segunda-feira, 1 de março de 2010


se eu te digo te amo 
que te baste por ora 
sem remoer o passado
os rios erraram o percurso

o moinho quebrou
Só gira adiante, agora

her divine shadow

flutua ressoa paira
reverbera afasta colide
tangencia

translúcida atravessa minhas pálpebras
habita minha retina
ia te chamar de louco se não se achasse melhor que ele, que estranho isso porque eu sonhei ou pensei que eu falaria isso pra alguém
não sou melhor que ele, se eu fosse ele não teria o que eu quero
se ele for pior é porque ela não te mereceu mesmo
não é por isso, o amor tem meandros inexplorados e que ninguém que visitou descreve e alguém sempre sonha que vai dizer algo, nunca se sabe qual é o lado certo do espelho, se é o que o sonha ou o que sonhado retribui
as pessoas têm preferências misteriosas também, preferem névoa sempre
prefiro a luz da lua projetando versos em um rosto
mármore sangue. prédios em ruínas tudo o que percorro são escombros
prefiro o sol e o vento que cortam a respiração em dois sua voz petrificada em silêncios me perfurar
impregnados por um cheiro transparente elevamos no ar o que trouxe as pessoas aqui
o amor é a solução por não ser o alvo. solução para problemas que, não sendo nossos, atingem pessoas que ignoramos que nos ignoram e são mais felizes por isso.

arestas de cotidiano/ à undécima hora

acho que levei uma multa outro dia
comprei os cigarros mas não tinha isqueiro
não deixa cair o violão
eu te espero
preciso subir e buscar o ingresso
não era um pássaro era uma borboleta grande
pára aqui
ficou parecendo o willie caolho
é rápido já volto pode esperar ali
olha a lua
por que você derramou
ele tem sido arrogante em relação a mim
sob impressão de estar tendo recaídas em relação a ela
prefiro frio não precisa desligar
busca lá
abaixa o volume
passos na noite calçada vazia
vou de escada
prazer
meu batom acabou
será que precisa comprar gelo
ela morava num edifício chamado marcel proust
é uma questão de epistemologia comparada
esse não precisa de receita médica
vontade de tomar sorvete
o que foi esse barulho
imagina não há de que
quem lembrou de trazer copos
a cada amanhecer seu olhos comigo
não conseguiria não caindo do décimo quinto andar
retalhos das vozes
restos dos gestos
crateras
ecos falsos nas paredes

olheiras marcas de pneu asfalto em mim

não acabo de desacostumar
seu rosto ao meu

domingo, 28 de fevereiro de 2010

curva de rio

,mas matei errado
apunhalei a sombra
que não desistiu de mim

começando a insistir
a chuva arrasta sobras
as portas trancadas
não sei por que você faz isso
consigo mesma e com as árvores
gravar na pele na casca
na casca das nuvens
com pontas das facas

cachorro qualquer
numa tarde esquecida
as portas trancadas
recusam uma vida o copo virou
a sede secou
por que você fez isso
os pombos de concreto
silhuetas abstratas cujos olhos preveêm chuva
a te desabrigar desse espaço aberto
como absortas testemunhas

a dor que carrego
sem começo é por você
sinto frio em mim é
o vento que balança seu cabelo
te embala em um sono em que você sonha com carros velozes

quando os gatos vêm lamber suas feridas
secar uma lágrima que ficou pendurada

sábado, 27 de fevereiro de 2010

in the grand scheme of themes
Jeff Ament

tem tempo que não te vejo
que minha mão na sua não promete que 
meu sorriso reflete o seu

repete o que eu te disse quando você foi?
mente que seus dedos estão ao alcance
ao telefone 
sua voz sincera tem gosto
de postes mal-apagados na noite feita

mas eu sei desconfio
já ouço seus passos no corredor
reclamando que não fui buscar

pensei confesso e recrio

nenhum foi maior que nós juntos
meu rosto na sua foto
canaliza os trilhos que separam
o céu que compartilhamos
um sol que é mais seu
na janela nossa que olha para fora
espia a rua pra ver se é você
tirando as malas do taxi

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Se sua vista não permitir, eu recito
quando a velhice disser já chega
de promessas fechem as cortinas
sobre os olhos esbranquiçados
eu seguro sua mão sinto seu pulso
contra o meu vir e se espatifar
no meio do verso
cacos de palavras afiados
incrustados na conversa cotidiana
jogam milho sentados num banco
de praça os pombos gostam disso
se sua vista não permitir as palavras
te trago a cidade em braille
as pessoas em alto-relevo na carne-viva
do ar-concreto
flutuam disseminam um sentido
ao avesso que só tem gosto
se sua vista não permitir

já devia saber que os poemas
também precisam deitar e esquecer
olhai como parece uma asa que viesse de longe
Jorge de Lima

um homem bate à porta quer voltar
quer buscar o gato que esqueceu aqui 
quem abre esqueceu o olhar a um canto
ela sorri de órbitas vazias
sabe que há noite ao fundo pelo
calor das fogueiras
o chapéu e o cheiro de verniz na madeira
são uma infância súbita sob as asas
de um retorno de um toque imprevisto 
na escuridão, a prataria ronrona
devolve à sala a revoada de fantasmas
que entra com o homem
tira o chapéu aceita o chá outra vez
ela cruza as pernas e demonstra interesse
a rua se calou
só a lua tem algo a dizer
as multidões nas calçadas vazias
mal-iluminadas andam atravessam
o homem faz menção de sair
esclarecendo por que voltou
por que deve ir embora o asfalto esfriou
as cercas ao redor desenham um labirinto
e sem poder contemplar o teto
as infiltrações os abajures desmemoriados
a ela só cabe deitar
o branco dos lençóis é igual ao dos olhos
que perdeu e ao homem
a ela só cabe sair
as ruas não são mais habitadas que
os sonhos que tem sob a pele

perder uma memória que encontrou num baú
genética mente
se aqueles dois de mãos dadas soubessem
que as vírgulas são um desperdício
que sem escolher não estariam ali
não colocariam culpas

geneticamente
traçou um mapa nas linhas das mãos
nas veias dos olhos

avenidas por onde perdem

caminham cegos por uma cidade
só se orientam nas sombras que
projetam um no outro
rios que desaguam em desmaios apressados
de
embates de dedos em carícias

Me pediram para me auto-biografar e não consegui.



