quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

deitado num banco acendo um cigarro olhando as nuvens
de bigode alemão e de nave espacial
sem dinheiro não quero voltar a pé
estou esperando algo acontecer
e não sinto esse cheiro no vento
nem de carona nem de ônibus
o conhaque está mais caro
os suspiros estão mais caros
e os sorrisos e os gestos nada mais é de graça
ou pelo menos tudo hoje requer dinheiro para ser feito
só quero dormir e esquecer das pernas
que ela já não se incomodava em fechar na minha presença
do cabelo fino perto da nuca e dos cigarros
devorados
abre a boca e fecha os olhos que aqueles mexicanos
estão nos encarando
já te disse pra não usar esse salto que ele me machuca
nem é porque você fica mais alta que eu
os pés mais suaves para a alma mais suja
talvez mais suja que a minha
a cerveja era tão amarga quanto hoje
mas era mais divertido sair sem pagar ou embebedar
o dono e seu cachorro antes de fazê-lo
quando começou a chover tudo o que você disse foi verdade
porque era mentira pela qual lutamos
grita comigo se você não tiver ido embora
e vamos voltar a fazer poesia
com a caneta e com os ossos
sem atrasos pra agora se você ainda estiver por aqui
e ainda quiser algo disso
e algo mais que ficar deitado nos bancos sem retocar a
maquiagem e os olhos seus que presumo borrados agora
me fale de sade que eu te falo de cortázar
antes do fim de um mundo que vi pela sombra
que era ideal e que não quero que tenha acabo
à força de minhas elocubrações
à força dos erros obsessivamente repetidos que revolvo
deitado num banco fumando um cigarro olhando a lua

Gaivotas são ilhas solidificadas no meio do ar

Está frio e abafado aqui
O tipo de clima mais estranho
Um tanto claustrofóbico
Como úlceras que se abrem
No ar e aprisionam

há espera e desespera
e vontade de solução ou
de manter o que está
noivas contendo a vontade de correr do altar
para os braços do marido
para os braços do amante
para os braços do pai e dos bichinhos
de pelúcia

dedos se abrem e não encostam
hesitam em tomar a decisão
e isso já é fazê-lo
na falta de habilidade para abrir um
sutiã qualquer
retirar os dedos é com certeza decidir

cheira a fritura aqui e isso não
foi deliberado
mas suportar ou não sim
dentre alguns caminhos vê-se um
percorre-se um desdenha-se um
em detrimento de todos os outros
nas costas de camelos
deste deserto anoitecido
em que estrelas e escolhas caem
como meteoritos maduros

cada centímetro avançado
é um que aumenta a distância
entre o que se é e o que se quer
ser e querer

eu vejo todos e não opto
inapto

Santorini

a manhã trouxe frustração
sem saber o que queria
nada funcionou e os postes desmentem
todas as intenções e algumas chamadas perdidas
amanhã será melhor se
deixarmos na estrada o que
nos trouxe em busca do novo que perdemos
esperarei três horas e meia e
nada mais
para que surja em algum lugar o que
quero só por não conseguir
entender por não conseguir tocar
e que não creio que me fuja
mas tampouco creio que se aproxime
a mim porque está indiferente ao saber que
gosto

venho pensando em parar de escrever
essa ânsia dói
não doerá mais ou menos se firo o papel
mas deixarei de precisar lidar com coisas

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Fell through the ice

nenhum dramaturgo conseguiu
por expressões e feitos
caretas pantominas e frases de efeito
traduzir o cerne de cada coisa
sem que a falsidade gritasse

é tudo representação

tudo é palavra e nenhuma me serve
quando um tipo de agulha me rasga
procurando em vão que eu resista
que eu escape
de uma dor que em ondas simples
e por isso mais demolidoras derrubam
do nada o tudo

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Tangled up in blue

Nem eu poderia imaginar que hoje me despejariam de meu apartamento. Eu gostava bastante dele até porque não era lá muito fácil encontrar apartamentos com banheiro naquele bairro que era o único em que meu dinheiro me permitia morar. Não sei se é bem despejo quando dá pra ver uma luz por debaixo da porta e barulhos. Meu colchão estava escorado na porta e era tudo. Sem aviso e sem resposta quando bati. A fechadura tinham trocado já. Como eu estava sem ter aonde ir decidi sentar na calçada e esperar até alguma coisa acontecer. Pelo menos não tinham me trancado fora da minha carteira de cigarros. Dinheiro era sempre pra mim uma doce ilusão mesmo, o problema era onde dormir. A vantagem era não precisar mais pagar os aluguéis atrasados. Decidi arrombar a porta e por isso subo as escadas correndo, pra pegar impulso.

the blues is dead and mark lanegan is a fag

aprendi de um jeito a andar
um jeito que ninguém usa mais
em que o chapéu torto e o cigarro
no canto da boca
não são sinal de irreverência
nem a jaqueta puída e a calça gasta
com o bloco de notas sempre
em mãos de ornitólogo insincero

manequim de magritte que vê o ovo
e pinta-o já gestado
com asas para desenhar a outros
tipos de ciclo no meu bloco

acende-me a estrela da manhã
que a sua janela escura me impede
de ver teu rosto

colhe a luz entre os teus dedos longos
aprisiona-a num movimento de sufocar pássaro
e prender cigarra

acende-me a estrela da manhã
porque aprendi de um jeito a jogar
pedrinhas te acertando
até que você acorde
sem querer saber que horas são

colhe a luz para que o brilho em teu rosto
resida
acomode-se
e sempre se saiba que dali não escapas

o rosto é uma mão que afaga e repele
com unhas mais afiadas que as de costume
aprisiona pois o que ainda não cativo
jaz estirado a um sol que não o teu

domingo, 6 de dezembro de 2009

naufrágio longe da costa, muitas pedras invisíveis










, fiz uma besteira outro dia com o fuzil. 
Quem ia saber que você também sofre do mal-caduco?
fiódor mikhailovich dostoiévski

o ventilador quebrou. a noite me sufoca sob um teto de nuvens tornadas brancas pelos postes excessivos. a prova disso são estas moscas em carrossel ao redor da luminária evocando o sorriso falso que nenhum dinheiro de que dispus pôde comprar. o olho vermelho da cafeteira está me censurando. é hora de parar. é logo desmentido pelo cinzeiro cheio. espere o fim dos sons da noite para ir. não a esqueci. também não gosto menos dela. é como fumar sabe-se que é prejudicial e que é uma obsessão que vale a pena manter. deixo as decisões para o momento em que baterem à porta. a retribuição dela ao quero te ver deitada de costas pra mim com a bunda empinadinha foi um sorriso curto seguido de uísque do copo dela em meu rosto. eu achava que espelhos em tudo. estofados de oncinha. água de colônia imitando perfume. trinta reais de consumação. me davam o direito de falar o que eu quisesse para qualquer um. tudo um rito de iniciação que permitiu começarmos a conversar. depois eu saberia que sob uma vigilância distante mas atenta. o que mais atraía eram os dentes brancos. uma assimetria nos de cima, um um pouco maior. dava vontade de lambê-los. falei de nerval e latréamont. que ela não conhecia. enquanto acariciava meu rosto olhava para os lados. nunca nos olhos. não tínhamos trocado olhares nem nada. o vizinho à esquerda martela nossa parede contígua desde que eu cheguei em casa. a luminária começou a piscar. gato malhado se esgueira entre dois prédios desviando das primeiras gotas molhadas. às vezes acho que o que me fez gostar de vez foi ela nunca receber antes. uma política de satisfação garantida. o pulso hoje do martelo em meus tímpanos é o pulso ontem dela arfante sob mim suado. em silêncio. sequer parecia haver esforço. tudo deslizava. os joelhos dela. ora em meus ombros ora em meus rins. nos olhos fechados carregados de pintura envelhecida um quê de recusa. quase no final ela arranha minhas costas. sem fazer qualquer som ainda. hoje estou realmente sem dinheiro. faz uma promoção. a rua estridente do outro lado da ligação entrecorta o que quero dizer. nem doida. tá querendo me passar a perna seu viado. o direito de pernada é uma reminiscência medieval. você sabe o que é. cala a boca. financia um pacote de horas pra mim. só aceito à vista e em dinheiro. você sabe. eu não tinha seu telefone. se é que ela tinha um. conversas por orelhão. o dia em que você se apaixonar por mim você deixa de me cobrar e eu beijarei sua boca. você e eu sabemos que é mais fácil acontecer o contrário. qunado ela desligou na minha cara fiquei com o cigarro em uma mão. o telefone em outra. pensando na tradução que estava atrasada duas semanas. a fumaça que trago é mais limpa do que  muito do que ela me deu. logo depois de receber o adiantamento pela série sobre o zé do beco comprei um vinho. mandei flores e um táxi ir buscá-la. desci para comprar velas. quando voltei ela estava sentada na escada do andar esperando. levantou-se e vi. maquiagem borrada escorrendo pelos cantos do rosto. pupilas gigantes. saia rasgada com manchas úmidas. o que mais me intrigou foi o cabelo. sempre solto. em coque. fiz com que entrasse. embora ele estivesse em meu colo a vontade era de afagar seus cabelos e perguntar algo. em silêncio dei banho. café. camisa que depois ela vendeu e entregou o dinheiro para ele. foi o que disseram. ela fingiu a própria morte na época em que adotei a estratégia de só revelar que não tinha dinheiro após o terceiro. fingido ou não. orgasmo dela ou o primeiro meu. o que viesse antes. o zelador foi convencido por ela a dizer que fora atropelada. as colegas de trabalho não atendiam o orelhão. o pedestre que o fazia não sabia reconhecê-la só pelo nome ou pela descrição. mereci um tapa e um abraço ao pedir uma cerveja. agora você aprende a não me dar o calote. comecei a ligar todos os dias. sem abandonar a estratégia. ele veio me visitar. arrombou a porta. quebrou o meu nariz e o telefone, ao avançar para a máquina de escrever o empurrei. o vidro trincou e a moldura amassou no ponto em que ele tentou se agarrar. já caindo. a ligação orelhão orelhão não pôde ser completada. atendeu um corretor de seguros querendo comprar ouro. tampouco a encontrei nas calçadas de sempre. nos bares de sempre. tanto é que acabei no primeiro. no do estofado de oncinha e espelho nas paredes. seria mais fácil achar que ela nunca viu a carta escrita num guardanapo. carta mais pragmática que romântica procurando. implorando por um lugar. para ir. para deixar. para incinerar. para esquecer para concretizar alguma coisa. em seis palavras pedi. escrevi em pé apoiado no balcão e a dei ao garçom. que achava que entendia a história toda por causa da variação do grau etílico dos pedidos. da margarita jovial ao uísque de milho para apagar ausências. fazendo com que prometesse que ia entregar. esperou eu ficar razoavelmente fora de mim para anunciar o que esteve esperando a noite inteira para anunciar. é hora de fechar. encerre sua conta. e todos os esforços são em vão porque ela se matou ao saber da morte dele. apago o cigarro arremessando-o por cima do ombro. a garoa. pó fino que arde na minha pele. me fustiga. não tenho pressa. o nariz retém memória da dor. vou contemplando a rua estática. mal iluminada. gatos copulando dentro de latas de lixo que amplificam seus ruídos. presenças intuídas tremeluzem. se esgueirando entre prédios. fugiam da água que crescia. o passante eventual me aborda visivelmente alterado. orbita outras coisas. olha em meus olhos. agarra meus ombros e os sacode gritando. ele a matou por ciúmes de você. talvez tenha sido a hora de começar a ficar preocupado. já estava ensopado procurando a chave no casaco da porta do prédio que dá para a rua. sob a chuva já muito aumentada. não sei o que o zelador estaria fazendo àquela hora acordado. ele abriu a porta por dentro e quase me tranquilizou. ela fugiu ao saber o que você fez. esta poltrona é realmente boa. abstraída das minhas perguntas de quanto de verdade há em tudo isso. nas fugas. nas colisões. nas unhas. nos gestos. comandados ou não por outros.

