessariamente sobre o que estava vivendo ou sobre o que queria que acontecesse. Escreve e se resigna a fazê-lo. Mais um conhaque, por favor. Já trago. É um poema porque está em versos. O mais longo que já fizera. Paga a conta. Vai para casa com a impressão de que o poema, muito longo e muito confessional, está inacabado. Concisão nunca fora o forte de nenhum dos dois, eram poetas, em suma. Chega a sua rua ruminando decisões que deveria ter tomado para que soubesse lidar com o que vem justo agora. Cumprimenta o dono daquela loja de vinhos ao lado da entrada de seu prédio, compra um jornal e sobe.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

La persistencia de la memoria



O inconsciente está do lado de fora
Esperando para agir,
não ordena, aguarda
Pois se sabe mais sabedor que outros
Me aflige sabê-lo ali espreitando
Evitando precipitar-se
Evitando enrolação eterna
Antecipando cada retirada
Cada aceno
E cada olhar curioso meu

Inconsciente é o campo em que ajo
De minhas possibilidades provedor
E Ésquilo quando jogou isso na minha cara
Não queria ofender
Parece ser elogioso perder as rédeas da arte
Ou ser por elas levado
Pelo menos é um campo sem deus
Que tolha meus movimentos para
Conter aqueles relógios derretendo
Pendurados em árvores
Contra um céu que devaneia
Junto às rochas escarpadas

A culpa (pt. II)

Lembra daquela primeira flor que você me deu?
Aquela ridícula?
Nunca disse isso
Seu esgar de desdém te entregou
Para de desviar o assunto. Quero dizer que há poesia não-verbal
Oh! Descobriu a roda
Há poesia não traduzível em palavras e eu e você sabemos que não precisa ser só como demonstração de amor
Tinha esquecido. É claro que você tem que jogar seus superiores conhecimentos de poesia sobre mim
Você me teve preocupada hoje, saiu a esmo. Ainda bem que eu adivinhei que você não ia longe. Por que fez isso?
Não me subestime eu iria longe se quisesse. E você está errada em acreditar que eu faço as coisas para te deixar preocupada
Não deturpe minhas palavras
Desde quando se importa?
Li poesias suas hoje de que gostei
Repito minha pergunta
Não seja infantil, repito a minha: Por que fez isso?
Olha só. Presta atenção no que eu vou dizer
Ahn
Lembra daquela cena daquele filme do Robert Rodríguez em que o atendente daquela lojinha pula em chamas de detrás do balcão e tenta alvejar o Clooney e o Tarantino?
Nem sei como somos poetas, nossas metáforas são péssimas. Aonde quer chegar?
Sem críticas. Não é bom momento para isso
Quick and to the pointless, por favor
Eu sempre vi nossa relação como eu sendo aquele cara pegando fogo e você a única piromaníaca apta a gostar do que sou
Quanto você já não deve ter bebido para estar pensando nisso?
A culpa é sua se o objeto em chamas não tem admiração pela pessoa que o acendeu
Isso é outra metáfora?
Não, é o que acontece conosco
Você quer dizer que eu gosto mais de você que você de mim e nossa relação se funda nisso?
Não
O que quer dizer então, porra
O fogo é minha vaidade, não consigo te admirar como poeta como você me admira. Mais ainda agora que eu me dei conta de que você escreve justo como eu queria escrever
Você é um convencido, então
Sempre falhei em retribuir o que você sempre me deu
O problema é seu se suas falhas de auto-estima te impedem de gostar de mim como mereço
Já estou mal o suficiente com isso
Aprenda a lidar conosco
Tudo sou eu mesmo, você me acostumar mal tem nenhuma influência?
Nunca fui tratada como queria e sempre relevei tudo. E isso em nome de quê?
Quando foi que te obriguei a alguma coisa?
Mudando o assunto de novo
Juramos sinceridade antes de tudo
Mais essa agora. Juramos
Por isso mesmo não posso prometer mudar, é possível que prometa tentar mudar
Para quê? Se no final eu acabo fazendo tudo pelos dois, pela poesia como você gostava de sussurrar ao meu ouvido
Você sabe que eu não me sinto à vontade com essa história de dualismo
Precisava mesmo fazer uma referência ininteligível a um poema meu? Desenvolva
Dualismo me diz que somos diferentes, você já está nos tratando como se fôssemos dois, isso não é bom
Bom saber, e por que não fez nada nunca para manter uma unidade?
Prometo tentar
Agora que tudo já ruiu por uma loucura sua? Você é pior quando tenta mentir para mim
Não estou mentindo, quero remediar algo que estraguei. Prometo tentar
Desnecessário. Depois daqui, já não há o que se possa fazer
E?
Eu me nego a continuar mantendo tudo sozinha. Como pelo visto você tampouco vai fazer nada, acho que ficamos por aqui
Quer dizer que a minha descoberta, elogiosa, de que você escreve melhor que eu vai acarretar um desfecho trágico
Houvesse pensado nisso antes, e o desfecho só é trágico para você
Me odeie então, recuso o desfecho
E vai fazer o quê?

A day in the life (cont.)

Ela crava seus olhos nos dele. Oferece a certeza de que permanecerão assim pelos próximos segundos ou décadas. Enlaça-o entre seus braços. O beijo pelo menos ainda tem gosto, cigarro e vinho, traz à mente dele um perfume antigo, inebriante como as ondas de hesitação, euforia e ânsia que ela lhe transmite agora via oral. Não estão preparados ainda para desviar o olhar. O olfato está ausente, ambos fumam, um por causa do outro, há tempo demais para se preocupar com cheiros. Existe certo equilíbrio plástico na cena. A porta aberta sugere algo. Ele busca soltar o cabelo dela enquanto tenta ler um sorriso perdido no canto da boca, relegado à obscuridade ao durar o beijo. Parecem brigar por almejarem a antropofagia, tamanha é a voracidade e a sisudez que empregam em se encarar e em se explorar com o que resta de mãos livres. Sôfregos suam. Ele acaricia os cabelos soltos, bem pouco mais grossos, que brotam da nuca em locais esparsos. Ela se desvencilha a contra-gosto. Sugere que bebam e senta-se à beira da cama impregnada de cheiros de uísque e tabaco. Cruza as pernas deixando a mostra o vermelho roído das unhas dos pés. Apóia o copo no colchão. Afetando irritação prende os cabelos. Ele dá um sorriso contra-feito que pensa explicar e desculpar tudo para sempre a que ela retribui com olhar sarcástico. Ele senta também na cama e com isso derruba no chão o copo que estava apoiado apenas. Ela ri, diz que só tem dois copos e é bem pouco cavalheiresco a mulher partilhar do do homem. Ainda falham em evitar o olhar do outro. Serve-se. Ao fundo, Sus ojos se cerraron.