A tomada da consciência do dever poético foi simultânea ao encontro com a palavra. Ela ali diante de mim e ao esbarrar eu soube de uma vez, o dever do poeta não é para consigo ou para com outros ou para com os sentimentos do mundo; é um trabalho de edificação dos escombros de si mesmo e de sua realidade por meio do contato com as palavras, sendo estas não apenas a luva por meio da qual toco o que  me circunda e circunda outros e sim a silhueta mesma das coisas. Há um compromisso implícito em cada poema, desde o primeiro canto da Ilíada, desvendar a proporção entre tudo e nada, entre um pássaro e um poste, um motor e uma ninfa, um deserto em coma e um rio de súplicas através do sistema taxonômico da língua, que, mesmo adquirida, é anterior à experiência, às formas, ao pulso, aos suspiros, às oscilações e aos gestos - o poeta é o material da palavra.
O divã e a escada são muros a ser demolidos com a caneta e os dedos trêmulos.
a estrada silencia atroz entre sombras
estátuas guilhotinadas pelo vento
espantam pássaros que pousam nos ombros

este carro morreu o deserto o apunhalou
discursivamente
é um ponto
uma quantidade discreta de vontades
que rola pelo vazio;
o espaço entre o pneu e o asfalto

pane e pânico entre quem viu
o vento varrer a poeira
à beira da vertigem

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Trombei com a sua presença dentro daquilo que desaprendi
não vou mais abrir livros

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Lâmpada e papel

as pegadas que apago
um sinal de fumaça ao longe
habito entre um e outro

hesito

Amanhã troco de corpo
o corpo me troca comigo
como quem muda de roupa de pele de planta
meus braços indecisos pendurados num varal
ao som de um vento
pássaros pousam em palestra
antes de nascer articulo dentro do meu ventre
poeira de planos
traças nos mapas
nas fronteiras
escadas que levam a lugar nenhum
e a sótãos vazios em que piso em cacos de vidro
meus olhos se espalham abatidos
na velhice precoce espelham
as perguntas que me farão pedindo uma senha
para me deixar
se meus ex-dentes marcarem o asfalto
seu olhar já veio marcando os sulcos em meu rosto
como chuva em enxurrada de
dedos rígidos que desafinarão
são teclas velhas não seguram mais um martelo uma caneta
o espelho racha
o chão absorveu cotidiano uma lágrima

contém todos os amanheceres
os resume a uma linha vital em um monitor descontínuo

domingo, 21 de fevereiro de 2010

a Ju ajudou.

Talvez seja isso
Aquilo surgiu do nada e escureceu o céu a ponto de não conseguir ver outras costas outros faróis
É uma boa alternativa sim


barco de papel
barricada contra a natureza corrente das coisas
as velas dissolvem
o sabor do vento dos meus naufrágios
coerente é lançar a âncora
embora sempre à deriva
e às marés sucumbir
nasço com o sol
fui dormir no berço do dia
nem os passos apressados
ecoando me perdoam/acordam
gente apaixonada e furiosa sinto
um sol que nasce sob minha pele
eu durmo
sonho que durmo sonhando
que escrevo que durmo
sob um cobertor-constelação
de luas logo acima da minha pele
orbita
olhos e gestos ao meu redor
são estrelas cadentes
rasgando abrindo crateras no meu sorriso
(meteoritos/)tijolos da civilização que fundarei
nasço com o sol morro com o dia
meu grito primal é seu fôlego de começo
recém nascidos de olhos arregalados
o meio-fio vai embora escorre
como o seu olhar
me persegue delineando
a cidade que sinto
quase um tango
suas pernas em minha direção
ocupam a faixa das ambulâncias/atropelando
a língua que eu vou inventar
a palavra que eu vou inventar
para a sua presença iminente/atordoando/ensurdece
só vejo bocas alheias movendo
e a sua imóvel dublando por cima do estrondo

sábado, 20 de fevereiro de 2010

O rastro das nuvens
os carros no eixão
os gritos sob a noite que
esconde olhares
murmuram um rosto
sussurram um nome

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

não sei como começar este poema
a fileira de carros relincha ao me redor esperando o semáforo
abrir para poderem me atropelar
enfileirados o barulho dos motores esconde
por trás da pressa, xingam eu sei
não deveria estar aqui
todo mundo disse que não podia ser bom vir aqui
é um jeito fácil de ganhar dinheiro

rezando pela ausência de vento
pássaros e crianças atravessando a toda velocidade
pela ausência de um motoboy que avance o sinal
arruine tudo

não sei começar, tiro as facas do bolso
e começo

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

bem-me-quer

em cada nascer do sol que perdi
resumido neste
a promessa, um sorriso antigo de volta

em cada pôr
do sol
um céu que vai
a luz que falta
para completar meu corpo
caminhos que trombam não deixam marcas
seu olhar que afasta lentamente é uma trilha de gaivotas extraviadas

demole quem sou
fratura o que quero

pulveriza as mariposas ao redor da luminária
da noite passada em claro
em vão
que vão, perguntas sem respostas

trovejam versos que respingam
confundo com lágrimas com risadas

violão perde as cordas vocais
cinzeiro transborda
inunda
saio logo de manhã

ver o mundo-berro-de-recém-nascido
sem saber o que você me depara

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

À Ju, agradeço a inspiração renovada.

as mãos trêmulas de café
os braços firmes
o cigarro no canto da boca
carregam a ilusão em caixas
os sentimentos dentro de contêineres mal lacrados
transbordando naufrágios que não são seus
mas que obrigatoriamente devem ser escritos
levados em segurança
espatifa as próprias caixas para ver de longe
quebra um abajur holandês
que encalhou ali há mais de sessenta anos
e só quer o que não alcança
o que é miragem e que não é seu
nunca será
as pessoas no mar de concreto
e os barcos que trazem o material
à escrivaninha do estivador
Para a Júlia e os bêbados com quem ela esbarra.

estivador nunca esteve no mar
ele só tem como parar e olhar
quando está livre de cargas

aspira ao sal dos espaços abertos
por estar confinado a obrigações
prendem a terra seu passo
hesitante em largar os fardos
e morrer afogado
se atirando à vida que tanto quer

só espreita o que passa diante dele
ignorado suportando um mundo que
se não tomar para si ninguém quererá

aspira o sol da vida dos outros
iluminar um trabalho
mais só que os outros que, sós, admiram de longe

o estivador no porto das palavras
recebe e carrega o que todo o resto enviou
frustra enviar nunca,
por ninguém querer ler o que carrega

o que transformou com as mãos
outros esmagam com os pés
pisam sem querer quando passeiam por ali

o porto é um jardim impróprio de flores resignadas
por onde ninguém devia passear
e o estivador fica ali

ameaçador

recolhido à insignificância particular
ao valor íntimo de todos os escombros que vieram
encalhar em seus braços-caneta

seus escritos
carga apócrifa

O menino-bolha

flutua insondável pelo céu que pergunta
e oprime esmagando com nuvens

flutua dentro da bolha por cima das cabeças
não encosta nem em si mesmo
esmaga o ar em torno
amortece tudo que atinja
querendo evitar contato

flutua a favor do vento
afastando as presenças da sua
vai desviando
vai ziguezagueando
para seguir incólume intacto insosso
inerte no fundo do céu que é um rio
que é uma banheira
que encheu para si mesmo
e em que entra sozinho

à deriva como este verso no poema

não olha nos olhos
de outras bolhas

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

traduzir poesia alheia
se não consigo escrever meus dedos
e minha língua

o chão em que piso é instável
sem referências a placas
e a outras indicações

traduzir vida alheia
e sentimentos que outros tiveram
não está ao alcance das escolhas
da caneta e do papel