sábado, 5 de dezembro de 2009

The piano has been drinking

um dia eu serei velha e ficarei devastada por ter conseguido viver tanto
Mia Zapata - The Gits

fugir para o méxico para iludir essa gaita
que está em tudo kafkianamente

ela me disse que eu ouço sombras
e isso vem piorando
porque agora converso com
algo que me entristece
sem que eu saiba como
e não entendo se o díficil
deste labirinto é sair ou entrar

sentado num banco esperando
um homem me aborda
me dá uma ajuda
ele quer isqueiro e gole do meu vinho
acaba me mostrando
que sentir é um problema
infelizmente apesar dos pesares
tão tangível quanto falta de dinheiro
de cigarros ou de dentes

sorriso apagado foge amedrontado
pelos cantos do que escrevo
reluta em aparecer mesmo que seja
para brilhar pela ausência
ele sussurra é melhor parar
que ficar rastejando
mas a isso não dou ouvidos

Poema X

Ontem me acusaram de dramático
Mas a verdade é que gostar de você dói
E isso compensa talvez porque eu sou masoquista
Dói a despeito de todos os esforços
Para que não doa
Afastamento e aproximação falharam
Em mudar alguma coisa porque ainda sinto o mesmo
De sempre
i'm stuck in this feeling i like so much
Não estou fazendo drama, sério
Eu gosto de reclamar e às vezes
exagero, sim
É ilusório achar que eu sou assim
e É mais acertado dizer que
Você me faz assim
Porque eu só falo penso ajo respiro escrevo você
Ainda que algumas muitas vezes na sua ausência
O que é uma pena
E não tira o valor do que sinto
E de sua onipresença sufocante que me
Apraz muito
Por vezes fictícia
Por vezes concreta
E com sorrisos e com piadinhas infames
contra mim e gestos e brigas
E com pintas que descubro em seu rosto e sei
que são a coisa mais bonita do mundo
E com olhos delineados por trás dos vidros
dos óculos
mãos largas rubrogabrielas, maiores que as minhas
Tudo isso faz qualquer coisa valer a pena

Me falaram uma vez que eu tenho
certa filosofia de vida à la canto de ossanha
Amor só é bom se doer
mas não, pra mim é mais ou menos diferente
O que tenho é bom, muito bom
E a distância disso me dói um pouquinho
E disso eu gosto também
acaba que tudo é bom, então
This is more or less what I like
about this cumpilicity thing that happened
suddenly alone; and here's to us our lucky strike

Ressaca

Algo ecoa dentro da cabeça
Um seixo que bate
E reverbera sempre que
Acham que ele tinha ido embora
Algo ecoa nas veias nos pulmões
e no sexo
Uma marca que ninguém quer para si
Mas que diz viveu-se amou-se respirou-se
Ou não
Uma tatuagem dentro
Uma mancha de nicotina dentro
Um sorriso dentro
Do vômito inunda as ruas
E que ninguém quer para si
Finge-se invisível para penetrar
Nas casas e em tudo
Afogando todos os viventes do local
Que negaram haver esta marca
e que não a vestiram em sinal
de desprezo à vida que cauteriza
deixando as piores cicatrizes
Inquisição à la conto do cortázar sobre fumigação

Sendo tido ali

[...] toda pasión tiende - con mayor velocidad 
que el resto de las emociones humanas - 
a su propio fin, tal vez por la frecuentación
 excesiva del objeto del deseo.
Roberto Bolaño - El viaje de Álvaro Rousselot

 Se afastando pulsa
Ao longe ouço zumbir e quero
Me afastar deixar ser
Para preservar o que é bom

A gente não escreve mais poesia.
é isso agora?

Drama, ó pérfido drama
Derrama tudo por aqui Porque
não sabe dizer na cara

Me afastar, deixar de ser para conquistar
Um espaço
Ou seja um
Imperialismo ao contrário
No combate à obsessão

Isso é bom?
Isso de querer evitar a tal frecuentación
excesiva
Pra preservar algo?
Eu sinceramente acho que vai levar a lugar nenhum
E queria mesmo mais desvarios.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Tendo sido ali

Me trancaram do lado de fora
Quando o despejo já não era mais um recurso válido
Sobrei com o maço de cigarros em mãos
E um sorriso perdido em algum lugar da boca
Um sorriso com que eu quis mostrar que estava bem
Mesmo tendo sido deixado para morrer
Sem saber o que é pior
Ser trancado do lado de dentro
Ou do de fora das coisas

Batem a porta infinitas vezes
E no mínimo instante antes dela fechar
Eu via tudo lá dentro
E a visão me intrigava
Como o abutre de Prometeu
A visão de
Como arruinaram minha mobília
(sofá, microondas e caneca)
Virando os cinzeiros de cabeça para baixo

Sem saber aonde me dirijo
Parto sem tentar fazer nada
Pois já não consegui abrir a porta, mesmo

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Aviso aos navegantes.

Se alguém lê este blog, gostaria de deixar registrado que agora estou participando de um outro, http://descemaisum.blogspot.com/ , de colaborações; um autor para cada dia da semana. Entrem, bastardos.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Pillars of salt

'aquelle qui voit des papillons

Hoje tudo está numa freqüência diferente
Da das coisas de sempre
Não sou eu se as borboletas
Sintonizam meio truncado
Um zumbido que era pra ser silêncio
Pelo menos na poesia
A princípio aprisionado entre rochas
Encará-las de ouvidos abertos
fez com que
Bem fraco começasse
Sinal imperceptível ondulante
que, tremeluzindo concreto
afora, vai em
crescendo ad infinitum
e quando tão alto
que deixam de prestar atenção
volta - Impalatável, embora não insípido -
ao pó de ser silêncio de novo

Acidente permanente

Queria saber fazer sem querer
Para que não jogassem em mim
A culpa

Sem premeditar predenter
alcançar
Para que me jogasse a um vórtice
De tudo o que ainda escreverei
o que é diametralmente oposto
A tudo que senti

O vórtice é um cúmulo
Um ponto a que tudo conflui
Por inércia
E assim é O tudo
Que seria nada não fossem
Os encontros pregressos que levaram ali
Desavisados soubemos  disso
Mas ignoramos de propósito,
Para seguir vivendo

domingo, 29 de novembro de 2009

Idade das pedras

Chutei uma pedra e ela acertou alguém
Eu caminhava distraído olhando o céu
ela distraía-se bufando ao telefone
Pássaros gorjeiam como lá
Sol queima as pontas pálidas de seu corpo
O arranhão foi um pouco feio
E nenhum dos dois parou para nada
Ela melindrosa não quis saber
Quase dessangrada
Andando mesmo sem encarar
Jogou-me impropérios e deu as costas
Ao que fiz nada para reter
Tampouco fiz algo para afastar
E a vida seguiu com as mesmas perturbações
Para ambos
Como depois de ver aqueles malabaristas lidarem
Com chamas nos semáforos por aí afora
É e foi realmente incrível
Mas qual é a diferença que trouxe
No final para mim que sou apenas um curioso
E não um entendido destes assuntos?
Dois universos se encontram de raspão
Me pergunto o quanto um pode realmente
Afetar o outro; assim, não premeditadamente.