domingo, 18 de outubro de 2009

Only a southern song


Flatter to deceive:


to give the appearance of being better than the true situation
Cambridge Dictionary



Ele comprou um Zippo para o amigo (clássico, alumínio). Ignorava se ele fumava ainda ou não. Era inconstante nessas coisas e o número de cigarros era proporcional ao número de dias sem ver uma pessoa. Quem sabe ele não sabe fazer aqueles truques com as chamas e com a tampinha? Parece ter gostado. 
O amigo contando que quando foi testar o Zippo pela primeira vez, estava à janela e um vento alongou a labareda. Chamuscou a cortina, impregnando um cheiro desagradável. Teve de usar um livro, objeto mais à mão, para coibir o fogo. Conta isso rindo, perguntando se pode gravar com a chave uma caveira pirata na guitarra nova (Fender, Strat) e se desculpando por ter trincado num ponto o verniz da guitarra, quem sabe se não trincou a madeira também. Desgraçado. Disfarça a frustração com um sorriso.
Conta isso rindo, dizendo que não percebera quando acontecera, não a vira bater em nada. O rasgo está ali e inexiste conserto. Ele comprou em um dia mais roupa do que comprar em toda a vida. O isqueiro e cosméticos comestíveis. O amigo fará bom uso, pode se dedicar a queimar guitarras, à la Hendrix in Monterrey. A namorada não se sabe ainda, falhou em achar o que ela pedira.


sábado, 17 de outubro de 2009

A day in the life

And once again the monster speaks
Debonair - Afghan Whigs


Tiro os óculos e tiro o Scott Walker da vitrola, já é a terceira ou quarta vez que ele está cantando Seventh Seal esta noite. Trago fumaça e repouso o cigarro no isqueiro. A máquina de escrever deu um problema na correia e há algo a ser escrito. Ligo para ela porque se estiver acordada pode me alentar neste momento quase difícil em que estou ficando sem cigarros. O vinho já terminou há tempos, uma perda menor. O telefone dela não atende. Deve estar acordada, afinal dormir muito é para os fracos. Deito-me sobre o tapete puído, encaro o teto. Há uma mancha de infiltração perto da luminária. Impressão minha ou está aumentando? No prédio em frente ao meu há dois apartamentos com luz acesa, mas não vejo nada além disso. A cidade tem uns barulhos que são particulares a esta hora da noite. Me agrada saber que por muito só que esteja, uma vida pulsa dentro do emaranhado de postes acesos, portas fechadas e motos ocasionais se afastando. É boa essa solidão dentro da multidão. Gostaria de ver as reprises na televisão agora, se não a tivesse vendido há um tempo. Grupos de adolescentes passam em arruaça na calçada catorze andares abaixo de minha janela. Gritam, me exasperam. Hesito em retirar o Nabokov da estante e lembro da história, quando Harvard quis que ele lecionasse russo sob o argumento de que ele era ótimo escritor tanto em russo quanto em inglês, Jakobson se opôs retrucando que seria como chamar um elefante para dar aulas de zoologia. Ela me liga. Eu sei que é ela porque sei que ela sabe que eu sou o único que ligaria àquela hora. Me recuso a atender. Falta-me sono, mas falta-me também disposição para manter a conversa que viria. Uma mulher começa a gritar em algum lugar. Percebo que é no apartamento logo abaixo do meu. Já há uns cinco minutos que ela está gritando e percebi agora apenas. Me vem a sensação de que estive ouvindo o mesmo grito já há algum tempo. Ignoro o grito. Resolvo descer e tentar obter vinho no bar que há aqui perto. O elevador está pior que o do Pedro Juan Gutiérrez, não funciona desde que eu vim morar aqui. A opção pela escada é compulsória. Um certo alvoroço no andar da mulher que grita me diz que algo pode ter ido errado ali. Gente tentando arrombar a porta e um burburinho. Pelo menos oito pessoas, todas acima de oitenta anos; quase todas mulheres, tentam forçar a porta e gritando o nome da aflita falham. Desço mais um lance de escada, pensando em Raskolnikov, eu poderia ter matado aquela mulher e saindo aproveitando um descuido dos pintores. Quem me dera tê-lo feito. O grito já me perturba. É bom descer um pouco e com a garrafa de vinho espairecer. Tomar o sereno desta cidade que é mais acolhedora quando vazia. Abra a porta do prédio e duas prostitutas novas ali vêm falar comigo. Recuso-me a dar dinheiro e nesta hora sexo e anfetaminas são o que menos procuro. Elas saem fingido estar contrariadas. Compro o vinho, pois o bar estava aberto. O senhor que atende me joga um olhar complacente. Dono de bar toda a vida, era fácil para ele saber como é precisar de vinho na madrugada e como é desesperador não obtê-lo. Ele sorri e pergunta de futebol. Quero sair dali aquele bar é personalista demais, com aquela foto dos filhos ou netos atrás do vidro do caixa. Saio vagando a esmo e quanto mais me perco mais me vejo perto do meu próprio prédio. Estou considerando ir andando ao apartamento dela. Ouço o grito se aproximando de mim. É difícil acreditar que estou paranóico. Ouço o baque surdo enquanto tento tirar com a mão a rolha do vinho. Sempre esqueço de sair para caminhar com um saca-rolhas. É o corpo. A mulher se precipitou da janela. Engraçado como cair de um prédio não machuca a pessoa. Vi apenas algumas escoriações no rosto. A posição em que ficaria tinha seu quê de cômico. Uma massa informe unânime. Ouço a multidão atroando escadas abaixo. Em breve tomarão a calçada. Entro por um beco para que não me vejam e me decido. Irei vê-la. O fato de estar ali presencialmente a impedirá de recusar minha presença. Não será como ao telefone. As partes movimentadas da cidade de dia são as menos habitadas à noite. Esqueci de comprar cigarros. Paro naquela pizzaria vinte e quatro horas e compro um maço e uma caixa de fósforos. Compro um bombom para ela, apesar dela se mostrar reticente em aceitar presentes, quer se fazer de difícil incorruptível. É incrível como as cigarras não param de serrar nem de madrugada. A cidade está infestada de pequenos besouros que pulam na jugular da pessoa também. Esses eu mato chutando. Derrubo um e vários me atacam. O frio está longe de os incomodar. Um homem com uma jaqueta me pede que acenda um cigarro para ele. Um homem dentro do carro e pergunta se estou indo para a igreja e me oferece uma carona. Três mulheres barbadas me assediam ao mesmo tempo, querendo que eu lhes vendesse cocaína. Não pode haver más intenções depois das três da manhã. As pessoas querem se ajudar. Ouço música alta ao longe que parece ser rock 'n roll de hoje em dia. Evito aquela direção. E tomo uma rua que tomba para a direita. Três guinadas depois, chego ao prédio. O zelador me interpela. O interfone está quebrado. Subo de uma vez e toca a campainha. Ela abre a porta de robe, está fumando um cigarro também. Tenho certeza de que ela sabia que eu viria, pois na mesa estão postos dois copos daqueles pequenos e uma garrafa ainda fechada de Jack Daniels, ao fundo toca Gardel: El dia que me quieras.