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Poema numa parede de prisão

"O nome do órfão era ismael
nome expulso quando começou a rabiscar nas paredes
do dormitório do orfanato frases que nunca aprendera a ler
sem saber o que era spray o que era tinta
só segurava firme ao ser posto na rua
o lápis de que a professora dali com sorte não daria pela falta
e se desse pela falta com sorte
não tomaria as ruas procurando o ladrãozinho
a esta altura já sem camisa
descalço com as bermudas rasgadas
há uma semana sem dormir
dormindo sob a proteção das árvores escassas
só preocupado em tatuar a cidade
e a retina dos passantes

sua primeira aparição pública foi ousada
na praça do palácio do governo municipal
recobriu um banco
'esses versos são os órgãos da cidade
arrancá-los é condená-la ao coma induzido'
nem os policiais que vieram revistar
encontrando-o nos arredores ainda inexperientes de si
depois da surra que aplicaram
entenderam a frase, mas era depredar patrimônio
e depredar patrimônio é depredar patrimônio

ninguém viu ismael
ninguém cheirou ou sentiu sua presença
ninguém sabia seu nome até começar a assinar
quando começaram a apagá-lo
com cuidado retocava cada verso pendurado
em lugares a que ninguém prestaria atenção
até esbarrar com as letras
claras como um anúncio
elas mesmas um anúncio

as putas que o conheciam de vista diziam que era ele
que escrevia nas portas de banheiros
seu local de trabalho
ele negava

'a nuvem observa o erro de cada um
e obriga o trânsito a serpentear
por rotas inesperadas'
era um poeta comum
supostamente só era melhor
publicitário que outros
estendia uma corda bamba entre prédios
para poetizar as marquises
aos poucos a atitude se disseminou
já não era a mesma coisa os versos eram piores
sabiam não ter jorrado do mesmo lápis
roubado da instituição correcional

os mendigos vagabundos andarilhos diziam
que era ele que escrevia nos para-choques de caminhão
paisagens da janela do seu local de trabalho
ele negava

o garoto não alcançava as janelas
um caixote de feira era o suporte dos versos
começaram a espionar
a querer saber por que um
'cuide da vida de suas palavras'
despertava tanta atenção no resto do mundo
era um vândalo disfarçado de quintana diziam
começava a suscitar algo
o acreditavam oposição

'se você me vê em todos os lugares é porque
também é onipresente' ele era trivial,
fruto do sistema
escritor apócrifo de si mesmo, se dizia
a propor opiniões de cima, minando as bases
do que o fazia desconfiar

o surpreenderam e o espancaram
numa armadilha em prol da ordem pública
ele que já não comia chegou a sentir mais fome
ele que já não precisava existir fora de sombras
foi fichado e fotografado
'a respiração no compasso de um erro
as mãos trêmulas deixam cair em silêncio um lápis
nesta calçada imunda inundada de tristezas'

a parede de sua cela é um mapa
desenhado não com o lápis
com a colher que outros usariam para marcar
os dias que faltam para sair dali
mapa que indica tanto veias entupidas
olhos esclerosados pernas amputadas
quanto a futilidade em tentar resumir
em palavras um amontoado de concreto

sua pele já se acostumou a escrever
versos em hematomas
na superfície do que foi o hematoma bonito da cidade"

sábado, 13 de fevereiro de 2010

veio um vento e me virou do avesso
as pessoas passam e olham meus ossos
um circo já me anuncia
pássaros devoram minhas vísceras
escancaram o que tenho por dentro
do que me é interno

versos que ao contrário gritam
esperneam contra o que me ensurdece
fazem uma passeata
protestam buzinam apitam
estão à mostra e não querem o que há
buscam pássaros que rumem
para onde devo seguir
seja só
ou em paralelo a você

quero que uma presença
incorpórea que de vez em quando se materializa
me/
se/
nos decida
sem desculpas
a pedir ou dar

longe/perto
negligência/overdose
poesia/briga
jazz/rock
seu corpo não ocupa duas posições em mim

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

uma vela muito tímida
na escuridão devora palavras
seus dentes flácidos rasgam e roem e rompem
rabisca num céu de cegos
a caligrafia do que não pôde dizer
a cabeça treme de frio
indaga a indecisão das pernas

muito fraca indolente desafia
as dores do parto
e as dores de engolir
primeiro mergulho de batiscafo
a rua é o tempo que demoro para enxergá-la
o tempo memória dos dedos
pulsando cego em cada palmo de asfalto cru
na aspereza da pele
no calor da pele cega
pele-atrito que simultânea erode
e me completa

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Coerência







quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

são dois que andam em calçadas separadas
estreita a calçada estreitos eles mesmos
ensimesmados querem saber sem olhar para a rua
o porquê das árvores e dos carros estarem delineados pelas montanhas ao fundo
e estas pelo céu que não acaba, mais ao fundo ainda,
atravessam as ruas transversais sem prestar atenção
trombam com cada pessoa levando cachorro e com cada caixa do correio
já pisaram em mais de um pé
foram atropelados por mais de uma porta súbita
seguem absortos cada um sobre um trilho na mesma direção ignorando
presenças mútuas perguntas que compartilham
resmungos que provavelmente serão recíprocos se confrontados

são dois que dividem um rumo que não é um destino
querendo o mesmo sem esforço para conseguir
nenhuma pessoa vai dizer que soube ou que quis saber
mas eles se encontram
lá no final da avenida
como um encontro marcado desde sempre
um surge com ar meio ressabiado sem saber a quem se dirigir
tem que esperar o outro perguntar
ah, você também veio
é mesmo, que coincidência, não sabia que você gostava de andar por aqui
pois é, vim pensando nessas coisas de sempre
e seguiriam não sei se pela mesma calçada,
pelo meio da rua
ou em em calçadas diferentes

pensaram no mesmo
quiseram o mesmo
se encontraram no labirinto da cidade
se encontraram no labirinto de si mesmos
nos intervalos de cada um, na brecha que cada um
soube aproveitar só porque não tinha planejado fazer isso
caminharam pelas artérias um do outro desde já
ignorando ou fingindo
é melhor não deixar transparecer
vai que o outro percebe
o que há por dentro dos gestos por trás das palavras
aí não tem mais graça, é melhor manter sem saber
e ficar na sombra da dúvida
vai que se encontram por ali

quase todo mundo sabia:
os prédios previram
os carros a toda velocidade mentem, eles também previram
as coisas enfileiradas, que são a forma da cidade:
postes
canos
fios
anseios
represas
amanheceres
caminhões
poças de água
mendigos sob marquises;
a imensa fila que a cidade é previu -
se corriam paralelos na mesma direção
se perguntavam o porquê da cidade e da vida serem assim
se se encontraram, como quaisquer paralelas, num infinito
que é o âmbito dos pensamentos disfarçados de palavras
não importando a timidez narcisista de um
ou a ambição recalcada do outro
ou se quererão se ver quaisquer outras vezes
naquela convergência do esgoto de onde vivem
esgoto/vísceras/entranhas/sangue&pus ali desemboca tudo
o que corre desplanejado pelas ruas -
a colisão era visível a curto prazo

como um jazz modal
sem harmonia mirando um alvo bem longe
um jazz mortal/o saxofonista é um atirador cego
de facas cegas que só perfuram os órgãos
deixam intacta a pele das intenções que os juntaram
um uivo bem longe que cruza a rua
avança o sinal muda o sentido do que há até ali
naquele ponto final depois do desvio
perto da ponte que ninguém usa mais

sob andaimes e ao longo de entradas do metrô
antes de esbarrar já se perderam sem aviso
sem pânico para não dar mostras
não precisar parar para pedir informações

são dois que andam
um pelos olhos do outro

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

um espelho me dizia
se você não é daqui, eu tampouco fui
vim de fora
te encontrei na estrada
o que me impeça/
o âmago que queira atingir
você não tem

quero aqui e que agora como sempre
para mim
você assim
como quem acabo de conhecer
sem mais