Cadernos mofados

Há nada que eu possa dizer
Que não previsto vigore já em
Algum lugar

De olhos bem abertos aguardo
Um momento
Para entrar nos lugares que me são vedados
E se esse momento não vier

Bom, pelo menos eu aguardei de olhos bem
Abertos

Estou esperando ela vir
Quem sabe se mais feliz
Não não, com certeza mais feliz

Será que chega tendo
sentido saudade de mim?
Eu, que senti muitas dela,
Acho difícil
Seria bom, embora improvável

Quero que ela venha de uma vez
Sabê-la longe
É ainda pior que sabê-la por aqui
E não vê-la

Caymán ciego




 [...] estos hallazgos me sobresaltaban, me alteraban 
hasta el punto en el que yo dejaba 
de parecerme a mí mismo.
El policía de las ratas - Roberto Bolaño

Runriverrun um rio em ondas capotando
Me absorve e me aprisiona
Em câmaras e túneis
Dos quais se consigo escapar é para cair em outros

Minha função era limpá-lo
Ver que canais obstruídos
E que canais alimentados por outros restos
Que não os permitidos
Nos regulamentos

Tal o homem qual a profissão
E continuaria acreditando se não fosse
O vazamento de coisas
Para dentro dele
De coisas guardadas em algum lugar
que agora extravazam

Deixando imprestável meu local de trabalho
É inviável que este meu rioconsciência
Volte já a ser o que foi
Depois do que foi
A muita sujeira e experiências
submetido não volta mais

Just one more hurricanedrivenflood casualty
To lay aside

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Capsules wouldn't come that close

Bear in mind that dogs might come out
of the ground
Bespectacled
Arguably green and thirsty
Might come out at night
With no one knowing
And everyone watchingexpecting
while the ashes burn once more
For the lures of the muzzle are
Squirming to crawl back to them
And the moonlight bestows
The worms from its womb
with indulgence
Forgiving those who needed once
Her help and have thus reached for
The sky
Asking her to come closer to
Adjust the tides once more
Reap some crops after all
Watery shine
Shiny water
Sinking in my tongue
Gushing from my lips
Shine on, you gravy diamond
Spit by the prayers unveiled
Gargoyles who watch from the distance
of a stone in the moon
a mount which, by herself out there,
Has seen no climbing
And no trees and no roads
A mount out of gas out of air cigarrettes and money
Forsaken in the sidewalks for an infinite amount of time
Pushed around half drunk half loaded
half kangaroo
A mount thrice larger than everest and
twice larger than the moon itself
Some random disaster in the sun
Burnt a shade in some random fields
Of some random liver and kidney

The craters I have for eyes
That have skin as a crater of matter
Have deceived me

In the purple uncultivated side of these hills
they will
promenade, You know
Even though they shouldn't

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Calle Montera

Mosquitos me devoram enquanto espero
Parado encostado na parede
Cigarro fumegante entre dedos
Ônibus fático e moto fálica mudos
Falante só o vendedor que me aborda
Quase sempre de olhos baixos
embora grite yakisoba relógio flor
O poste já apagou
As nuvens me descobrem sob a marquise
Cobrindo a lua estofando o ar
Com espumas incandescentes
Carregando pilhas de papelão
Na carroça passam sem dizer nada
E vão
Enquanto esperam por mim (será?)
devoro mosquitos sob minha pele

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Tu sais, le monde est bien plus grand que ma poche

Todos os rostos eram repulsivos
Franz Kafka


O meu mais porque respirarei
Esta atmosfera branca
De teto branco alto insensível mas pulsante
Como o deserto que esconde algo dentro
E todo este ar que me empurram é
conseqüência do que andei negando
Em cada esquina que preguei
Que é o rascunho da imagem que tinham
De mim até então

Ouço passos aqui e ali que não interessam
na sombra não interessam

Deitado espreitando já sei que não vem
A uma estação longe a que se entortaram
todos os trilhos que incomunicáveis
lágrimas de aço derramam sobre o rosto
Inerte semi-ignorante que reinvindico
Já sei que não vem e já o sabia
Quando me disseram que vinha e que eu
Podia esperar por aqui mesmo
Tomar uma cadeira e pedir um café

Ouço passos aqui e ali que persigo
Olhando nos olhos mas persigo

Os vultos me dizem nada batem em meu ombro
Mas sei que não são o que espero
Chegam a gritar para chamar atenção
É mais fácil ignorar finjo limpar os óculos
Suspiram locomotivas como notas musicais
Expelidas de si piano-de-cauda
Atrozes fora de ordem que me servem
Certa melodia que identifico aos poucos e de longe
Mas que também ignoro

Ouço passos aqui ali que enfrento
Com os quais sem saber quando e onde duelo

Todos os rostos foram repulsivos até o momento
Em que entro e me deparo com um
único que antes de repulsa me dá
A sensação de espelho ao contrário
De que não sou imagem mas sim
Contra-imagem não complementar
Compatível mas reflexo dissonante que discorda
Do que traduz e rebate esta alta atmosfera a que nos obrigam
A mim mais porque respirarei

Passos ecoam à minha presença
Bastante indiferentes, é verdade

Desejo todos os rostos que passam rápido
nestas janelinhas em princípio no papel pelo menos
se não puder ser presencialmente para conversar
Com suas vicissitudes e verrugas e perfeições
Esparsas às quais eu serviria
Um café
Mas não não as tenho aqui nem no papel
Distantes saíram correndo e bufando da proposta
Que lhes faço e que me fizeram um dia

Pessoas ecoam ao meu redor
Que não atinjo e que atiram em mim

Farpas e arranhões e sorrisos subcutâneos
Que nunca esperava e que agora afloram

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Um leopardo atravessou meu caminho, o grunhido quando o abati se transformou em pássaros canoros

Hoje fui pouco inspirado
Preferi ficar rabiscando por aí
Em alguns cadernos velhos
Ao invés de me dar ao trabalho que
Me cansa e me define

Tudo é tão vasto e inabrangido:
O que sinto que quero escrever
Para um fim qualquer que não me
ocorre agora
Simplesmente foge acabrunhado
Orelhas baixas e ganidos a um canto da boca
medroso da tristeza em mim inapagada
Pelo algo a que almejava e alcancei

Colhi um verso frágil-
E não por isso menos aguerrido-
Do seu cabelo e da nossa conversa
Que sempre diz muito
Pena que o achei abatido,
mas ele não quis saber

Muito fechado, evita comunicação
É melhor deixá-lo isolado no fim
do poema qualquer

Quis o que houve querido por fim conseguido
Com menos sentido repenso o que não perdido
Refez um caminho há muito esquecido

domingo, 22 de novembro de 2009

Légion des étrangers

Para Bubu, o maior ouvido da terra.

Meu castelo é uma miragem de um deserto a que almejo
O que me importam torres e fossos e masmorras e
pontes levadiças e cortesãs e bobos
Se a planície mais vasta me falta
Se as montanhas negras que se movem
tremeluzindo ao longe
Levam no lombo um tesouro que já é
Irrecuperável porque não cabe nas tendas
Ou no alforje que levamos
Se os poços que cavamos estão açoreados
Pelas ganâncias de inimigos invisíveis como
Dunas e subreptícios como o que não se
Desenterra se não à sombra
Quero margens alagadiças de volta
aos oásis rendados de verde
das palmeiras no centro
do centro de nada

O vento arrastou para longe o que construí
O que possessivo protegi
Me impuseram a troca à força
E pelas portas que consegui
novas reluzentes abertas
Paguei com um passado irrevogável apagado
Soterrado sob areia nula
Ubíqua destes páramos desolados

Mientras yago

Algo em mim dói e é pouco convencional
Mais que uma dor de cabeça
Mais que minha garganta arranhada
Mais que qualquer dor física
Ali perene espreitando a hora da ausência
E não é saudade dessas assim de sempre
É outra coisa. algo que me faz querer
a estrada sabendo que esta não ajuda
por ser infinita demais para meus objetivos
que não sei quais são
me faz querer desaparecer, melhor:
fazer outros desaparecer
Um tipo de resignação em querer mudar
o que já está consumado
E que me deixa perplexo por não saber
Se ela se afasta mesmo ou é paranóia
Aguardo sem ter muito o que fazer
Para além de ficar de olhos baixos
Remoendo calado erros presumidos

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Sétimo Selo

Jogando xadrez com mãos trementes
O cérebro tremeluzindo se atendo a um resquício
E um tremendo peão obstrui o caminho
Frente a frente -e não lado a lado, repito-
Encarando pouco e marcando o tempo
De cada jogada
Nenhum jogador é muito bom ali porque
tem bem pouco planejado
Quer-se bem poucas vitórias e por isso segue lenta
A partida, seja lá qual é o rumo que toma

Hung Up

No sé mirar por la ventana y decir
Si quiero irme quedarme o esparcirme por todos los sítios
Como un polvo que cruza el aire
Invadiendo la vida de otros mientras apaga la suya
Y dicer si me gusta lo que habrá
Pues no sé qué habrá
Espero mucho que luego no se cumple
Porque tampoco hay un plan para todo
Solo el plan de caer y volver a lo que no tuve
Como si le diese la luz por otro lado
Que no sé cual es pero que aprecio ahora

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Who knows (there's always someone somewhere)

tremendo de frio calor e café pelos poros depois do golpe que levei com fome me pergunto aonde ir o que fazer agora que sei que sou errado e que motivos tortos me incitam bandeiras em lugares distante me obrigam a pensar em desistir em correr porque nada posso e tudo quero e tudo vejo e nada escrevo e nada fiz enquanto corro de mim mesmo e do que fiz penso ser melhor não saber a hora de parar quando não sei como começou e fujo de saber como vai começar a música alta servida de graça com o álcool não me faz esquecer e conversar com as pessoas não me fez esquecer e foi pior pois me fez lembrar de não repetir o que fiz por mais entalado que já esteja nisso tudo com medo de me mover e te prejudicar medo de querer levar adiante o que quero e chocar o melindre de uma susceptibilidade e te fazer fazer o que não tens certeza de querer fazer e o perigo de contusões se alastra ameaçando a mim e a todos pela inconseqüência dos meus atos em não pensar em fazer e sim pensar em querer antes de tudo sem saber de outro mas pensando sempre em você e depois em nós nessa ordem os pensamentos se sucedem na noite clara vazia falhei e gosto disso minha dor vem de não saber o que fazer qual é o próximo passo rumo a um tipo de espontaneidade que já não me julgo em condições de atingir arruinei algo que não era importante ou só serei capaz de compreender a magnitude do erro mais tarde te queria capaz de entender que é tudo delicado por aqui e que pouco parece o que é realmente e se fiz ago acertado me pergunto o que foi porque se estou como estou é porque há algo de errado em mim e algo de certo nas coisas que falho em completar