Locus Amoenus

Sentados em um banco de praça desfiam confissões convencidos de que a sinceridade é o melhor de que dispõem. A sinceridade por palavras é melhor traduzida, quase desmentida, por sinceridade dos rostos. Mais de um afago verbal foi desmascarado por uma expressão. Os dois faziam isso, mas era mais frequente com ela isso de se trair. Somos melhor amigos é o tema e há pouco consenso, pois usam a palavra gostar em acepções diferentes. O tempo não passa enquanto vai escurecendo e há um sorriso (específico, não-corriqueiro) que paira ali. Não é presunçoso dizer que paira nos dois. Uma satisfação gerada por uma tensão que percorre os olhares. Tensão gerada  por escritos quase confessionais demais pousados entre os dedos. Desfiam histórias de sempre e de nunca que embebem o interlocutor, a ele principalmente. Ela notou que ele cortara o cabelo, ele notou que ela vestia pela primeira vez um shortinho. Conversam de poesia porque isso os juntara, conversam de todo o resto porque isso hoje os junta. Falam da efemeridade de esmaltes e de besouros.  Um momento diáfano que um dos dois ou os dois quer perpetuar e proteger dos postes que acendem. Tudo é puro por mais que descarreguem algo fortíssimo que os une. Tudo são clichês porque tudo é novo e inspirador para um e para outro.

De um desvario desvio

O dia sorri sarcástico
Para mim
Um filme diria que é deus com sua lupa
Vendo-nos, formiguinhas,
Contorcer-nos
Se saio à rua e grito e armo
Um escarcéu porque estou feliz
Outros me olharão acusatoriamente
Esse aí bebeu demais ou
Está amando, pobre tolo
O dia está me dizendo vá lá
Beba demais
Ame-a
Baudelaire já fez poesias sobre isso
Sacuda os ombros das pessoas
Inocule poesia em suas veias
Caquéticas
Vinho a todos e
Amor aos que o suportem

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Haicai Head Held High

A vejo passando
Com um olhar desdizendo
Tínhamos que ser

A culpa

Ele soube e por isso se condoía, queria negar. Se estavam juntos por algum motivo, se havia algo mais ou menos estável para ser celebrado naquele dia, era porque havia uma admiração implícita em tudo o que faziam. Ela o incentivava, revisava, elogiava; gostava dele porque, segundo ela, era o melhor poeta que ela já havia lido.  Descobriu que, na verdade, o contrário acontecia e era um problema. A primeira vez que se falaram foi sobre poesia. As conversas antes e depois do sexo eram entremeadas por poesias, mais de uma noite já fora arruinada por um verso mal-posicionado. Vinham se aprimorando e tentavam agora caminhar olhando nos olhos um do outro e declamando. Tropeçava-se um pouco, mas era necessário. Não é difícil perceber que este era o leitmotiv da junção destas duas pessoas, nada de assomos líricos instantâneos, almejavam à poesia integral. No começo, bem no comecinho, ele não soubera que ela escrevia também. A relação centrou-se na produção dele, elogiadíssima por ela, o que o fazia se sentir muito bem em relação a ser poeta. Um dia em um café surgiu uma caderno onde ela passava a limpo todas as poesias, gerando nele um outro tipo de interesse. A fase de agora era problemática. Se tudo surgiu de um interesse dela pela poesia dele, a constatação de que ela escrevia não melhor, mas de um jeito que ele queria escrever, era avassaladora. Seus versos analíticos, descritivos, comedidos ansiavam e suplicavam por ser escritos na forma dela, personalista desmesurada, num desvario único e indisciplinado. Não era difícil associar as diferenças na escrita a diferenças de personalidade, ele monótono, ela passional desvairada. Incomodava saber que se ela gostava dele, ele não retribuía a altura. Se ela o fazia querer cada vez mais ser poeta, ele negligenciava a produção dela. Estava embaraçado, devia valorizá-la ou ela gostava de tudo desta maneira? A admiração da poesia dele era a clef de voûte da catedral que haviam construído dentro daquele apartamento minúsculo que alugaram, sem ela tudo ruiría. Estava prestes a ruir mesmo. No dia em que percebeu que gostava mais da poesia de outro que da sua própria, ele que sempre fora orgulhoso, começou a achar defeitos desagradáveis nela, saiu de casa. Sentado no bar na esquina do quarteirão pede um uísque de milho e compra uma carteira dos cigarros de sempre. Não sabe se volta à catedral, já profanara todo o sentido de sagrado que ele lhe dava. Vem à mente o conto do Fonseca onde a mulher vive com um escritor por quem é apaixonada e modifica todo o livro que ele lhe dita, transformando na obra-prima que não era antes. O escritor, é claro, só descobre isso depois da morte da mulher. Pede mais uma dose e acende outro cigarro, talvez peça uns torresmos, mas não sabe se é lá muito poético. Se recusa a entabular conversa com o garçom, fecha-lhe a cara. A vê na porta do bar com uma expressão exigente de uma explicação, ela vem senta-se à mesa com ele e pergunta.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Jograis vs. Ombudskvinnas

Are you under the impression this isn't your life?
Wilco (the song)


Dias com menos sentidos
Menos motivos
Para se sentir movido

Solto por inércia num vazio
Evitando algo
Tomo um desvio
Quero um fim,
Não sei lidar com o meio
O alívio
Da superação da travessia
Trocar o ontem idílico e o
Amanhã sacripanta
Pelo hoje como for
Realizado

Findo um sim mútuo
Um tempo em que não (se) soube
Juntar os pedaços de cacos
de estilhaços promissores


Impassíveis perscrutam um o rosto do outro

Inconcretude da possibilidade
Concretude da impossibilidade
Impossibilidade dá concretude
Concretude é impossibilidade

Esqueci minha senha

Jaz subliminar uma memória
Que não evoco porque quero
Falho em mentalizá-la concreta,
Mas a sei no meu subconsciente
Pois sua silhueta se insinua em
Tudo o que faço

Há uma metáfora que perdura
E não traduzo aqui
Não sei se um sorriso, um olhar
Uma frase, um gesto
Rege-a príncipio de incerteza
Que tampouco confirmo existir.