Gloria Lewis

o teto desmoronando sobre a porta aberta
única saída em segundos
vou sem ansiedade
sem saber que tenho tido de fazer uma escolha
a porta na verdade é bifurcação
provei o sabor de um sorriso
tinha gosto de brisa
, de algo que não identifiquei

seu labirinto com paredes azuis
suas mãos de encostar
o céu do meu rosto ao chão da sua boca
depois das palavras nas caixas
dos sorrisos em garrafas vazias
você me espera no carro
alheia aos rugidos na rua
a gente chama nossa música
de conversa de elevador
meias palavras e toques inteiros
me perdi e te encontrei
perdida sabendo o caminho
por entre destroços

domingo, 7 de fevereiro de 2010

O dia com sua ligação
fez algum sentido, me tirou da penumbra

prédios altos dia quente
telefone gritando
pessoas em silêncio

ponho Jimi Hendrix
e espero a hora de te ver
A cabeça se esforçando
contendo impulso de ligar

de pulsos em pulsos
deixar de pensar
cortar tudo

sábado, 6 de fevereiro de 2010

o mundo codificado

quando o horizonte começa a mudar de cor
o vento perturba os sacos de lixo os mendigos as árvores
rabisco infiltrações na parede
jorro versos que corroem o que me delimita
o sorriso o olhar que me contigencia e define
por inércia escrevo você
o que nos separou já doeu
um céu que não é mais meu
que não mais persigo
vomita estrelas engole lâmpadas
que escurecem meus erros contigo
esclarecem: anestesia é negligência
estou debruçado numa janela
olha espreita esperando
uma resposta que una
todos os medos em um
todos os medos em mim
jurando ser mais eficaz que o resto em fazê-los desaparecer
não te troquei por nada
desejo runs high na contra-mão das vontades
não te troquei por algo
na verdade, substituí a mim.

quando o horizonte começar
terei partido
o meu fim é por aqui

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

você é vírgula fora de lugar
adultera meus sentidos
refaz meus significados.

A alma imortal.

o mundo passava diante dos seus olhos, mas eles se mantinham voltados para dentro
para um mundo que ela imaginou de muitos
sendo mais seu que de outros

olhava para si e para seus anseios
sem perceber que do outro lado o espelho também observa
aconselha a ouvidos surdos
olhar para fora
ou para dentro
é nada diferente visto de fora

tudo são projetos que ela realiza se quiser, tudo é uma ótica
uma visão por dentro de algo
de dentro ou de fora

o mundo passa diante dos olhos dela
mas seus olhos são um mar azul
de sonhos diante de um mundo que não sabe o que oferece
mas sabe o que oferece a ele

sem hesitar
olhando firme
com um sorriso no canto da boca
um sorriso de quem descobriu engrenagens
que quer superar.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

eu sou uma lágrima que quero evitar
fileira de pérolas na forma de um sorriso de um colar
de gotas de orvalho na grama da pele

Para alguém.

, Sorriso solar irônico
com as mãos agitadas orbitando ao redor,
queria que suas intenções fossem imagens:
você ali projetando o futuro
com uns materiais estranhos de sonhos e planos.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Erupções.

O céu é meu papel
moldo nas nuvens minha caligrafia
o azul pergunta: desalinha o que escrevo a cada linha contigo

meus dedos inábeis apagam
do teu rosto a cada acrobacia da fumaça
algumas demonstrações
monte de garranchos brancos
ossos do céu fraturados trovejando
sobre nossas escolhas

Dudeísmo

westwards the wagons
into bewilderment

papéis
foto na carteira
são poeira: meu deserto sob as vísceras da cidade
sobre tudo o que deixo

sem meus cigarros
sem causa
enfim só

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

se minhas mãos sangrassem
com meus olhos fixos num ponto que está tão longe que não enxergo
eu  saberia que essa brisa é você ao meu redor
e o mundo não seria um labirinto de nuvens negras indiscernível.

se os pássaros empoleirados na linha do horizonte enxergassem a minha deriva
as casas que destruí dos titãs que insultei
esquecendo
do resto e de que há um resto
eles me rosnariam
o mundo não é este ponto tão longe
e o ponto não é este mundo tão longe
que nunca atingiria
nem se meus pés descalços soubessem o caminho.
sou uma cascata
sobre meus próprios desmoronamentos
você me disse que minha tristeza
só é mais ela debaixo do tapete

eu só sou mais eu sob a pele da minha
poesia
que esmaga
e amarga me deixa deixar de pensar.

domingo, 31 de janeiro de 2010

Virgílio & Beatriz

Seus lábios são o rio de cuja profundeza insondada quero me encharcar
dizer sim à correnteza e suas súplicas e seus apelos à razão/
ceder à vertigem do abismo, que sempre leva ao ponto of no return, minhas escolhas
alea jacta est/quero entrar e morar no seu sorriso/sentir o sabor úmido de suas respostas à minha pergunta elementar
sempre volto ao lençol da água: tranqüilo na superfície/ mundo que se debate em fúria por dentro revolto
um escafandro para minha poesia
rio vermelho de batalhas sangrentas e volúpias mal disfarçadas
não sou só mais um cadáver às suas margens
Seu olhar em cada caso declinação categoria
é a tempestade das minhas águas de cabeça para baixo
afunda os barcos na areia movediça do que anseio.

Teorema

Por que será que a vida são provas?
se o que quero provar
não está nos livros

o coração da donzela
a cabeça do dragão
não são um código, uma fórmula

são os dedos plangentes do bardo
sobre o sabor indecente da lira indigente

sábado, 30 de janeiro de 2010

All over.

uma garota numa das salas/me instigou mas era miragem trêmula
eu no corredor, absorto
mexe na bolsa à cata de objetos que não a definem
leio octavio paz
de onde estou só vejo um resto de pernas/ela já veio e sei que é bonita
ou não me vê ou finge bem, seus olhos me driblam
tem esse ar de quem quando espera espera andando de um lado a outro
tenho escrito com o sono embalado pelo vai e vem das pernas que não encostam no chão
arruma o cabelo algumas vezes/troca de posição na cadeira
agora vejo melhor seu rosto que é uma colagem das minhas palavras
e vice-versa
em algum lugar alguém liga uma música que dá urgência a estas palavras ao imobilizar as ações
a porta é a moldura de seu olhar quando encosta no meu
quando sai sua presença tropeça no mundo que não é mais confinamento
se afasta sem saber
os seus passos são a medida do que o papel recusou.