Desarrazoado

Acontece que não sei mais amar
Cartola

Samba triste que eu nunca fiz
Baden Powell
No balcão deste bar
Quis escrever um samba que não saiu
Ele sequer está cá dentro
Só não saiu mesmo
Sem rimas e sem repetir partes alternando
Um samba quase meio torto
Sobre o tema de sempre
O tema dos meus cigarros e
Da conversa
evento habitual nestas paragens
O tema das ilusões
Que descrevem nada
Nem mesmo o inalcançável
Das paisagens que trazes
Da fumaça que trago
Das derrotas que trato nenhum apaga
Da cerveja que desce menos amarga
Hoje que em outros dias escancarando
Ao som de pancadas neste balcão
O vazio de onde vem outro amargor
Mais doído e melodioso
Das ruas mais vazias dos pássaros censurados
das cigarras no cio enterrando garras nos meus tímpanos
Dos olhos injetados deste garçom que serve
Sabendo que todos sentem o que
Acredito ser muito mais exclusivamente meu agora, mas que nunca
Foi ao menos nosso
E saio tomando a calçada de assalto
Vago, gastando sapato e tristeza
Cansado de música instrumental
E cansado de palavras, das minhas
Apoiado em fazedoras do trottoir
E em pedestres-pedintes
(será que eles entendem o que digo?)
Por que
Me levas, portanto, a
Um impasse numa encruzilhada e me perguntas
Toca pra onde?
Estático olho o fundo dos olhos deles antes de mandá-los
Ao inferno, as perguntas falharam
Ao apagar dos postes
E ao acender dos apitos do vigia
Respostas foram menos bem-sucedidas
E se saíram pior porque se fizeram
Mais urgentes atropelando precipitando
O que aconteceria mais naturalmente de outra forma
E se espero que
O trôpego de sempre me pare pedindo fumo
Para ele não há mágoa represada
É tudo simples ali com a franqueza prometida um dia
Me deixar abater (melhor?) ao fim do dia
como as folhas de aço
Que fecham as portas do samba
Que eu quis fazer, mas nem isso consegui
Nesse dia que quer saber de mim e me depara
Com o que não quero ver
Sem medo e sem vergonha uma pena me invade
Pelo que fiz e não me arrependo
Mas deixa um rastro sangrento
Deixei de receber notícias deste mundo que me completa
Quando me afasto a pé pensando
Se não fora melhor não me enfiar por estes caminhos
Como se houvesse volta
Deste samba que me largou aqui

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Ontem me pararam na rua
Horda de evangélicos a serviço sabe-se lá de quem
O seu destino é seu ou deus o controla
Uma velhinha crente que podia me dar aula de existencialismo
Se deus é onisciente não há livre-arbítrio
Ensina meu amigo
Agnóstico de todas as horas
Cansado de doutrinas
E palavras soltas para efeitos desejados
A palavra se basta e vale por si
Foi o que eu disse firme para aqueles desocupados
Maledicentes do que posso

Há um poema em cada gota de sangue que derramo

Fria seca que me arranha quando me aproximo
A luz goteja dos poros da presença e tomba
Verde
a meus pés
Corrompi o verso e entortei
A rima
Quando me deixam passar retribuo
com um sorriso amarelo e saboroso
Para mim pelo menos
Unhas que me arranhavam por dentro desistiram
Há muito interromperam a marcha
Vermelhas esbravejaram transpirando
transbordo de felicidade
E interromperam a marcha
lúgubre cinzenta com trombetas ao fundo
Todos o relinchos ressoam e
Com bramidos afugentam o que restou de mim
Estátua corcunda de por aí tombada
Manequim vencido
No qual moldo mais nada
E que com olhos tristes me fita e consome
Gosto da língua do sonho de si
Cujo gosto consumo por inteiro almejado
Gosto das pálpebras cobertas por uma camada espessa
de cobertura negra ao redor
O rosto radiante porque claro e frio
Quase distante demais, mas mais que a lua
Porque a esta toco sempre e àquele afago nunca
As mãos longas perifrásticas do corpo
Da palavra quando não escrita
E quando escrita, para mim
ou não, exulto
Ou não, reajo enfim
Quero tudo o que não tenho como as mãos que não são minhas
E o sorriso a que almejo
Aquele que transborda recusa em cada ato
Premente de aceitação como os cavalos loucos
de nietzche são que
Corre(m) sem saber porquê
Mal-traduzir o que há dentro é versejar
Porque não-traduzi-lo é versificar
E uma anti-ode qualquer destas esquinas soltas e inexistentes
Vale mais que a epopéia sonhada
Dos meus dias aflorando mal-traduzidos,
Más traduções, mas traduzidos
Assim de estalo quando vejo-lhe os dentes
Ou a boca semi-cerrada contraída quase contra-feita
Ao redor dos quais orbito
em não-rota de colisão e sem perda,
com ganho na verdade, de energia
E de vontade escritora
Não sei se agradeço, pois isso me constrange,
Ou se saio correndo sem olhar para trás

Ao invés do inverso do verso no inverno protesto

Acordei do que era feito no que será ainda
Aquele cigarro e aquela calçada me dizem isso
Quando chamam minha atenção
Pedindo para que eu escreva sobre eles
Acordei do que era feito como alguém que mergulha
Ao contrário, da água pulando na terra
Na que será ainda construída encima da carcaça
Das antigas
Aquela nuvem e o mofo nos livros me disseram
Isso uma vez e agora me dizem
Que tenho pouco a perder e menos ainda a ganhar
Hoje pois caí no que será ainda
Embora nem os ventos do que escrevo nem
Minha jaqueta caindo aos pedaços
Nem meu isqueiro moribundo agonizante
Possam me dizer que eu posso recuperar algo por aqui
E só porque eu perdi nada ainda

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Quilômetros à frente

Quando ele disse pra ela o amor é iconoclasta
Ela riu
Quando ele disse pra ela é assim o que sinto
Ela sorriu retorquiu
Você não sabe o que diz
Sei
Desde aquele olhar e desde aquele sorriso...
Ela corta a frase ao meio
E posso ver que você varia bem pouco os temas também
Teve por resposta a calma (enternecida?) frase
Ambos são a metonímia do que me move
E por conseguinte do que escrevo
Você pensa o mundo só em termos de figuras de linguagem
Metáfora no caso
Ou seria catacrese?
E você só pensa o mundo em termos de egolatria
É claro por que será que você ainda está por aqui?
Incrível isso mas sabia que os strokes nem sempre estavam certos?
Ao ver a tristeza (fingida?) dele ela complementa
Deu pra ver que eu não falei sério né?
Ironia não é bem o seu melhor
Sorri zombeteiro
Mais uma figura e eu vou embora
E o tal verso do tal poeta famoso na minha mão
Vai ficar inacabado
E o que eu tive a te dizer foi sério um dia
Até que dia?
Até você por tudo a perder com tentativas de evasão e dispersão
Não é o amor que é iconoclasta é o jeito
Como o levamos a cabo
Incredulidade o pasma
Triunfo a eletrocuta
Levamos? Você usou mesmo a primeira do plural
Ou foi silepse de número?
Ela sorriu calada a isso
Mas com barulhos de riso
O que sempre confunde bastante os dois

domingo, 15 de novembro de 2009

Há três horas ouviam Glenn Miller e repetiam pensamentos.

Mas o amor não compreende esses cálculos e esses raciocínios próprios da fraqueza humana
Cinco Minutos - José de Alencar


To die by your side is such a heavenly way to die
There's a light that never goes out - The Smiths