Contrariando expectativas
Confirmando hesitações e temores
Opera-se um afastamento gradual:
Indesejado, trará alívio
Falhei em
Querer poder demitir a inspiração

Em prol da sanidade
Agora põe-se tudo a perder
Em nome do que já foi

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Be your own PET

...as puzzled as a newborn child
Tim Buckley - Song to the siren




Já que o mundo é uma garrafa:

O que sinto é o ar que a circunda
O que sei é o ar que a preenche
Porque 
Plástico é o que ignoro
A diferença de pressão entre o de fora
E o de dentro aplicada
Deforma onde habito

Silente aguardando
Um sorriso

sábado, 10 de outubro de 2009

Suspiros Soviéticos

Os campos vastos de centeio inculto,
Pinheiros e lagos de superfície rígida
São um espinho que me fere
A alma
Florestas robustas como as mulheres
Da terra, cujos rostos ruborosos
Lembram
O por-do-sol sangrento deste

Vasto Cáucaso
Fértil terra de meus ancestrais
Seus montes ressoam à luz
Da lua dos lobos
Ó tártaro deserto infinito, inferno
                                               [romano

Os vales e as colinas já não mais abrigam
Recordações dos tempos
De jogos entre os juncos
Dos pântanos
Em rompantes me vens à mente
Bosques que crepitaram
Sob meus pés já não existem

São memória morta como
A lenha do fogo extinto de
Minha choupana

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Proporção

Tempo -------> Ampulheta
Matéria ------> Espelho
Fatos   ------> Poesia
Mentira ------> Jornais
Falácia ------> Deus
Silogismo --> Prosa
Pareidolia --> Arte


Nada ---------> Vida
Tudo ---------> Vácuo
Algo ----------> Nada
Luísa --------> Presunção

Até aqui nos ajudou a gloriosa Isabella Carrazza, em querendo completar deixe sugestões nos comentários e eu vou agregando


Tríptico náutico

À deriva
Pervago um oceano
De certezas

Sem terras firmes, ancoradouros
Com as velas cortadas
E amarras roídas

Ela me deixa, dizendo:
É doce morrer no mar,
Corpo às intempéries

Meu trirreme ruiu
No caminho entre Tiro
E Trípoli

Uma tempestade
Quebrou o timão
E jogou o servente

Do cesto da gávea
A culpo por não salvar
o barco ou salvar a mim

Mantendo-me aprisionado
À grande planície azul
A seu bel-prazer

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Pray for the locust

Uma folha cai
Com o menor ruído
Discreta sem alarido
Como num haicai

Como nua cai
O sono a arranca da noite
A põe em outro dia

Em suspensão se esvai
Num lapso não apto, num açoite
Desmantelando harmonia

Rompe o compasso havido,
Fora-de-si, vai
Arguta subtrai-se
Tendo uma folha sido

Como lua sai
À caçada fazendo corte
Às outras em agonia

As escamas de um samurai
A espada, pecíolo comprido
Um êxtase presidido
Por um harakiri a mais

Primícia

Meus dedos gastos
Cheirando a cigarro
Dedilham ao bandoneón
Um fado
Inefável traz
Ansiada boca e sorriso
Afastando-se não verbal
Tacitamente
Discordo e desaprovo
Tento retomá-los
Sem saber por onde
Terminar de fazê-lo

Aos Plantagenetas

The nobility of England, My Lord, would have snored through the Sermon on the Mount
Thomas More (A man for all seasons)

À Isabella, meu bubu


E sonhei e gritei
Eu plebeu
Disfarçado de rei
Parlamentarista

Obedeço, como plebeu,
A uma voz
E mando construírem um sonho
Mas não governo as
Obras
Que acabam parando,
Sendo implodidas

Irascível puno e sou punido
Pelo embargo onírico

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Para a Júlia motorista

O primeiro onipotente dia
Dela como motorista
Coincidiu com um meu dia
Comum insuperável que não termina
Choque de sensibilidades
De final de jornada
Quando a alma já está cansada do corpo

Me buzinou duas vezes como
Fizeram com ela
Eu que não tinha nada a ver e
Tudo para superar de desgaste

Tierra Adentro

Minha bússola indica urgência
E aponta entre dois polos
Desdém e proximidade
Me é difícil
Escolher pois a variação é aleatória
O que sinto me impede
De desconfiar de suas verdades
Singular orientação
Me impõe desvairadas
Desconfianças sobre para onde seguir
Entre um sul que anima
E me exaspera pela felicidade que promete
E um norte que desde já me desengana
Promete hesitação, o que me agradaria
No longo prazo
Se tivesse de lutar para obtê-la

Um dia comporta sempre variações
No rumo
Que não planejo ou desejo
Mas que é impingido
Àqueles que se aventuram num mar
Incerto porque prometedor
De paz, e delicioso porque prometedor
De guerras

sábado, 3 de outubro de 2009

Pareidolia

Somos duas paredes brancas
Cuja sincronia&espontaneidade
Impede a procura de caminhos
Há trilhos invisíveis que nos impelem
Aonde queremos ir sem
avaliar a proximidade ou
A lonjura da colisão
Combinamos num sussurro
Sem saber
Descarrilar e tomar o mesmo rumo
Ou quebrar um farol e
Parar de escrever

Mentira, ferrovia não é
Camisa-de-força
Faz o que se quer
Feito
Mas ao mesmo tempo e
Olhando nos olhos para não perder o ritmo

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

ArgumentumOrnithologicum

Os pássaros de Borges voam
De uma árvore de possibilidades
São contáveis por um deus que se disponha a fazê-lo
Um homem, em suma, que ao desenhar o universo 
Esteve sempre desenhando a si mesmo 
Não a/há um deus
Porque não há necessidade de contar os pássaros 
Desta ou de qualquer outra árvore
E cada desenho de cada universo
É pessoal e intransferivelmente não
Hierarquizado
Não pode haver Um deus pelo motivo de
Dois espelhos gerarem
Infinitos outros e dois universos
Gerarem infinitos outros que, na verdade,
São os dois originais e intocados
Que, levados a nocaute,
Se fundem.