ensaio um discurso para quando ela sair
planejo um concurso para a pressa dela disfarçada de ansiedade se confundir com minha preguiça
os sapatos não fazem nenhum barulho quando pegam a avenida do corredor
ou não percebi ou fingi que não percebi
e foi miragem mesmo escorrendo pelo ralo do dia
fica o poema
fica o retrato das pernas indecisas oscilando
ficam as pegadas dos olhos que trombaram em mim
e os passos tendendo a infinito
que já é um modo, obviamente imperfeito, de tê-la havido.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

seja marginal seja herói

Um pilotis de aguardo
dos anseios
gavetas escancaradas vomitam papéis em branco
é o silêncio camisadeforça
maquiagem do arlequim que escorre pela caneta e inunda os quartos de onde estamos - eu e umas memórias que fogem
é o silêncio domador de ímpetos de tigres de legiões de tigres na noite sabendo
sentindo o gosto e tendo o gosto
de cada passo que seja em vão
e que as alternativas são avenida truncada de um labirinto
o edifício de não agir flutua
no precipício de não escolher flutua
na luz trêmula da manhã ainda indecisa
quanto ao princípio de calar e manter
vasos quebrados ruínas de si mais-valendo que por seu conteúdo
contém o
silêncio que é a certeza de ter dúvida
e a parede dos limites do que deveria ser feito

Argumento ornitológico II

Não tenho escrito sem antes observar os pássaros, a aleatoriedade deles é arbitrária como a minha presença diante do papel e da caneta. Eles são e sabem que são, sem perguntar sem pedir a alguém que o autorizem, sem pedir a si mesmos sequer. Uma escrita na corda bamba dos galhos ao som do vento, tudo ali é perigo e eles inconscientes, eles apenas fazendo. Ignorância é uma benção diz o filme, melhor ainda é a ignorância que me deixa fazer o que quero sem parar e pensar, sem deixar de agir. Da minha caneta saem sabiás, dos meus dedos rouxinóis, beijo minhas frases como quem quer a revolução das guilhotinas em flor e não como quem quer comer, alimentar os filhos e sucesso no anonimato. Respiro o pólen e meu espirro, minha alergia é tudo o que sinto e o que sinto é o que observo e que está no bloco de anotação. Caderneta de desenhos.

Os seis.

How could he know this new dawn's light would change his life forever?
 The unforgiven III - Metallica

São seis na esplanada
seis da manhã
seis pessoas
é aniversário de uma delas
a comida acabou
assim como o vinho
um improvisa ao violão
enquanto outro canta algo
enquanto outro acompanha
com as palmas
mais gente, gente canta
mais gente toca o violão
esperam o nascer de um sol
que não virá
conversam daquilo e disso
e dançam
as nuvens não deixaram ver as estrelas
são os últimos
esperam nada de si mesmos
nada além da vinda do sol
ou da hora de ir embora
estão plantados ali
falta vontade de manter
e vontade de ir embora
alguém surge com lembranças
de outros tempos em
que não faziam isso
e tocam e cantam
no vazio sob o céu cheio de nuvens
no concreto sob um abstrato
de azuis
deitados no centro do planalto centro
que ali é o centro do mundo
de um mundo lateral
que vê sem apreensão aumentar o
número de carros nas ruas
uma chama na noite difusa
uma chama confusa na noite chama
venham sentem-se aos meus pés
perto do pombal
e façam o de sempre cantem dancem
conversem
nada importa menos que o trânsito
e mais que as condições meteorológicas
e mais que querer sair do mundo
e cair num outro de sons e luzes
e promessas

seis sorrisos
seis bocejos
seis gestos
seis silêncios
seis histórias em uma
seis querendo ficar na esplanada
às seis da manhã de um janeiro

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Prometeu é o fogo
nas palmeiras da costa
deixou aos humanos
alfabetos
refez inúmeros dialetos
de desafiar os deuses

Poema sussurrado pela brisa

Nada melhor que eu agora
porque vim de um mundo imprevisível
desembarquei aturdido
vi um sol num céu que não é meu
vi um rosto num sorriso alheio
vi a sombra de um gesto antigo
projetada por outras mãos
e me ensinaram a escrever
prometendo que fazê-lo é driblar o estranhamento

mentiram: escrever é o estranhamento
nada é meu
nada é seu

o mundo é um recém-nascido que nos contempla
e não o contrário
nunca o inverso das palavras
esteve tão próximo
do primeiro sentido dos sentidos.

o que ninguém disse
ou sentiu
é só o que toco
o que meus dedos imprimem
em nós palpitando de anseios na noite clara
escrevendo nós
de momentos e murmúrios
para um e outro
não por um e outro, mas
na raiz frondosa permanecendo

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

S.o.s

Fique longe do corpo
a poesia morreu
sem ao menos suspirar
morreu como ninguém esperava

em prosa hierática
não pediu flores no caixão
endureceu envelheceu enriqueceu

vil endureceu
flácida envelheceu
ruiu trocou de máscara

não é mais a poesia
e nem o que sempre combateu
é a outra coisa

domingo, 24 de janeiro de 2010

comedor de homens antropófago canibal



o sol de tarsila é
uma rodela de abacaxi
reverenciada por um boneco de pepinos

pés descalços escalavram a terra
à luz do ovo escaldado

o vento é rural
o monstro concorda

passeando no lombo de um burro verde

Uma caravela chamada legião

O mar sussura um nome
entre as pedras enquanto
traz cheiros esquecidos
e
abraça um naufrágio

nunca junta as peças do quebra-cabeça
ou guarda

o céu e o sol
lutando contra o vento
refletido na pele da água

no dorso da água irritada
cavalgam ignorando as vísceras
de algas e peixes e ondas
que são o resumo do mar de multidões

o mar é o deserto da recíproca verdadeira
a sala de cirurgia com o pé-direito alto
a saguão da estação
e o campo das possibilidades em flor
como raparigas proustianas

o mar não é o que as pessoas pensam,
elas pensam na superfície

Lentes

Durante a lua no céu
enquanto a chuva no mar
perdi minha memória

seus olhos na estante
as traças nas paredes
amputaram as migalhas dos que fui

sou (d)os restos
a morte é passageira

sábado, 23 de janeiro de 2010

O sábado sabe.

A chuva sussura seu nome
por entre as folhas
que derruba

as nuvens são meus dedos
que envio para ver como você está 

o vento tem o seu perfume
o seu rosto está nos meus livros

Prometemos como o nosso céu

A vida não muda
cada engravatado de hoje teve um sonho
como os meus

e se a mulher atolada em dívidas
teve a impressão há trinta anos
de que o mundo não lhe faria mal
ela estava errada

o mundo o mercado as obrigações
se encarregaram de soterrar
cada invencionice dessas cabeças ferventes

e se nem eu mesmo entendo um décimo de minhas aspirações
quem são eles para julgá-las
relegando à gaveta das inviáveis
das que não se concretizam fora da vida hippie

se o mendigo é assim por suas escolhas
não certas
o burocrata também

e se não há luz para além de se deixar
levar, o suicídio não é uma opção
e é muito fácil coagir com dinheiro
renuncio

não aos sonhos, mas da vida em que
os sonho
para viver o que já é plano

Passou.