Ela frustrada com o que não conseguiram; ele ansioso, com medo de não conseguir repetir o que passaram e que valera a pena. Sentados num banco meio arruinado qualquer em algum lugar inominado porque desimportante discutem. Um prédio verde abacate ao fundo e cachoeiras tímidas de folhas e outros detritos vegetais. Não há perguntas de culpas e responsabilidades e os esforços são esparsos, falham em descrever direito o que têm. Os dois já estavam ligeiramente bêbados porque levavam ali uma tarde e um começo de noite. Nada já era o mesmo, ele mudara e ela continuara bem pouco como era. Apoiados no banco (da direita para a esquerda): chaves de casa, do carro, maço de cigarros e isqueiro, bolsa, papéis amarfanhados manchados de algo indefinível. E se afeição pode vir, e neste caso viera, assimétrica, a padronização imposta pela rotina roubara isso. Quando ela lançou o conteúdo do cálice de vinho ao rosto dele despertaram.
- Tudo que você fala tem cheiro de dissertação, não dá pra ser menos racional uma vez na vida?
Ele tira um lenço do bolso e tenta limpar a camisa antes impecavelmente posta para dentro da calça. Seca também os óculos e parte do rosto.
- E agora de onde veio isso, foi gratuito?
- O que mais me irrita em você é o que me agradava antes
- Antes quando?
- Na primeira vez que te vi naquele bar, você me chamou atenção porque era o único que prestava atenção a nada a não ser ao seu chope. Não estava ali por mulheres ou por fumaça ou por jogo
Na primeira vez que a vira naquele bar, quando ela sentara a seu lado usando a justificativa ancestral mais óbvia para se aproximar: pedir fogo, a convidara para dançar. Ele que não dançava, tinha topado ali aos poucos com uma cumplicidade que tinha certeza que romperia as amarras que o contigenciavam, que moldavam quem ele era, por isso dançara. E por isso, uma troca, ainda morna, mas já prevendo mais intensidade, de olhares, que não se cruzaram diretamente, a princípio, mas que depois permeou toda a noite, deu frutos.
Os rugidos das cigarras fazem com que ele entenda pouco do que ela está dizendo
- E como isso te permite jogar vinho na minha cara?
- Tudo em você me exaspera hoje
Culpar a quem se ela exasperava até a ela mesma hoje em dia? Não era lá tão difícil projetar frustrações num relacionamento dito disfuncional, quando na verdade restavam pouquíssimas coisas que a agradavam e ele não sabia se ainda era uma delas.
- Isso não te desculpa
- Não quero que me desculpe
- E quer o quê?
- E você quer o quê arrastando essa nossa relação como se ela já fosse moribunda? O problema é que a sua camisa é de um bege neutro demais, isso me irrita; demonstra sua compulsão por racionalizar tudo sem nunca chegar ao extremo de nada. É difícil acordar do seu lado e não pensar nas muitas manias a que você se submete para começar o dia
Um grupo adolescente passa com garrafas de dois litros de refrigerante e dá risadas do boné de um, ou do tênis. Comentam sobre as garotas que devem vir. Sobre a vodca que compraram. Sobre como a melhor tática com qualquer garota é sempre fazê-la beber mais que o homem. Um deles apanha uma cigarra em pleno ar e acha que arrancar-lhe asas vai fazê-la conter os bramidos. Todos riem dos contorcionismos do inseto menos um deles. Este sai sob as gargalhadas dos companheiros que prontamente o rotularam viadinho.
Ajeita os óculos ao lembrar que nunca mais vira um sorriso daqueles amplos que ela costumava empregar às vezes em situações especiais e o que era ainda mais especial, em situações corriqueiras.
- Você me conheceu assim e quer que eu mude?
- Não, só quero que você se arrisque mais, goste mais e odeie mais as coisas. Comprei um presente que espero que você goste. Mais ousado, a princípio pode destoar um pouco de você, mas quando se acostumar vai ficar lindo.
- O que é?
- Tenta adivinhar
- Me diz logo!
- Vai ficar sem saber então
- Tudo bem
Em um apartamento próximo, talvez naquele com grades cercando um terço do pilotis, começa a tocar Cartola. A música mais clichê na opinião dela, a mais bonita na opinião dele soa muito alta vinda de um apartamento. As rosas não falam.
- Como pelo visto você não vai mudar mesmo, eu vou tomar um café ali na entrequadra e depois a gente conversa mais
-Você está errada em achar que sou eu que devo mudar se na verdade os erros aqui são todos seus
- Que merda, é claro que não. Por que seriam?
- Todas as presunções feitas aqui se fundam numa premissa errada
- Fala direito, meu deus do céu
- Você vem acreditando que nenhum de nós mudou ao longo destes tempos e que o que te atraiu em mim agora não te agrada. A verdade é que os dois mudamos. Aprendemos muito sim um com o outro, mas não negue que algo aqui nos sufoca e eu diria que é a imobilidade, não das minhas manias, mas dos hábitos que consolidamos e chamamos de rotina. Não há lá muita saída a partir porque já construímos uma vida juntos, concorda?
- Não
- ...
- Você que não está se adaptando à situação e quer fugir alegando estar tolhido pela rotina
- Não quero fugir de nada, estou dizendo que não há muito a ser feito e a isto me resigno
- Espera um minuto aqui, vou no carro rapidinho
E passa cinco cigarros contemplando a semi-praça deserta, o poste intermitente, o transeunte apressado, preocupado com o avançado da hora, o campinho de areia para se jogar futebol transformado subrepticiamente em mato e as pessoas tremeluzindo à luz das janelas.
- Era presente de Natal, mas eu preciso que você se disponha agora a mudar, então adianto o presente
Uma caixa de papelão cor de vinho com filigranas douradas que ele pensa ser de charutos - leve demais para sê-lo - que quando aberta exala um perfume represado há muito tempo. Cheiro de flor amarga porque agradável, afável porque lilás. O interior branco do papelão contrasta com as listras escuras dos suspensórios.
- E aí? Gostou?
- Gostei muito, vai ser muito útil para segurar minhas calças
- Ironia não me apraz
- Eu sei
- E ainda assim continua fazendo
- Prometo que não fui irônico e que gostei do presente
- Que bom, então
- Gostei platonicamente, não sou pessoa de usar suspensórios
- Isso mesmo, quero fazer uma revolução com você
- Por que quer tanto me mudar? Pensa antes em me e nos entender
- Desisto
Expressão de ignorância no rosto dele e de raiva súbita no rosto dela.
- Agora vou mesmo comprar café ali na entrequadra, me espera aqui. Quer alguma coisa?
- Quero nada, não
Ela frustrada aderna para sul, rumo à satisfação de um vício que não era mais ele; ele intrigado com as motivações para o presente de que não gostara aderna para leste, para tomar um apartamento inédito e se livrar do que o prende agora. Cada um egoísta no seu modo de lidar com outro, cuja afeição não se esvaíra por completo, mas que a erosão da convivência tornara quase insuportável compartilhar.

sábado, 14 de novembro de 2009

Não sei

Um caderninho de poesia para escrever o evangelho em
Pôr o rascunho do mundo e
Das farpas inteiriças em mim,
porque nenhuma doutrina sangrenta
Foi capaz de fazê-lo como o que escrevo é capaz

Todos os rascunhos são um só
E se inéditos contribuem

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Maçãs carameladas

Caí de pelo menos vinte metros de altura e ainda não aterrissei. A culpa é de quem deixou a porta aberta sem aviso e remorsos; uma geleira não se aproxima porque está parada desenhando a linha do horizonte com a boca aberta esperando -e como não entregou antes se o prazo estava fixado há três semanas?- A velocidade está estável e embora bem rápido, consigo ver cada janela e dentro, A secretária mordendo o lápis, A pizza fria com queijo endurecido, Os suspensórios que registro mal porque o dono está de costas, O tapa e o beijo, O cigarro cuja bituca me atinge o olho, A barba por fazer sendo feita e farpas de gelo se incrustam na minha pele mal-iluminada seca em perene queda - e por que não entregou antes se o prazo estivera fixado até então?- E começo a ter fome porque será que um comedor compulsivo continua comendo se não há perspectiva de satisfação? A fome é perpétua como o sono, pois a não previsão de saciar leva ao consumo reiterado de ambos. Já vi essa secretária, mas agora ela está de suspensórios comendo a pizza, mão me admira ser tão gorda e seu olhar lascivo me assustar e me fazer querer acabar com tudo, não entreguei e caí, o que é o que tenho por enquanto.

O porquê das justificativas presumidas

Alguma coisa mudou e não foram as cercas
Que se deterioraram
Nem os pássaros que se apropriaram do abandono
Do que fui
Tolo seria imaginar que a esta revoada pernóstica
Condescendente retinindo em ecos de mim
Juntou-se uma assembléia de objetos-testemunha
(sobrancelhas franzidas
escovas de dente
papéis amarelados por exposição prolongada a lirismo
sarcasmos de toda safra
abraços
ingressos e notas fiscais
sorriso eventual &
cigarro corriqueiro)
Para assistir ruína e renascimento
Ereção dos disjuntores do que sou
Sem substituir sem cair ou levantar a chave-geral
Evito fricção entre o então e o agora porque
Já sabendo que existe um atrito entre eles que vem
Vai sem mais e faz o retorno
Entre placas de sinalização em algum lugar que desconheço ainda
Prefiro iludir a estática aceitando o que os dois
Me oferecerem

Evito querer recair na tentação de pensar
Nas cordas, finas como fios, que me atam a tudo
Um tipo de panteísmo ateu me diz para negá-las
E mesmo
Saber que estão ali indiscerníveis é não poder me desvencilhar
É um tipo de armadilha a que qualquer um
Está sujeito, isto de ligações
Perenes ou não, indissolúveis
Amarram o que fui e o que sou
Num todo pouco conciso nada uno
Ao que quero e ao que posso e serei em breve

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Saudação a gladiadores

Escrevo em pé esta poesia concebida olhando em teus olhos
Olhando meio de lado, um pouco inapropriado
Jeito de gerar versos
Se é que há um apropriado
Verso extraído de por entre as dobras ínfimas
de um sorriso contraído a que almejo, e se
contra-feito contradiz o que digo
Sobre poesia ou qualquer outra coisa
Verso sentado no que construímos e que
Acena para ser escrito em breve
Em meio a tormentas, tufões
de aturdimento dentro dos quais
Exulto por ignorar um rumo
tufões de não saber lidar com o que veio
Com o que vem e com o que me depara
O agora em que ajo ou não
Ao sabor do que espontaneamente traçamos

Escrevo em pé para que não fuja a inspiração
Para amarrar cada momento em mim
Fugaz porque de um momento fugaz
Prendo a respiração para lembrar
De, quando esquecer, escrever
Everlasting daze from a glimpse
Seguro firme por ter me marcado
E lançado minha poesia a um vértice
digno de Pound
Que me abstenho de julgar vicioso ou virtuoso
Ou digno sequer de nota
(like that)
Everlasting bewilderment from a mocking
(non-seductive, non-calm affection)
Smile
Indelével como uma queimadura antiga
Espero que incurável.

Trago aos poucos infatigável
Uma fumaça renovada
Que sei que é antiga sem nunca ter provado
Sei também que cada poetastro destas esquinas nulas
Já provou e gostou dos influxos
E por isso se denominava
Mas a minha é diferente porque
Não sei nomear e não sei qual é o gosto
Meu reino por mãos que apontam meus defeitos
Meu sangue por apontá-los sem mais em uma pessoa
Atirá-los e rabiscá-los
Com medo de errar e deitar a perder
O rascunho daquilo que mais me motiva.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Saturnália anelar para Saturnino

May the circle remain unbroken
13th floor elevators


Toco um planeta com os dedos
De dentro sai uma sinfonia dissonante
-Liszt se arrepiaria-
Desabotôo sua camisa e o olho de frente
Desabrochando algo que ele guarda
Para mim

Pessoas em árvores é
O que guarda em cavidades
Abro-as sem pensar porque quero descobrir
Se e por que e quando foi
Que a poesia subversa
Tomou conta
de mim
De si e de todos os que pretenderam
Ampará-las entre as juntas,
articulações dos sentidos

Infimamente ligadas à torta maneira
De tocar com dedos rijos escleróticos um
Planeta à espera

(e suas)

Pequenas gavetas que não sei
se existem suportam todo o
Conteúdo do que escrevo

Quando colherdes entre os dedos o dia podre de ontem

Quando pressabi que sentia e
Queri o que haveu
Fiquei sem saída
Por sentir o que queria
sem saber se era meu

Por enquanto já dizia
Se naquilo que esqueceu
Há derrota relativa
Já sem choro resumia
O que tampouco se perdeu

Minhas dúvidas e erros nas pontas dos
Dedos chamuscadas cheirando a cigarro
Me dizem cala-te,
Ainda não é a hora chegada

sábado, 7 de novembro de 2009

Ode ao café

Sono mortal oprime
com rolos descomunais
Poesia que guardo em mim
E em relatos esparsos
Cumpre evitar dormir
Para que não comprima o que sinto
Em horas exíguas de
Que me lembro bem pouco
Mais do que retenho
Do dia.

Terrarrasada (versão da Lucrécia)

Enquanto a terra povoada
Por monstros incendeia sem mais
Razão, a não ser se ver terminada,
Fumaça entorna cinzas viscerais.
Em chamas vagueiam ainda, tortos,
Em busca da última cartada
a que justifique tudo e todos
os atos e desmandos
Assinados pelos alicates que temos por mãos,
mais se contradizem que nos organizam.
Terra jamais regada de orientação, agora
revive, de labaredas que chamuscam
os últimos empecilhos
e os rastros de inspiração -
sempre falha de frear progressos,
agora palha que espalha o fogo
que, espera-se, trará o novo.