Oscuro

Quando a sombra se introduz
Pela fresta de uma janela
Percorre alguns corredores
E me atinge em gradações
Até então impensadas
A interpelo quanto a suas intenções

Não se resigna ao lugar de
Oposta à luz
E persegue a vários
Indignada em ter de atrelar-se
A apenas o que ela permite
Ou proíbe, simultaneamente

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Primeiro poema em segunda pessoa

Ut em latim é um indicativo de forma
O nosso "como" ou "de forma"

Tu, em português, és indicativo de:
Dúvida
Arrogância
Vontade
Singularidade, em suma

E por ser o contrário de ut é fácil
pensar, ut retro, que Tu és um indicativo
de conteúdo
Controvertido

Imagética do dia em que não a vi

Reluto em querer ouvir outros falar de outros
Não quero falar de mim para outros
Nem dela para outros com relação a mim
Com ela de mim ou de outros tampouco
Não consigo sem ela ou com
Nem comigo dela
Nem sem ela com outros
Mas com ela sem outros
Olhares e sentires e falares
Trocas singelas e arroubos

Quero saber como, se é verdadeiro o que sinto,
pode ser falso o que escrevo
e com o que lido?
Duvido da capacidade, sendo falso com o que lido e
O que sinto,
De minha escrita de consertar isso
Sempre me fazendo hesitar
Sai triunfante por conseguir

Não há uma imagem mais correta [e
                                         fria e superficial]
Que a de um espelho e a de um suspiro
Ouvir o que têm a dizer
Não apaga a predisposição a que
Sua voz ao telefone seja
Metonímia de sua figura
-Embora não preencha sua
Ausência- e não substitua
A tendência a me preterir
Em benefício de minhas hesitações

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Elegia Pré-Adamista

A enxergo como quero.
Por leitura labial
a reflito/refuto/repito/
conflito/contemplo/contra
exemplo/comparo/
preparo/prenuncio/reparo

'Tis not about setting traditions
up for the smiles are unpredictable
unsteady; they don't assure my life
They mock me instead

A primeira vez que, sozinho,
Cheguei ao Rio de Janeiro
Me assalta quando os leio
Contraídos, descontraidamente
Genéricos, enigmaticamente
Exortando a trabalhos

São sinceros e claros
Boca-do-inferno revisited
Não se compara à
Torrente, a plaquinha é
desnecessária. Tudo tem
um significado.
Resta decifrar.

Poesia fraca em momento desesperado

Morfeu me largou para ver se eu morria
Sarcástico
me marcou com olheiras e
Tirou minhas noites
Assim eu poderia pensar nele e nela
Com mais calma e por mais tempo

Queria ser deixado em paz
Às portas da morte tranquilo
Aceitando

Às portas da noite deitar e dormir apenas
Sem pensar Em morrer, Em acordar
em saber, em maiúsculas

Às portas do mundo esperando poder
Entrar

Às portas da poesia esperando poder sair

À beira de um ataque
Coração
Sono
Nervos
Pânico
Sentimentalismo


Meu cérebro escorre
E eu struggle para manter os olhos abertos, não piscar em reverência
Senão pereço de vez na tentativa

domingo, 27 de setembro de 2009

Trova para aquela de quem dissinto

A cabeça treme
E oscila em
Dúvida - um zunido
Zurra em meu crânio
E não é
A poesia pedindo
De joelhos para
Ser escrita

Tenho pensado muito
Nela, mas o
Zumbido me atrapalha
A visualizo minha
Na ponta dos
Dedos e da
Língua

Tateio e não
Alcanço, ela tateia?
Não, sequer rastreio
Esta possibilidade
Mas anseio por
Um avanço iníquo
Que traga à tona
A verdade

sábado, 26 de setembro de 2009

Fumígeros

Um acorde destoa dos outros
Hábitos de sempre, que agora tremem
Ante a presença deste novo
mais expressivo que, dominante,
Afoga os antigos em obscuridade de que
Tentam sair
Afogam o recém em proeminência
Mais expressiva que a dominante
Ante a presença deste novo
Hábito de nunca que agora impõe
Um acorde que destoa dos outros

One way or another

Minha poesia - assim como eu -
Precisa de óculos
Que guardem não a distância,
Mas a proporção entre tudo e nada

Feita tortuosa e fora de horas
A recolho no ar, se
Vítima de um desajuste meu
Me vitima Com golpes cegos
De baques surdos
Faz perder o foco do que não é
Abrangido por um sentimento meu

Só tenho tido um sentimento
E um acorde palavroso, despro-
porcional para ele

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Baker tweet faulkneriana

A god in progress
Fulfills its purpose
While in process
Neglects its project
He beats it, Moses
As the chosen
One bakes old
Buns in the oven
Shakes his hips
Just as they've spoken
When looking for a noun
To rhyme over and over

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Poema bórgico que deve sua eficácia à pontuação

Toca a campainha e sai correndo
Não quer vê-lo, chorá-lo ou rí-lo
Arrependida não olha atrás
Para não lembrar do erro crasso
A culpa é sua e quer dizê-lo afagando seu rosto
Sentindo na palma da mão as lágrimas quentes
Sulcarem-no
Não existe coragem de encará-lo esse momento
Ainda que devesse reconhecer
Que trocar acusações aos gritos por telefone
É pior

Quer que lhe acaricie o rosto e sinta a felicidade
Que não consegue traduzir, palpitar
Nas polpas de seus dedos
Almeja gritar
De alegria
De exultação pelo que seja,
De medo, angústia e paixão misturados
Mas não quer que ele parta
Quer a ouça, quer não
Quer sabê-lo ali para ela e seus gritos
E quer sabê-lo sabendo dela ali
Para seus desvarios e estertores fingidos

Corre porque teme qualquer reação
Mesmo a desejada
Fora uma tarde maravilhosa
E se ele achasse que foi só isso?
E se ele achasse que não valia a pena insistir em nada nunca?
Ledo engano, fora mais e ela sabia
Um sorriso e um gosto que ele deixara em sua boca lhe diziam
Que ele concordaria

Não como submissão,
Mas como constatação inevitável
Se discordasse, acabava ali tudo
Tanto o que viera buscar
Como o que viera trazer
Tinha esperanças, entenderia

Não obstante, corria ansiosa, temendo o mundo
Que só ele podia proporcionar

Brasília II

Brasília é o céu de pernas abertas
Esperando concreto que a penetre

Virgem insólita largada no meio do deserto
Pedindo carona às tábuas de argamassa que a
defloram

Geme e rodopia sozinha, acompanhada e satisfeita
Ao som de Tom Jobim em versão maracatu
Música daquela primeira vez