A ausência era uma presença que incomodava, Julieta partira e ele não conseguia mais ferir o papel sem lembrar cada vez que seus dedos retiveram aquelas mãos e isso imobilizava. Um acesso de fúria destruiu a máquina de escrever e queimou todas as folhas, à loucura da convivência que ele recusou seguiu-se a loucura dela ali intocável em poemas, acessível em lembranças apenas. Ele decidira e Julieta aceitara achando que era melhor mesmo ele ser impassível neste ponto, ninguém desconfiava de que seria a poesia dela a que seguiria menos transtornada nisso tudo. E cada verso tinha o rosto dela sorrindo sarcástico sabendo. Não havia lágrima, só vinho e deitar no colchão olhando o teto, as moscas no teto e como as infiltrações no teto tinham a forma de um sorriso específico. Ele culpava o barulho do ventilador por não conseguir escrever, por ela estar livre e ele preso a algo intocável que não pode recuperar.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Semáforo

Ando devagar na contra-mão
dos pensamentos
que atropelam os sentidos
os atos e as intenções

a escrita é um bocejo
quando quero parar de pensar em você
quando quero parar de tudo

a poesia é um bocejo
quando quero parar de escrever
e não consigo

dizer que a leio em tudo não é suficiente
dizer que é tudo o que escrevo também não
já é uma parte de mim dizer
e saber e parar e hesitar
e seus olhos na minha retina/memória

se esteve tão claro esse tempo todo
e se tudo se restringia
por que seguir
por que esperar
por que entender
ou parar e pensar

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Blues da garota que passa

Sun, sun, sun, here it comes
George Harrison

A saia já é o começo do sorriso
é o vento que afasta nuvens
e abre as portas
das pausas decididas
dos gestos ensolarados,
de quem sabe e se diverte
sabendo o que quero


Olha de lado, mas olha
só quer prender meu olhar
e prende, não solta
me mostra que é o desvio
a calçada é sua
os olhares da calçada
e faz como se não fosse com ela


Como se as artérias do trânsito
fossem construídas
os ônibus parassem
a cidade segurasse a respiração
para quando ela passar
procuro fôlego nos bolsos
quero suspender o momento em que vai


se a calçada acabasse aqui
sua presença permanecia
como caravelas no horizonte

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Poema do dia recente

Uma inundação de você
uma enchente
dos silêncios dos gestos contidos
sorrisos desabridos
olhares nas entrelinhas
trocas que não planejo

uma overdose a que não sobrevivo
me afogo e não quero nada além
do que já tenho

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Don't you do it to

A lira desafinou
o compasso desandou e não sou senão poeta

prédios tão altos
e noites tão escuras
firo tatuo o papel com o que não importa

jogo a bituca em qualquer lugar
minha respiração se deixa entrecortar
por ruídos de pneus
e sinais de fumaça

jogo a garrafa em qualquer lugar
perdi o último ônibus

se há uma orquestra destartalada por tŕas
e um infinito abusado pela frente
por que escrever?

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Manchas de café

escorrem sem manchar
as marcas não se apagam
e por isso não são manchas,
mas parte da paisagem

são a pintura das paredes do nosso prédio
sólido em construção ainda

Coração menor que o mundo.

O que sinto é pequeno como este poema,
um instante capaz
de cegar todo o resto.
o que prometi, vivi esqueci
só tenho falas soterradas
a garganta entupida
e a tinta não escorre.

O mundo é verde-musgo

Queimo meus livros
corto as cordas do meu violão
não quero mais fugir para o méxico
e nem sei se vou dormir
ou comprar cigarros

a cidade é cinza porque o céu reflete os faróis
da madrugada inconseqüente
o que escrevo não vale a pena publicar
ou traduzir
é mentira, ilusão, farsa
chamem como quiser

Dunas movediças

A chuva fina é um cobertor sobre as decisões que não tomei
atos que caíram de maduro, podres aos meus pés
agora piso, são com as minhas e todas as palavras
valem nada
são a escada com o degrau partido
ou meio-partido a rachadura estava escondida
caí de bem alto quando tentei subir
quando tentei alcançar
piso em meus próprios calos e não sinto nada
escorreguei em um vazio sem pensar
e para não pensar e para não agir
uma bolha que me joga na cara todas as misérias
de que sou culpada as minhas e as alheias
a madrugada não termina
me levem às duas da tarde
não quero ninguém na estação

Espelho

O mundo é sempre o mesmo porque as pessoas mudam
o ruído que elas fazem muda
as intenções também
os rostos mudam
e as expressões se mantém

promessas têm esse nome por ser relativas
por quebrar o que está assentado

falho em atingir
em saber de palavras
que me enganam

domingo, 17 de janeiro de 2010

Aspirações noturnas

Casa velha, não estou só
numa mão a mão de alguém
na outra a luz da lua que entra pela janela aberta
deixa ver que seguro algo
uns papéis
amassados em que um vento mexe

Umas, poucas, estrelas brilham longe
quase prometendo
o estrondo de nuvem
e o cheiro de tempestade

Casa vazia de pé-direito alto
o passado grita, não estou só
as cortinas rasgadas
o vinho derramado
o cinzeiro cego e mudo
nos seus olhos meus olhos perguntam
e na minha boca ecoa uma certeza
atos, maiores que as palavras,
são os meteoritos de que preciso

crateras são perguntas
e não dúvidas na noite que recusa
a casa quer dizer algo, mas, tímida, sugere apenas
sua mão é o que sinto
e seu rosto memorizei
seus gestos não sei , estão um pouco borrados
e a boca não prevejo

sábado, 16 de janeiro de 2010

Felinos

bukowski gostava de gatos
eu gosto do ron ron deles

gosto da independência
de como não precisa de mim ou de minha autorização
pra nada
e não quer dizer que não goste
ou que quer fugir

talvez eu seja controlador demais, mas gosto deles
de como o desdém deles me arranha
e não quer dizer que não goste
talvez queira dizer que mereço um afago de vez em quando
e saber que não me esqueceu

e isso é gostar de um gato
sabê-lo aventureiro
mas não desapegado
não frio e pouco acessível

um gostar bem livre e sem amarras
ele vai e volta e mudou pouco
o ron ron é o mesmo
e as garras estão tão afiadas quanto
mas senti-lo perto compensa qualquer coisa

*Esse poema é fruto de um desafio, propôs-se um tema para ser desenvolvido em dez minutos.

Bauhaus

Para a Ju.

Uma linha em um céu simula uma realidade
Um céu que é espelho
e que a cada camada modula
assim é o que sinto um ritmo em equilíbrio torto
muda de tom por qualquer coisa
do roxo de raiva ao verde abacate porque sim
porque você iluminou de um jeito diferente

a realidade que projeto é muito parecida
mas não é igual
na minha tudo é mais ampliado e mais
dramático toma proporções grotescas
de relógios derretendo e coisas assim
ínfimas infinitas
cuja forma serve à função
e nunca o contrário.

quero mais perto
mais vísceras
seu humor oscila e o meu com ele
minhas ações são estáticas
sempre querendo o mesmo
sempre querendo provar
a cada mês
semana
dia
hora
respiração
que nós somos algo que vale mais do que nós mesmos.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

head shot.