Terrarrasada (versão do Hugo com ajudas da Lucrécia)

Enquanto a terra povoada
Por monstros incendeia sem mais
Razão, a não ser se ver terminada,
Fumaça entorna cinzas viscerais.
Em chamas vagueiam ainda, tortos,
Em busca da última cartada
a que justifique tudo o de antes e todos
os atos e desmandos
Assinados pelos alicates que temos por mãos
de lançachamas a exterminar
Uns insetos que há muito
Habitam sob nossa pele
Vísceras entornam cinzas fumacentas
A fumigar por cada poro o
Que torna impuro com o que vivemos

Prestidigitação

Routine was the theme.
Sleight of hand - Pearl Jam



Vi que em um futuro próximo
As dúvidas não escorrerão em cascatas de teus olhos
Porque a certeza de aqui
É
Mais presente como um quarto com
Um corpo morto dentro
Saber que em tudo há nada
Com que se preocupar
Apenas com manter
espontaneamente tentando
O que já atingido quer apenas
Conservar seu lugar


Tendo suas fundações sido lançadas
Ao léu e sem querer
Por isso mesmo mais firmes
Difícil que se desfaçam
Ainda que  pouco objetivo e propósito
Se tenha posto nisto

O futuro, próxima esfinge, me depara
Com uma pergunta
Me pede uma senha
Uma pergunta para seguir caminho
e que hesito em responder
Não por ignorar a resposta
Mas pela pouca vontade em fazê-lo
E assim traduzir o que quero
Quero o que já há
Por tudo o que já me traz
e instiga por enquanto
Sem garantias

Recolham os cadáveres de cavalos marinhos do meio da rua

[...] if they were the Lost Generation what would you call us?
[...] the Last Generation?
Charles Bukowski - The Last Generation

O sorriso é bonito contido a um canto do rosto
Com a faca dos olhos
Disseca pelas metades o que penso
Destrincha o que penso e o que sinto
(e o que penso que sinto)
(e o que sinto que penso)
Perto de mim, não o suficiente
À minha frente, não ao meu
lado como deveria ser
Quase um xadrez: tudo bem
ansiado
Me diz verdades, entre elas
as que não quero ouvir
E tomando sorvete me
joga na cara motivos e anseios
novos/velhos, alguns convenientemente esquecidos
Outros importunamente lembrados
Sobre os quais divirjo
Disparo sempre atrás
Do que move o coração
E a tintassangue no papel
O sorriso é bonito contido a um canto do rosto
Me lança dúvidas como dardos
Dizendo-me o contrário
Do contrário
Do contrário
Do que achei que deveria dizer
E já é um indício que não me é
Dado revelar porque
Não sei de
quê, pois me fico
Perguntando de onde
e para onde vamos
Não sou você, formiga, para diferenciar
Os caminhos bons dos maus pelo cheiro apenas
De onde viemos
Para onde vamos
Hoje e daqui a milênios
Revelações e sinceridades são pedrinhas
Que se não chutarmos atingem um
Olho e cegam
São imprescindíveis em vidas
Estes momentos a sós
Seja comigo e
Que seja contigo

Absorto abstraio os abismos
Tentando tatear sem saber o que realmente procuro
Por aqui, não perdido
Mas crendo ter achado

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Vinte e duas semanas depois

carlos acredita em deus
manuel acredita em maldoséculo
oswald acredita em carros e cocaína no coquetel
tarsila acredita que vai assustá-lo com um monstro descomunal
murilo acredita em dogmas e doutrinas
mário acredita em seu país sem caráter
jorge acredita em colagem
menotti e graça acreditam em apadrinhamento
monteiro acredita que anita é paranóica
por acreditar em mistificação
plínio acredita em antas como ele
vinícius acredita em sexo tentando
convencer cecília, ela acredita em amor
à terra à história à infância
villa-lobos de sandálias acredita em barroco caipira
e em tocar de ressaca
ronald acredita em leitura batráquia
guilherme acredita que o grego é melhor que o nosso
a burguesia acredita neles,
mesmo sem entender, acredita piamente
marinetti acredita em fuoco
opposé à
fuoco, nesses casos imprevistos mais incontroláveis

Todos acreditam que Guiomar Novais traiu

O acrobata anseia

Todo poliglota é mau patriota
Eça de Queiroz


Fiz um pedido óbvio
Como aqueles que ouvi no rádio
Sem amendoim
Jazo portanto estendido
estirado na vertical entre
Duas mesas de madeira gasta
Olhando as luzes amarelas esmaecidas
E as moscas a circundá-las
À espreita desejosas de cópula
Vultos ao longe impregnam cheiros em mim
Que não sinto nada a não ser o
Aperto no peito e o princípio
Da falta de ar que depois
provaríamos ser
imaginativa apenas
As pontas de meus dedos estão brancas
Como se substituídas por próteses
(Só reparei agora)
em como
Com chicotadas de pano de prato
o dono
(avental barbudo suor)
espanta curiosidades de
moscas e clientes transeuntes
Deixem-no respirar

Devolve o anel do moço, exorta cortante
E quem paga a conta?

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Smells like victory

Ouvindo Crosstown Traffic
Enquando comia gelatina (roxa)
Vi um gato radical se contorcer
E toquei tua mão

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Fiacre

Não conseguimos nenhum fiacre que nos trouxesse, como não caminharíamos de jeito nenhum dissemos ao pretinho recém comprado que nos levasse à rua do ouvidor em suas costas, uma de cada vez para não parecer deselegantes, pena que não havia mais pretinhos por ali. Meu marido teve de dar-lhes uma boa sova ao chegarmos em casa por eles terem jogado a fortunata numa poça de lama gritando não sou burro de carga pra carregar tamanho peso. Como não tinha para onde ir, acabou voltando a nossa casa, onde o punimos exemplarmente, mas de leve porque é também uma criaturinha de deus.

Égloga Joyceana/Schülleriana

Poema estruturado/versificado por Luísa Leite Santos de Freitas


A mais vistosa violeta
velada
da vila, cuja vida visito
vigilante,
pois vinga, viceja vitrificada
entre dois instantes vívidos.
Vi vindo a mim

 vítima
de vinte vis poemas vilíngües .
Virados em vitrines

viscosas
de um sentimento vago,
 visto que vasto, vaporoso,
visto que vital para a sobrevivência de si.

Un linceul n'a pas de poche

Lágrimas são cascatas da terra
de ninguém cuja sombra recusa
terminantemente projetar um cé
u na pele dos estrangeiros que n
ão creêm numa divindade cega a
dvinda às vezes de uma esfera q
ue paira sobre o toldo excrescente
montado em dois segundos sobre a
torre do jardim dos nenúfares branco
s que o alferes sandeu rega quando está
de mal-humor acamado por doença grav
e nas articulações inferior esquerda espec
ular e inferior direita perifrástica diatópica
da sessão a boroeste dos ventos arrasan
tes das costas de gaivotas roucas de ba
rracas flácidas acres cujas lágrimas são

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Banalidades

Hasteio sem prestar atenção
Certos monumentos em ruínas
Que brotam de minha pele
Enquanto os restos de calcário e
Argamassa me soterram
Sob uma sinfonia de crash-test dummies on parade

Minhas pálpebras não fecham
Porque a retina branca lacrimosa as impede
E sou obrigado a contemplar
Cada queda e subida do camaleão
Mais abjeto, estilhaços as ferem
Porque indefesas

Para controlar meu tremor devo
Saber de onde vem o que me
Alveja
Devo também saber o que é
E do que é feito
O que nem sempre é a mesma coisa

Corvéia

Trouxe um presente da rua
Flores, sentimental demais
Ursinho de pelúcia, pior ainda
Livro, clichê demais
Bonbons, formiga demais
-até porque existe aquele armário infindável-

Me acometeu uma dúvida
Sobre objetivos:
Não soube identificar quais eram e ainda assim
Comprei, melhor roubei
Arranquei sem piedade de uma parede contígua
Ao compartimento que não controlo

Sim e não espero que gostes
Só veja que, por motivos que prefiro não aventar,
Lembrei não da fobia
Mas da dona desta

Seu presente estava lá
Plástico grudado em teias de mentira
Quero-o aceito sem mais
Antes de saberes o que é

Mão morta

Hoje ouvi uma música que, por trás dos
Clichês mais batidos,
Deixava entrever sem dificuldade o que sinto

Cada um que preze por sua Poesia e pela
Fiel transcrição da mesma em poemas
E canções

Pois uma vez escritas não retornam
À mão original
Sendo negado direito de ampla defesa

Das intenções e dos sentidos ali
Explícitos para uns
Subretícios para outros

Pensei e pensei e
Falei, discordei, mas
Não acertei em
trazer
À tona o que me aturde.
Fica incompleto o sentido do que escrevi até agora
Sem consolidar os efêmeros efeitos almejados
Duradouros

domingo, 1 de novembro de 2009

Bestiário medieval

O que vejo contrasta com
O que sinto em contraste com o que sei
Tolhem um caminho por intimidar as possibilidades
Moldadas nos silêncios acabrunhantes
Forjadas nos recessos de uma relação
Que vinga.

Contrapostos ao que quero, ao que espectral
paira sobre tudo
E que subjacente moveria tudo
Ter ou não ter uma iniciativa para manter
espontaneidade

Uma cachoeira que é sabido que guarda
Uma caverna por trás e que tentar alcançar
Seria perjúrio

Um véu mantém léguas de distância
Podem falar brigar espernear com o outro
Para fulminá-lo ou não
Será que realmente se atingem?