Não houve dor, não houve gozo
Houve o sim da descoberta

Dos muitos que a tentaram, mas não conseguiram
Dar ainda um filho

Será que é infértil?
Não, é só uma fase e passa

sábado, 19 de setembro de 2009

Took my baby away

Y cual es el nombre de usted?
Crix Crax Crux
Esto no es nombre qué se le dé a una persona. Está descumpliendo las leyes, no se puede hacer camping en este sítio.
Es una rebelión existencial en contra la opressión de la Babilónia, tio. Qué sentido habría en pedir permiso a alguién?
Usted ha violado el artículo veinte y cinco del código ciudadano:
Ningún ciudadano puede establecer su vivienda a menos de diez metros de la vivienda de otra persona.
Y me parece que tiene perros ahí, no? Viola por lo tanto también el artículo ciento once:
Ningún ciudadano puede quedarse más de dos minutos a menos de trés metros de otro ciudadano o ser.
Es una revuelta que propongo aqui, camarada. No hay cómo volver en lo que está hecho. Me importa un carajo lo que pase, de aquí no me voy hasta ver completada la destrucción de los opresores.
Señor Crix Crax Crux, vayase a vivir la revolución en otro lugar e lo suficientemente lejos de los ciudadanos amantes del orden. Ahora tengo que irme que ya llevo un minuto e cuarenta y siete segundos charlando y esto no puede ser bueno.
No se vaya, quédate un momento más. Hagamoslo juntos.
Ya veo que un revolucionário nunca dejará su puesto. Tengo qué arrestarle pero se me acaba el tiempo. Espera aquí un segundo a que me vaya a buscar las esposas. Así tendremos mas dos minutos para relacionarnos.
De aquí no me iré.
Ya vuelvo.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Tive algum

E houve esse dia em que percebeu que nunca a vira sorrir. O que não era motivo para desespero. Eu não sorrio nunca percebeu. Te achava normal até hoje. À mesa de um bar. Ambos com sono e sede. Seria momento perfeito para alguma explicação. Ansiava por isso. Ela encarava fixamente tentando perscrutar em vão alguns desígnios. Ele o mesmo. Traz mais uma por favor. Me passa o isqueiro. Mas você nunca tentou sorrir. Eu tentei uma vez quando minha mãe me deu o lordbyron de presente de aniversário. E conseguiu. Eu gosto muito do lordbyron. Lembrar como ele ia me arranhar toda e destruir meus móveis e livros me fez me abster de uma emoção mais incontida. Como você contém uma emoção incontida. Lembrando de como o gato arruinaria minha vida. Apesar de eu gostar muito dele. Nunca quis inconter uma emoção. Em especial alguma que te fizesse sorrir. Não. Você ficaria mais bonita. Eu não preciso ser bonita porque sei que idiotas como você morrem de amores por mim. Ficaria mais magra. E isso me faria morrer mais ainda de amores por você. Mentira. Você já morre muito de amores. Não é possível superar isso. E se eu te largar você sorri. Não. Por quê. Porque você não destruiu meus móveis e livros.
Houve um dia em que percebera que a resignação ante este fato era o único caminho. Com cócegas você ri. A última pessoa que me faz cócegas foi meu pai há mais de quinze anos. E já então eu não ria. Então tá. Faz-se um pacto. Você me dá um sorriso de leve e eu pago toda a conta. Minha reputação e dignidade não valem tão pouco. Valem. Muito você se engana. Então paga a conta sozinha. Eu não. Você bebeu tanto ou mais que eu. Mas você não quis me dar o sorrisinho. E daí. Que todos os problemas têm origem em você. Paga a conta logo e vamos embora de uma vez. Não. Só se você der o sorrisinho. Quer morar no bar agora então. A gente vai assim que você sorrir. Que insistente. Só por isso. Prepare-se para dormir aqui nesta mesa mesmo que eu vou indo embora.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Geoglifos

Com
Umente
De
Com
Por
A
Pararestas

Labirinto

 Às autoridades competentes e a quem possa vir a interessar,

Um método estrangeiro de tortura propugna que se encarcere o prisioneiro em uma sala onde não entre luz som ou calor. Isolado de qualquer influxo externo lhe ministrariam refeições a intervalos de tempo cada vez menores. Não percebendo por via biológica sua passagem o encarcerado passaria medí-lo por meio da únicareferênciade que dispõe: as refeições que toma. Crendo-as espaçadas por intervalos regulares e semelhantes aos da vida cotidiana, julgaria haver passado muitíssimo tempo por haverem passado muitíssimas refeições, quando na verdade o pontual controle destes intervalos permitiu que lhe dessem a impressão de haver passado anos preso, quando mal transcorreu uma semana. Alijado da noção de tempo seria fácil arrancar-lhe informações, tanto por seu desespero e fragilidade emocional quanto por um simples argumento que postularia haver a guerra acabado e com ela a necessidade de segredos entre os inimigos que teriam agora feito as pazes, chegado a um bom termo por via diplomática. Este segundo argumento é fraco e facilmente refutado por aqueles que nem no próprio país confiassem. Espiões duplos ou triplos não se veriam nada compelidos a entregar informações seja a quem assinava seu contra-cheque, se é que o sigilo lhe permitiria ter um, seja a quem o remunerava paralelamente. Parece ser que a grande estratégia divulgada pelos manuais de sobrevivência para eludir as intenções de torturadores tão especulativos quanto os que engendraram este prodígio filosófico seria infligir a si mesmo pequenos cortes e pelo tempo que demora a cicatrização, inváriavel por seguir ritmo biológico alheio a fatores exógenos, calcular o real intervalo entre refeições. Desbaratado o estrategema, bastaria ao auto-flagelador regular a própria alimentação podendo inclusive perder algum peso. Parece ser que o labirinto perfeito teria paredes forçosamente transparentes para privar o que tem a intenção de dele escapar da noção de espaço. A regra aqui nesse método tão engenhoso seria a mesma, com objetivo semelhante inclusive. Resta saber se o aplicaram corretamente alguma vez, e se sim, que resultados obtiveram-se.
Desponta, não obstante, a questão da aplicação prática de tal método. Não há dúvida de que os requisitos mínimos são um prisioneiro e uma sala que cumpra os critérios listados acima. Há, no entanto, questões não resolvidas. Quanto à qualidade da comida, subsiste a dúvida sobre se deve ser da melhor ou da pior. A melhor comida compeliria o cativo a comer mais e mais, sendo mais fácil empurrar-lhe comida a intervalos menores encurtando o processo o que como contra-partida acarretaria gastos imensos em itens supérfluos de alimentação - supõe-se ser desnecessário dizer que o prisioneiro deva ser encerrado isolado na cela; contato humano nenhum tornará o método mais eficaz - por outro lado ser a comida de baixa qualidade minaria a moral do preso fazendo-o contar tudo mais rápido. Os defensores desta vertente ignoram o fato de os soldados detentores de patentes mais rasas estarem amplamente acostumados à pior comida que o exército possa conseguir-lhes. Não obteriam, portanto confissões, argumentam os dissensores desta corrente que parece ser majoritária ignorando que este método é único e não serve para ser aplicado em soldados de baixa ou nenhuma patente. A escassez de salas tão bem isoladas quanto se requer, restringiria sua aplicação a casos especiais a serem julgados por uma comissão conjunta formada pela fina flor da corporação militar e da corporação sofista.
Quanto ao propalado método de contagem do tempo atrelada aos períodos de cicatrização da pele não há o que temer, a não ser que o preso seja masoquista, disposto a submeter-se a inúmeros cortes, o que providencialmente enfraqueceria mais ainda suas defesas psicológicas, não parece provável que algum preso recorra a este método. Não se lhes dá qualquer indicativo de qualquer coisa, se lhes ministra refeições apenas. Mesmo nos casos mais do que comprovados de capturados que se fazem passar por loucos é fácil coibir a utilização deste método fornecendo-lhes talheres, colheres preferencialmente, de plástico.
Não há, no entanto, - e muito especula-se a respeito na atual literatura - nos anais registro desta prática, conquanto a documentação acerca de outros métodos seja farta e conclusiva. Pode haver um medo subjacente, não necessariamente um apelo à moral e à humanidade no tratamento dos presos, mas um receio de que, se disseminada e incorporada à rotina tanto deste país quanto dos inimigos, esta prática podia levar à formação de um contingente bastante grande de pessoas menos aptas à vida comum que o pior dos mutilados. Nenhuma sequela física ou psicológica se equipararia do que a que aqui pode infligir-se. É, portanto, um medo quase transcendente da realidade física. Um medo da posta em prática de um método que só pode ajudar, que se não superado pode vir a solapar as bases da ordem e da moral desta nossa sociedade que desde sempre preza pelo exercício da razão e da soberania.