Era regra nunca perceber o corte de cabelo dela. Sempre fazia isso. Por trás da desculpa, você é sempre bonita, ainda estava o grande defeito. Ele não percebera. Ele não percebia. Em qualquer tempo, modo e declinação era possível saber. Um pseudointelectualunderground que pede desculpas, não o é verdadeiramente. De resto tudo vai bem, suponho, trocam poesia e se fazem promessas. Contam os sonhos, contam coisas que nenhuma outra pessoa no mundo entenderia. Eles são importantes. Intrinsecamente importantes, dentro de um anonimato externo, internamente se importam com algo ou com tudo.

Cronológio

O dia era bom, pedia que ficasse em casa, recolhida, sem ver ninguém, sem falar com ninguém, ouvindo Portishead, bebendo vinho, talvez assistisse a televisão, talvez deitasse na cama e olhasse o teto. Estava apaixonada, saiu à rua com esperanças e teve a impressão de que as flores desabrochavam ao simples toque de seus dedos. Ao som de pássaros cantando e vento penteando a relva, teve a impressão de que os varredores de rua diziam bom dia e que os barulhos dos carros deixavam aberta a porta para o sussurro das pessoas. Andava tão distraída , satisfeita consigo mesma, que não prestou atenção ao atravessar a rua e foi atropelada por um ônibus. A morte foi atribuída a um fratura no fêmur e várias outras faturas em outros ossos, todas causadas pelo impacto com o veículo. Entre seus pertences, que ficaram espalhados pela rua após deixar a bolsa cair, estava uma edição de O Caso do Vestido, de Drummond. O motorista fugiu do local sem prestar esclarecimentos.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Um copo e uma garrafa na madeira escura
isso é minha poesia
receber o mundo de qualquer garrafa
na noite dos sentidos que se escondem
atrás da lua e nos meio-fios

A rua é um silêncio num deserto
de carros que ignoram carros que ignoram gente
o barulho é pouco usual
mercúrio derretido numa frigideira
a fumaça é pouco usual também
pedaços de memórias esfaceladas contra os vidros
compulsoriamente fechados
o ar-condicionado à toda ruge
a rua é um túnel com altura mínima para navegar

Fora de temporada

É preciso que ela não esteja 
em todo lugar que você procure pra poder 
perceber que ela está em você e isso é irreversível.
Eloisa

te leio em caligrafias estranhas
e mulheres desconhecidas
não é raro topar com um gesto seu
sorriso seu deslocado
palavra sua fora da ordem
num muro em outros rostos
em postes e constelações
em letreiros luminosos de outras proprietárias
só vislumbro você

Many fast cars

um verbo que inventa a si mesmo
inventa uma ação uma ação e suas conseqüências
tenho escrito para fora
tatuando o que levo dentro em outras peles
imprevisíveis

domingo, 10 de janeiro de 2010

Anoiteço à meia noite com você aqui
os dias são longos
só acabam na hora de chegar em casa e escrever poesia

você é de porcelana
fragilmente
rodopio ao seu redor
ao redor de momentos cristalizados
que retive num lugar anterior
à memória

bailarina de caixinha de música
pelas estradas sujas
faz evoluções, revolui
sem deixar rastro
sem perder o que delicado
mostra que é
mostra que transpira ânsia contida
prevenindo oscilações

com seu tom de voz aprendi a evitar extremos
porque o do sorriso é o da lágrima

sábado, 9 de janeiro de 2010

Sábado 09/01/10

Eles nunca se falaram pessoalmente. Mas acharam normal ter o telefone um do outro prevendo alguma eventualidade. Se conheciam pouco, de amigos em comum e conversas talvez breves, mas profundas. Sobre assuntos que ele, presunçoso, achava que nunca ia conversar com mais alguém. Agora sentados em um bar pela primeira vez ela o analisa, ela que à primeira vista parece tão tímida, não deixa passar um detalhe. Ele cortou o cabelo, aquele garçom está olhando pro meu vestido.
Ele está sem-ação, a acha madura, talvez um pouco sensata e se acha incapaz de ir de encontro aos interesses dela. Ela está curiosa, com a impressão de que ele não quer lá grandes coisas daquele encontra, talvez mesmo não a valorize como deve, está insegura.
A cerveja é o ponto de encontro de mentalidades atribuladas pela presença de uma outra. Um fixa aos cigarros, enquanto o outro se agarra aos olhos que parecem se afastar. Talvez não tenha sido uma boa idéia ir ali.
Ela estrala os dedos e isso dá agonia. Se levanta e vai embora assim sem mais.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Internet 08/01/10


*isso é parte de uma conversa que eu tive com a Eloísa no google talk um dia desses. Tardes no computador também são poesia, acreditem.


[...]
eu:  Sim sim
Ou não
mas é bom sim
nunca pensei sobre
 Enviado às 18:31 de

sexta-feira
 eu:  Acho que eu vou nessa.
 Eloisa:  Você vai e a chuva vem. há
Ainda terei companhia.
 eu:  Nunca sozinha
Sempre protegida
Ainda que quase nunca segura de tudo?
Eloisa:  Nunca segura de tudo.
Pronto, não te falta mais nada.
 eu:  dava um poema
 Eloisa:  São poucas as pessoas que me fazer ler em voz alta o que escrevo e você conseguiu.
Também pensei que sim.
 eu:  sintonia
 Enviado às 18:36 de sexta-feira
 eu:  fazemos um trato?
[...].



Poesia crônica

os dias em que não te atinjo
são os dias em que mais apanho
caminhos despedaçados
e portas nas entrelinhas

por onde seguir
se o lugar aonde quero ir
é o único que você me impede

sua boca é a lua que se afastou
por quê?
minhas palavras não criam círculos concêntricos
em nossa superfície
seus gestos podem encostar em nada
a conversa aqui é a pálpebra
do ar que não enxerga a si mesma
um cheiro de manhã inconclusa perturba

você tirando fotos do sono
da gripe
do horário torto
da ligação
do ron ron
se irritando quando perguntei
a utilidade da câmera

nunca te beijei
nunca segurei sua mão
nunca acariciei seu rosto ou afaguei seus cabelos
desconheço o porquê da confiança que tenho

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Quero saber sem duvidar
parar pensar hesitar assim
por que uma dúvida soterra o que eu gosto
a pessoa de que gosto e
tudo o que fiz para mostrar?

ela não me deixa escolha
refleti demais e cheguei a nada
pude nada
querendo tudo
vejamos qual é o futuro
se tem algo que eu possa desejar.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

poesia aspirada ou à medida da dor

conto a cada respiração
dois pensamentos em você aqui
um quando você me inspira
o outro quando o poema expira

Você perguntou o que farei amanhã

Amanhã fico em casa
pensando na vida
se o amor é ferida
que quero curar

se tem algo de abrigo
se é apenas castigo
se devo esquecer
ou se devo lembrar

a luz que me engole
me leva a sentir
que tenho algo a perder
sem você aqui

o que tive a perder
o que tenho escondido
agora repito
pra você reparar

mas não me arrependo
te quis e te entendo
se sou tão sensato
e sem medo de errar

me faço a pergunta
retorno ao assunto
quero saber
sem que te doa

sem que justifique
cada erro meu
sem que te faça
parar e hesitar

não uso o passado
não uso o pretérito
sem futuro também
pra nos planejar

uso o que tenho
é uma vontade
continuar e reter
o que houve de bom

nada houve de ruim
sem deixar de aprender
não mais padecer
não antecipar

apenas viver
mantendo o vício
errando sempre
(é inevitável)
sem medo de amar.