Severed Hand

Este truque é dificílimo e nunca tentado no brasil. Se prepara tirando o fraque, alinhando a gravata borboleta. A cartola na mão esquerda impõe um fraseado complexo acompanhado por quase duas dezenas de olhinhos atentos. Um pai consciencioso comenta com o outro. Mágica tem a ver com enganar o interlocutor, políticos e pastores de igrejas evangélicas são muito mais mágicos que esta barba mal-feita que me cobra oitenta reais a hora, sem direito a assistente bonita.Para manter a ordem pede-se aos cardíacos, às grávidas sensibilizadas e àqueles que sofram de distúrbios de personalidade que deixem o recinto. Os adultos deixam as crianças no salão mal-iluminado e fumacento e vão para o lado de fora fumar, conchavar, falar mal dos que não estão. Envergonhado por já ter gasto tudo. Pombas em cartas em lenços amarrados em coelhos em gaiolas. Lança ao recurso menos óbvio ainda que clássico a derradeira chance de manutenção de sua reputação ante aquele exército em miniatura. Os piores críticos porque fazem o que os críticos adultos querem. Gritam, choram e falam mal sem remorsos por não conseguir produzir algo semelhante. Crianças, agora é a hora de vocês participarem do espetáculo. Deixa primeiro eu tirar essa luvas e limpar a mesa de operações. Tenho correntes extra-fortes aqui. Vou deitar sobre a mesa e você terão a chance de me prender a ela como quiserem, usando estas correntes. Depois que acabarem eu terei um minuto para me desvencilhar.
Os pais entram no salão, querem participar.

sábado, 31 de outubro de 2009

Demanda do santo

Tema, seja ele qual for, fornecido por Isabella Carrazza






Café, sangue preto que escorre de minhas muralhas
Me fazendo aquiescer
Às pontes levadiças


Doze manequins como cavaleiros
Guardam a porta com óleo fervente escuro


Um deles, Lancelote, me trairá por trinta moedas
Tomo cuidado para que
Escudos por pratos não escondam
O amor que ele sente por Guinevere


Gawain, ó mais puro, a quem foi dado beber d'
A taça
Mata os bufões e os domadores
E poderei dormir em paz


Enjaulai javalis jocosos


Um deles, Lancelote, virará monge
Pela traição impingida


Pelas barbas de Merlin e Morgana!
Envelheço a olhos vistos
Em justas e torneios, ordálio
Fático com erros de pontuação

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Skull full of maggots

Acordou à uma e a tarde gastara ouvindo cannibal corpse. Faltar o trabalho talvez fosse a única coisa aproveitável que um deus legou aos humanos. Fora à casa dos pais buscar a caixa de papelão já mole e gasto com os gibis marvel. A garrafa de vinho de cinco reais completava a diversão adolescente. O dia sem noivo, sem pensar em contas, única preocupação era não esquecer de ir àquele escritório no centro comprar o atestado. Nada revoltava ainda, quis só reviver momentos do passado, pena que as amigas preferiram ter que ir trabalhar.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

A quién lo leyere

Os vinte minutos cabisbaixos mudos
Contigo absorta, ar de culpada
Como que remoendo algo
Que quer me dizer, mas não sabe como
Me pergunto se o erro foi meu
E é uma represália silenciosa
Meu castigo é ser ignorado estando a menos de meio metro de ti?
Distância considerável que você se empenha em ampliar
Por favor, briguemos, gritemos
Por arranhões e objetos atirados
Fulminemos um ao outro com o olhar
Discutamos intelectualmente se quiser
Qualquer coisa
Mas não se abstraia mais assim de e em minha presença
Pois temi por mim,
Por nós,
Por todos
Que atacasses pela inação
De propósito ou não
O que tenho de seguro, o que instável
Me motiva

Longe de mim querer imprimir o ritmo de tua poesia
A tudo o que faço
Me vi sem saída
Sem
Escassa iluminação quanto ao que fazer

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Eu sou a morsa

Abri os olhos e ignorava a abrangência dos efeitos dos meus atos. Ignorava também que estava vivo, abri os olhos, contudo, e vi a luz mais intensa: o sol mais ubíquo e feio me fez inalar sua presença pela primeira vez em algum tempo, saturando a atmosfera próxima pendularmente; ora aquiescendo, ora recrudescendo. Me perturbavam essas oscilações. Pressentia que no final me marcariam indeléveis; reconheci por fim minha animação suspensa e a ela não respondi, conquanto não me angustiasse este fato. Intuí que teria de esperar, buscava então, sem muito sucesso e sem perceber, a transição entre dois hiatos - sabia que ao ruidoso borrão escuro seguira-se o sufocante silêncio do borrão claro, não sabia tecer o que ligasse os dois. Conectava sem dúvida os momentos pertencentes a cada um e não conseguia distingui-los na massa compacta e aleatória; dois dialeticamente unidos estágios orbitavam indiscerníveis em torno da uma coisa de que tinha consciência: a dor que docemente constrangia não preocupava em absoluto, quase como a volúpia da vertigem. Aos poucos foi se esgueirando um renitente som de brusca freada. Pervadindo minhas elocubrações , não sobrepujou, é claro, a lasciva asfixia, foi obtendo, não obstante, gradual proeminência; pungente cruzado timpânico. Já não estava tão absorto e começava a saber de algo de minha condição de agora, um frio cortante perpassou meu corpo imenso submergido em luminosidade como o alvo crivado de facas com a garota amarrada e bonita. O resumo da fase dois era três sensações, dor, frio e som de freada brusca. Não lembro se a fase um resultara em duas ou três sensações, lembro do vento e lembro que sentira outras sensações. O conhecimento dos próprios estágios, portanto, era precário. Da articulação entre eles, mais ainda.
Vislumbro sombras e as pareio fora de ordem, pois manejo habilmente o que vem à tona: selecionando, suturando e abarcando; seguindo ditames que me vêm na hora. Esta noite eu, como o filho pródigo, lembrei de mais coisas. Pequenos alfinetes que alguém cravou em meu cérebro e esqueceu de tirar. Os olhos abertos nunca me permitiram enxergar, é, portanto, útil entregar-me a exercícios de imaginação: Uma jaqueta de couro com um cheiro que sei que é marcante sem me lembrar de qual é. Um isqueiro, um sorriso que não lembro se é meu ou de outros. A mulher com o chapéu acenou para mim, ou estaria esbravejando? um fragmento de poesia e me aventuro no cone de luz futuro, lembro bem ter declamado este num café por aí solto. Hoje senti que tocavam minha pele com dedos de borracha menos frios do que o ambiente. A pressão deles me fez vir um pouco outra vez.  Onde me apalparam é melhor não perguntar porque não sei. Continuo ignorando onde estou, embebido em claridade. Consigo abrir e fechar os olhos já a meu bel-prazer, o que não traz lá grande diferença. É claro e pouco úmido, me sinto permanecendo num quarto que entupiram de travesseiros: Tudo é branco com cheiro de talco e não posso me mexer, o que me impede não são correias e sim algo fofo e por isso mais difícil de enganar/escapar. O zumbido já identifiquei, foi como apanhar moscas, aos punhados, com as mãos, é de moto, não sei qual ainda, mas tenho a impressão de que já pude identificar os modelos pelos zumbidos dos motores. Moto potente com o zumbido esmaecendo ao fundo, talvez junto com o pôr-do-sol mesmo. Se bem que isso já seria clichê demais, só faltaria aquele cigarro do caubói para completar.
Percebi o toque de um retângulo que desconfiei ser uma bandeja pressionando minhas pernas e tinha a impressão de estar sentado. A lateralidade veio hoje também - por um instante soube que o zunido agudo de um ventiladoraspiradordepórespiradorartificial estava apenas de um lado da minha cabeça e não de outro. Um trem que senti vir descontrolado na direção do meu lado, esquerdo ou direito não importa, e que senti que não ia parar tão cedo, o sabia longe ao menos por enquanto. Tato, experimentei tato também. O tato de identificar pressão sobre a pele eu sempre tive consciência de ter preservado, agora aflora o tato de sentir dor e sentir texturas. Toquei num lapso de tempo que julguei curto um líquido duro que sabia não espesso, Áspero. Sala ampla como um deserto, sei que seu teto existe, mas sei também que está à distância da ionosfera: Tudo é branco os bancos estão lá, abusam, e são brancos os bueiros e letreiros luminosos também são, sei que existem porque esbarro e me contundo e se abro os olhos e fecho quando quero isso se dá a um preço. Se me é dado ouvir um zumbido, por mais contínuo que seja há um preço também a ser pago que desconfio que descobrirei em breve qual seja
Hora vaga vem tudo desaba ao redor de mim, me vejo escorregando em algo poroso que rasga minhas roupas por quilômetros e quilômetros e isso não é infindável. Sinto um baque e retorno à escuridão branca. Saber que estou imóvel estirado em algum lugar me revolta bem pouco, aquiesço rapidamente retornando à lânguida calidez do que penso conhecer. Uma revelação me acomete quando deixo de girar como naqueles brinquedos de parques de diversão baratos, a cegueira não me impediu de constatar que eu sou a morsa, estirado de barriga para cima em algum lugar frio e luminoso do universo, não fui gordo, mas pressinto a gordura caindo pelos lados da rocha que me escora durante meu banho de sol, o qual me cega ainda que abra veementemente os olhos.
Hoje obtive dos deuses permissão para abrir a boca, o que apenas trouxe um hálito externo gélido cheirando a aparelhos metálicos e que não me reavivou o mais mínimo. Senti minha boca expelir nada, tanto antes quanto depois desta aquisição do ambiente, minhas presas se fincaram no ar e perfurando-o extraíram uns resquícios do que já me ganhara minha plena atenção. não conseguiria mais me desvencilhar da mistura clorofórmio, aço inoxidável, gelo seco: Um Dry Martini que supunha verde com uma coisa vermelha encostada no fundo da taça. O sol rodopiava acima de mim no mínimo três vezes por dia, pois a boca que eu abrira já não pudera fechar por nada, ruminava a bebida que ele, como bom iniciador de vícios, me oferecia de graça, descobri ter dedos de um lado do corpo, dedos que apalparam a mesma superfície aquoso rígida de sempre.
Metal sendo esfregado contra asfalto ao longo de um período quase longo cheiro de gasolina e churrasco de morsa se eu fosse escritor e portanto mais presunçoso ególatra acreditaria ser um inca que foge dos espanhóis, senti pontadas no braço e sono como se estivesse há tanto tempo querendo fazer a viagem que minhas peripécias para consegui-lo fossem a viagem em si. Um vulto me assustou muito ao passar pertíssimo da minha boca, tenho motivos para crer que é um daqueles tentilhões que limpam os dentes das criaturas costeiras e com isso conseguem comida, uma dor do lado me fez me perguntar se meu corpo, já pesadíssimo, não está sobre o braço, sinto que esmago algo que me incomoda;
iraq body count e continuava bêbado e continuava de cabeça para baixo tentando entender se o mundo são correntes quebrá-las todas é destrui-lo. O último cigarro apagado não é mais especial porque não nos é dado saber ser ele o último ou o primeiro de um maço longínquo porque interminável e tinha uma moto e tinha uma namorada capaz de se ruborizar - O sexo era bom e as máquinas melhor ainda de cujos fluidos bebi não me lembro quando se tive capacidade de me ruborizar ou a velocidade me arrepiava demais que eu acabava não prestando atenção a coisa alguma. A lembrar-me da mão fria e alongada que toquei pela primeira vez sem olhar nos olhos e do metal frio incandescentemente alongado sob minhas pernas, a rugir obscenidades aos que ousavam cruzar seu caminho porque hoje a morsa sabe não saber onde está nem porque de estar onde sei que ligado a tubos estou. Talvez esteja morto, mesmo que isso contradiga o que já disse, e tenham instalado esta lâmpada especialmente potente no meu esquife, o que pode indicar que estou vivo a desandar em elocubrações que me trazem à memória cascatas de vidro a fluir de meus olhos prestes a morrer; e Quisera Estar Morto sim, para que um último pensamento tivesse sido sobre os seios acolhedores abrigos noturno diurno por vezes da namorada ruborizada.
Estive estirado a um sol que me acolheu e me trouxe aonde agora jazo lembrando desprotegido da lua que me obriga a fazê-lo