Um cidadão preocupado e consciente.

* Agradecimentos ao Thiago pelo apoio logístico.

Nascituros revêm

...a mais vistosa violeta velada da vila
Finnícius Revém - James Joyce



Espreita porta adentro
Sorri sorrateira para ninguém
Parece fingir não perceber

Entra e resolve

Olha de esguelha,
Parte e
Quero crer que se
Certificava de que

Nela imagino um sorriso mínimo
Infinito ínfimo
Condescendente irônico que
Quero crer que (h)ouve

Mas sim,
Sai triunfante
Por conseguir

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

De tábuas e canoas

 Ele se apaixonara por ela na primeira vez em que a vira fazer um movimento no ar para ativar o sensor de movimento que acendia as luzes do corredor.
Ela nunca se apaixonara, mas se excitava quando ele sussurava Proust em seu ouvido.
Como se por ondas a afeição alternasse entre um e outro, sobreviviam agarrados à tábua de palavras francesas que os ajudava a flutuar apenas. Estavam à deriva e não se amedrontavam, porque haviam escolhido. Não buscariam salvação nem por palavras, nem por atos, sentimentos ou pensamentos. Não queriam salvar-se nem por si mesmos, pois fazê-lo diluiria justamente o que os juntara. Ele sempre gostava de sussurar-lhe um clichê que ela achava ridículo demais e fazia questão de demonstrá-lo com seu ar blasé e seu sorriso desconfiado e ao mesmo tempo condescendente: Perdidos haviam se encontrado.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Nochevieja

Era perto de quatro da manhã e havia sons que nunca abandonavam o mundo a essa hora. Desde as dez perambulava em trajetos curtos e já sabia de cor o que veria neles. Só voltaria quando totalizasse vinte e dois reais, dos quais já tinha dezoito. A partir de certa hora, certas coisas ficam mais fáceis, enquanto outras ficam mais difíceis. Sente algum medo de que algum bêbado o agredisse de novo e tomasse seu dinheiro. Um vigia gira o chaveiro nos dedos e assovia uma música da novela. Nenhum bar fica mais aberto a esta hora, quando ficavam o escorraçavam. Uma vez fizeram mais e lhe bateram: merecera uma justificativa ao menos, fedia. Não se afastava muito da porta do mercado vinte e quatro horas. As pessoas que entravam lá, pelo menos as que não eram como ele, tinham dinheiro pra gastar, até pra desperdiçar se as comovesse o suficiente. Era melhor ter armado a barraca num lugar mais escondido, pra dentro dos bambus; os guris dão muita bandeira. Faria diferença se não voltasse ou não voltasse com os vinte e dois reais? Conseguiriam sem ele? Não, eram os fardos. A mulher era uma inútil que só queria ser bem-tratada, não cuidava dos filhos e não conseguia trabalhar em nada. Dos filhos era difícil lembrar o nome de todos de uma vez, eram muito parecidos porque sempre estavam com fome e fazendo barulho. Por que será que trepar uma vez significou ter de trabalhar pra outros pra sempre? A senhorinha se assusta com a abordagem e se desvencilha dele rapidinho. Nem dá tempo de contar a história ensaiada para levá-la às lágrimas. Porque será que os filhos não podiam fazer aquele trabalho? A barba está muito desgrenhada e ela e ele se separam bufando, cada um com suas razões. Mulher é mais provável de dar dinheiro, homem dá dinheiro quando quer se livrar logo e não é forte o suficiente para xingá-lo. Consegue setenta centavos de um casal que deve ir comprar camisinhas. Deve ter dado o troco por causa do alívio de não terem sido assaltados logo ao sair do carro. Estavam com cara de assustados. Está escorado numa barra de ferro onde acorrentam-se motos e vê um carro entrar muito rápido no estacionamento. Sai de dentro um homem de camisa regata e boné, trôpego e desacompanhado. Forte, sem dúvida, mas seu tempo de reação a esta altura deveria ser lentíssimo. Ignora três tentativas de abordagem e por fim cambaleante escora-se nele. Eu e minha família estamos acampados em um terreno aqui em baixo. Há três dias não temos o que comer e só volto pra lá com uma cesta básica. Já tenho dezoito reais e preciso de vinte e dois. Se o senhor achar que estou mentindo e quiser conferir a gente entra lá e compra juntos a cesta. O do boné está visivelmente alterado e há uma chance. É fácil perceber que tem dinheiro, tanto pelo tênis que usa quanto pela carteira que tira do bolso. Solta-se do apoio do outro para conseguir mais mobilidade. Abre a carteira para buscar alguma coisa, sem notar a existência do outro. Se pergunta se irá ajudá-lo. Está muito distraído vasculhando a carteira. Não hesita, dá-lhe um encontrão que ele não percebe de onde veio. O outro tão bêbado não esboça reação alguma ao cair no chão. A carteira que caíra a poucos metros é prontamente chutada longe. Uma mão grossa e afável o ajuda a levantar. Se incorpora dá uma gargalhada e entra no mercado. Olha debaixo de carros e não vê a carteira. Será que já a levaram. Não lembra o rumo que ela tomara quando a chutou. Caiu dentro de uma boca-de-lobo. Levanta com dificuldade a grade. Enfia a mão na massa viscosa e procura. A carteira caiu aberta dentro do bueiro e todo seu conteúdo está molhado e fedendo. Primeiro atira os documentos longe e os perde de vista porque caíram em algum lugar entre um carro e o meio-fio . Tira algumas notas do compartimento, não poderia usar os cartões sem ser detectado mesmo. As notas encharcadas se desfazem entre os dedos. Salva duas mais intactas, deterioradas mas melhores que as outras que não conseguiria passar adiante. Uma de cinco e uma de vinte reais. Tem agora quarenta e três reais e a frustração de não poder comprar duas cestas básicas, e isso que já tivera sonhos. Nenhum estabelecimento dá desconto a alguém vestido como ele. Tudo sai mais barato pra quem é rico e não é só porque eles tem mais dinheiro. Entra no mercado sob o olhar incrédulo do vigilante, já conhecia esse, ele sempre tinha cara de desconfiado. Vê o homem da carteira debruçado sobre carrinhos de compras, brincando de deslizar pelo chão liso do mercado. Bate contra uma gôndola, o som dos vidros se espatifando, quem sabe se encima dele, é engraçado. Está feliz de ter dinheiro. Vai comprar algo para si com os vinte e um reais que sobrarem. Sem saber como, antecipa-se a isto e já está na seção de queijos. Afinal de contas tem quarenta e três reais e isso o desobriga . Toma um queijo nas mãos e pela primeira vez não se importa com o preço que possa ter. Aproveita a doce indução a que submetem os clientes os mercados. Pega um vinho e para completar um charuto. Os charutos não estão à mostra, tem que abrir um armário protegido para buscá-lo. Chega no caixa sob o olhar condescendente da atendente, será que os quarenta e três reais que está prestes a gastar o tornam menos desgrenhado? O gerente olha desconfiado para ele quando retorna com os charutos. Não se importa sempre olharam assim mesmo, mas o mundo é dele agora. Paga tudo, sai do mercado. Hesita pois sempre pode voltar à barraca ou não.