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Cidade Imaginária

Tremulam hasteadas bandeiras
De por onde
Passaram vários passos perdidos
Que se encontram
Aqui

Os prédios são novos
cheiros de carpete
Que ardem nos pulmões
-também novos-
Dos habitantes

Barracas de aço de dois por dois metros
Com catre e buraco
No chão

O ruído ao longe é de hélices
De moinhos e pás nos rios
Afugentou todos os pássaros

Árvores, esparsas, com folhas alternam com
Postes e árvores de plástico e crepom
Estofando um horizonte dito mítico por uns
Insosso por outros e até mesmo
Sangrento alguns

Postes sem fiação aparente
E calçadas limpas de fezes de cachorros
e de mendigos

As garagens são basculantes parindo
seus vermes - esteiras a rolar
Infinito afora

Exilou-se o pássaro eventual
A larva, a mosca, o elefante
E o útero
Em prol dos relógios,
Mais pontuais, corretos e cordiais com as pessoas

O próximo passo será implantar
Estes relógios no lugar
Dos pulsos dos jovens habitantes

A tentativa relativamente bem-sucedida
De trocar por um deles
Um cerebelo
Alenta os  pesquisadores
Desacredita os críticos

Não, não há naves flutuantes
Carros tampouco
As ruas estão vazias
E nem o vento se ouve

domingo, 25 de outubro de 2009

Para que duetos de golpes perfeitamente ajustados não virem tercetos bárbaros sangrentos

...god who'd wanna be such an asshole?
Bukowski - Modest Mouse


Me assustas com essas sombras do passado
Que cruzam o caminho seu
Que era para ser nosso

Se almejamos ao mesmo
Por que os momentos awkward
Em que duvido de mim

Evaporam a confiança
Em minha poesia e em tudo?
Não quero (ou quero?!)

Saber de muitos vultos vindos do nada
Me apraz bem pouco
Se usamos franqueza

A quero a um extremo que me diga
Por que vamos
Na direção em que vamos

E se há a possibilidade
De a primeira do plural
Virar

Primeira do singular
Ou terceira do plural assim
Sem mais

Por causa dele
Trazedor
De dias de dúvida

Sobre nós e
Nossas
Reviravoltadas Poesias

Quando me cego quanto
a dificuldades
Me vem tudo isso encima

Desmoronando, esboroando
Nem que seja em imaginação apenas
O que vim construindo

Há coisas que procuro saber
Mas não quero encontrar
Tais como

Respostas que me assustam
Reações que não prevejo
Ações que invento

Ações que julgo terem acontecido
Por ser de reações lento
Respondo ao que não sei se é

Pode ter mudado nada
E daí?
Hallo, control freak

Man overboard

Há um farol que não vejo
Mas sei que está
Não creiam nos que dizem tê-lo visto
O facho de luz é indiscernível nesta névoa
Que encobre a costa
E põe a perder tantas fragatas

O ruído da lanterna girando oscila
Entre estibordo
E bombordo
Sabemo-nos muito perto
Das torres dos totens
Pontos esparsos ao longe:
Fogueiras

Rochas pontiagudas mordem
Os cascos com vontade
O vento a enfunar as velas
A embalar as naves
A crispar as vagas
Derruba tudo
No fervente caldo espumoso
De que não escaparemos

Alfil ataca (la revancha)

Mãos de pianista sobre teclas invisíveis
Desenham a partitura do que é
Ser, como eu,
Besouros que espatifam
Contra luminárias
Essas mãos regentes a urdir,
Em suma,
A orquestra desafinada do que sinto
Metais afiados contra cordas
Que enforcam o do oboé
Em nome
Por ordem
Das mãos de pianista

Quando minhas quiálteras
Saem tortas
Se não consigo atingir certas notas
Porque entro no contra-pé
Da valsa
É porque estou sendo
Manipulado
Digitais nas teclas não me enganam

sábado, 24 de outubro de 2009

Desafio dos sete minutos

Bolhas na bile
Sobem e flutuam
Como os pensamentos sobre alguém
Onipresentes
Quebram a tensão superficial
Ao atingir o topo

A espuma quer me dizer algo
Que não entendo
Mas sei que é amargo
E o líquido transborda
Em confissões ínfimas
Desmente todo o resto

Façamos assim:
Eu pago essa cerveja e ficamos quites quanto ao almoço

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Fin de Siècle

A poesia é a forma de traçar
Na areia deste deserto em que vivo
Teu nome, as infinitas vezes
Que o que sinto me obrigar

É como disfarço,
Remetendo aos poucos
O que retém minha atenção

O dia sem os olhos da poesia se arrasta
Enquanto escrevo/escondo
O grito
A ecoar nestas páginas, em
Meus ossos e em tudo o que faço

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Haicai-palestra

Um perfil, de longe,
O lado esquerdo contemplo,
Pois a quero perto

terça-feira, 20 de outubro de 2009

A culpa (pt. III)

Sai do bar aparentando indiferença. Afinal fora com indiferença que ele tivera o desplante de começar a imaginar coisas sobre eles dois. Aquela metáfora selara a falta de interesse dele por ela, então era hora de deixar de se esforçar desta forma por algo que a ela já não aprazia e não interessava muito. Fora interessante no começo indagar até onde tudo aquilo levaria. A descoberta e a identificação. Eram poetas, mas passou a haver algo mais a uni-los, ou era o que ela achava. Nunca se considerara e não queria ser o pilar disto tudo. Mas sabia agora que a ausência de empenho, com que agora se propunha a tratar isto tudo, traria a ruína. Estaria distante para dar a ele a chance de provar que a merece. Dissipando assim aquela aura unilateral a que ele hoje submetera a situação. Se fosse somente para depender dela e de sua admiração pela poesia dele, estariam agora fadados ao afastamento, à frustração no mínimo. Ganha a calçada e se põe a caminhar a esmo. Passa pela pracinha perto daquela loja onde comprara uma camisa para ele. Aquele banco quebrado perto do poste intermitente já fora deles, já trocaram muita poesia ali, sussurando-as. Ou será que o banco fora dela apenas? Senta-se. Não naquele, mas em outro banco. Compra pipoca. Se dedica a alimentar pombos.  O sol às portas da morte, prestes a se pôr. Babás recolhem, com olhar displicente, os carrinhos e as crianças. Um homem senta-se a seu lado. Oferece um cigarro. Quer puxar assunto. Ela se nega. Tudo o que menos quer é ouvir falar em um deus agora. Ainda mais de um deus a quem ela tem que pagar para acreditar. Usar oferta de cigarro para se introduzir uma tentativa de conversão foi golpe baixo demais. Levanta-se, planeja voltar ao apartamento. Quem sabe qual foi a reação dele depois da conversa? Terá feito as malas? Estará à sua espera de joelhos, com um maço de flores silvestres, as únicas que consegue roubar da frente do palácio municipal, na mão, suplicando para que tentem tudo outra vez? Toma uma rua que sabe que não vai dar no prédio. Quer demorar a chegar. Pensa em queimar todas as poesias, as suas e as dadas por ele. A razão estava com ela, nunca o idolatrara em demasia. Seus comentários eram polidos, pouco efusivos ainda que reconhecesse que eram freqüentes. Ele por outro lado mostrava-se pouco interessado em qualquer coisa ligada a ela. Achara sempre que era por seu caráter reservado. Até que veio à tona, ele estava nessa porque se sentia bem, endeusado pelos comentários dela. Ele não se propunha a retribuir. Entra em um restaurante para pedir um café. Lembra do vídeo do Depeche Mode, aquele com o carro a andar em marcha à ré e o motorista, com a cabeça coberta, não pode fazer nada. Talvez descreva bem a situação porque talvez nada vá mudar, ainda que ela tente. Desiste do café e pede um conhaque. Tira um bloquinho da bolsa, sempre o tivera ali preparado para estes casos. Põe-se a escrever graficorragicamente. Com uma fúria que os gregos atribuiriam à força dos oráculos. Não necessariamente sobre o que estava vivendo ou sobre o que queria que acontecesse. Escreve e se resigna a fazê-lo. Mais um conhaque, por favor. Já trago. É um poema porque está em versos. O mais longo que já fizera. Paga a conta. Vai para casa com a impressão de que o poema, muito longo e muito confessional, está inacabado. Concisão nunca fora o forte de nenhum dos dois, eram poetas, em suma. Chega a sua rua ruminando decisões que deveria ter tomado para que soubesse lidar com o que vem justo agora. Cumprimenta o dono daquela loja de vinhos ao lado da entrada de seu prédio, compra um jornal e sobe.