sábado, 5 de setembro de 2009

Correio elegante e rude

Sont les mots qui vont tres bien ensemble


Por saber e não me esforçar
Em ser desajeitado
Tomar palavras erradas
Quando o que se quer dizer é simples
Seguir caminhos estranhos quando
O objetivo é tão palpável
E se quer dizer apenas o que cabe
Atingir um fim que não conheço
Mas já imagino perfeito

Telegrama versificado

Hesitou em pedir-lhe um cigarro. Lembrou-se de Teleco, o coelhinho. Não pediu. Achou melhor comprar. Ela disse que por qualquer moeda lhe daria um cigarro. Deixou intacto o fato de dá-lo ou não de graça. A conhecia de há pouco. Não queria precipitar essas coisas. Buscou o isqueiro na mochila. Com o cigarro na boca viu aquela que o aturdia entrar no banheiro. Devolveu o cigarro. Pediu-lhe que o guardasse por enquanto. Buscava evitar que o visse fumando. Falaria com ela que parecia haver desaparecido no banheiro. Atam por enquanto uma conversa sobre literatura inglesa. Ela lhe diz que ou fume o cigarro ou guarde o isqueiro. Aquilo dá a ela muita vontade de fumar. A deixa ansiosa. Ainda espera. A que o aturde não sai. A conversa se desenrola sobre um assunto batido sobre Henry Miller. Ela coloca o cigarro dele virado ao contrário no maço para distinguí-lo depois. Vai mandar por e-mail um excerto que chegara a decorar certa vez. Diz que mande. Que terá prazer em lê-lo. Não se sabe porque nesse momento não lhe dá o endereço do e-mail. Tenta matar o tempo desfiando amenidades literárias. Nada muito profundo. Gosta de debater estas questões. Se distrai e não a vê sair do banheiro. Quando se dá conta ela já está longe. Se afastando mais. Corre. Procura um assunto. Tem como me mandar um e-mail com as provas antigas. Você é um folgado. Não anota o e-mail dos monitores e depois eu tenho que perder meu tempo conversando com você. Não capta o tom. Dias depois se arrependeria de não ter respondido. Conversar comigo nunca é perda de tempo. Eu mando. Vai demorar um pouco. Eu tenho que verificar com as meninas se nós juntas temos todas as provas. Tudo bem. Vou anotar meu e-mail num pedaço de papel. Você me manda. Revira mais uma vez a mochila. Não tem nenhum papel aqui. Minha bolsa está numa sala aqui por perto. Eu poderia ir lá e pegar minha agenda. Não vou. Você já está mexendo na sua mochila mesmo. Achei. Não perca esse papel. Ele é precioso. Como eu iria perder um papel deste tamanho. Não esquece de me mandar. Tá bom. Tchau. Tchau. Lhe diz que seu isqueiro não está funcionando. Ela diz que use o seu. Falam agora de Ferlinghetti. Lhe dizem que saia. Não fume lá dentro. Ainda aturdido. Revolve tudo o que pôde dizer. E a vida prossegue de forma mais tortuosa que antes. Percebe que não entendeu nada. Que tem pouco a fazer nessas situações. Que ficar rememorando não ajuda.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Paralipse

Prosaico mora longe
Pega três ônibus para ir trabalhar
De contínuo
E não sai para beber cerveja com
Os colegas depois da jornada

Poesíaco habita escondido, sobe nas árvores
E tira fotos com detalhes fora de foco
De si, do outro, de seu
Mundo, dos outros mundos e
do mundo dos outros

Insólito quando trombam na rua
Um sem graça ajeita a lapela
Faz menção de seguir caminho
O outro o abraça e recolhe
Gentilmente a pasta que caíra

Não que o um seja rude,
Mas
Já haviam trombado outras vezes
E Poesíaco o desconcerta

Não que o outro seja assim tão afável,
Mas
Já tentara trombar com um na rua e
Falhara: Prosaico o aturde