última barreira do deserto

o som dos carros afoga
em azul sem nuvens
a estrada não quer saber
de parar e perguntar
quer o agora do asfalto quente
e do céu inquestionável

Mittelalter 05/01/10

não entendi o desânimo súbito ontem
se teve a ver comigo
você ainda não percebeu
que sou melhor a sós com seus óculos?
que você é melhor a sós com os meus?

abro brecha incoerente
e sou errado

Rastros de sangue

acordei cedo e exalei
o último suspiro da madrugada
mancha vermelha num céu que me disse
você está enganado,
a vida sabe e segue sem medo

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Waltzing Matilda

Você é de cristal
fragilmente
rodopio ao seu redor
bailarina de caixinha de música

sua delicadeza é minha valsa fluida
que não retenho entre os dedos
mas que à simples memória
me faz perceber
por esta vida vale a pena seguir

o que é nosso é de cristal
pelos poucos registros
que não papéis
é frágil e bonito
funcional também
ainda que à margem de convenções
faz querer permanecer manter

Já te pedi calma e confiança em nós dois
e você lá impassível
se dizendo imperturbável

?!?

O calor da madrugada lembra uns olhos
Não que fossem quentes madrugadores
Transmitiam uma intensidade
que pulsava como a versão brasiliense
Desta nula hora do dia.
Hora que me refrearia em qualquer outra cidade,
Me faria esquecer deles
Mais que dos olhos
Do olhar e do sorriso -
Ansiados porque inconclusivos e vice-versa -
Que esta cidade nula, numa hora cheia,
me leva a lembrar; hesitar em
atribuir a ela a culpa
Preferia colocá-la nos olhos
Incisivos vagos de ar suficiente.





*este poema é bem antigo, achei perdido no meu e-mail e resolvi postar.

Crônica

Para a Ju

Nunca achei escrever lá muito fácil e não explico por que o faço usando a velha desculpa da necessidade que vem de dentro. As pessoas se entretêm dentre outras coisas em alinhar motivos para escrever quase como se fossem desculpas. A mesma coisa na vida, as pessoas têm que ter uma razãozinha para fazer as coisas. Nada é justificado por si só, em tudo há um plano ancestral concebido para não fazer a pessoa ficar mal perante as outras, mesmo que não as conheça. Eu escrevo por um motivo pífio, quase dá vergonha de dizer, mas é o único que explica o que estou fazendo. Não sei lidar com atos, as palavras são meu disfarce, meu jeito de acreditar que consigo mudar algo. O mesmo na vida, não sei lidar com atos, por isso me importa tão pouco (tem importado cada vez mais) o que os outros têm a dizer. O que faço é por si só decadente, então sair de um carro para vomitar e arremessar uma garrafa de vinho com muitos conhecidos, amigos e amigos em potencial assistindo é o ápice de nada. Nem da mediocridade. Disseram que houve estilo, e dessa afirmação eu gostei, um bonvivant oitocentista não faria melhor, fui um perfeito dândi. Foi cinematográfico, diria, sair às pressas do carro se escorar na primeira palmeira ainda com uma garrafa de seiláoquê na mão, vomitar algo que não me lembro de ter comido, arremessar a garrafa longe e tentar achar um lugar para mijar, e, não encontrando, fazer ali mesmo. Em retrospectiva me lembro daquele filme cujo nome, como de costume, me escapa. No trailer há um tigre e Mike Tyson no quarto de hotel de três homens em Las Vegas. Um deles pergunta am I missing a tooth. As coisas se são para ser decadentes, tais como escrever ou vomitar em público, que sejam feitas deste jeito. Dignas de aparecer em um blockbuster da vida. Senão não vale a pena.
Tem que, sendo já decadente, ser verborrágico para aparecer e ser palatável à platéia qualquer.

domingo, 3 de janeiro de 2010

Desafio dos dez minutos.

Fui desafiado a elaborar treze haicais em dez minutos e consegui. O resultado ficou péssimo, mas posto assim mesmo:


1.
Já não sei de nada
do que fui senti pensei
aqui me perdendo

2.
próximo tijolo
na estrada que percorri
não está mais lá

3.
o segundo uivo
e o terceiro grito meu
não se ouviram mais

4.
o ar não transpira
esperando as pessoas
o atravessarem

5.
espelho quebrou
me refletindo total
mente desgarrada

6.
as garras afundam
na pele do que não houve
mas não não foi ali

7.
caí e percebi
que não basta escrever
para fingir isso

8.
pronto já te digo
que a verdade vem à tona
se não procuramos

9.
não sei como faz
para escrever haicais
em tão pouco tempo

10.
agora já sei
as rimas vêm fáceis lá
onde não procuro

11.
pergunto a você
se é mesmo preciso amar
para saber tudo

12.
escavei resposta
de onde não procurei
achar mais indícios

13.
um tesouro escondeu
as respostas nos sorrisos
teus e só teus olhos

Açúcar-orgânico-cristal

A minha escrita se derrete
em lágrimas
estátua de açúcar ao
sol do meio-dia de minha tristeza
cristal fundido
orgânico
que choro pela ponta dos dedos
tudo
o que escrevi
o que senti
o que pensei
o que menti
já repeti que são gotas
no oceano de você aqui.

Àquela altura da noite enevoada ninguém repararia se aquele menino cego atravessando a rua sobre uma corda bamba se olhasse no espelho e fizesse a mesma pergunta em uma língua morta a se debater no asfalto recém-frio

as órbitas vazias de intenções pairam sobre o pavimento misturando-se à fumaça que sai dos bueiros

um caminhão quando vem à toda e acerta o menino o motorista é que se pergunta em língua morta por que a lataria não amassou

mas ele segue

a rua também é uma corda bamba e sempre pode vir algo maior que o caminhão e levá-lo e seguir

o próprio menino já havia feito isso atingindo a si mesmo quando se contemplou no espelho sem respostas

os faróis vazios de significados por isso mesmo dilaceram tudo inclusive o que não quis saber

tudo à tona de localizações de países distantes a atividades secretas das pessoas próximas do asfalto recém-turbulento

a placa do mendigo à margem da cena diz deus é cego surdo mudo e paralítico

como eu espantalho das moscas com meu chapéu sem copa e botas furadas

trepidando o caminhão a corda o menino o espelho e a rua sob um olhar atento de estrelas que se fazem pergunta nenhuma

sob um olhar atento de revoada de andorinhas carnívoras de ossos

otimistas todos em suma sabendo a corda é bamba e o atropelamento iminente

uma pergunta é uma bomba um monumento ao que se quer destruir seja por hesitação ou por vontade de descer da corda e sair do meio de uma rua que é simples artéria de muitas outras

sábado, 2 de janeiro de 2010

Esqueci de quando as orquídeas em bando imploraram
aos berros tocaram meu rosto, mas não
me convenceram de que tudo ia bem
pensei dispensei sorrisos
e elas se foram, raivosas

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Poema sobre o ano-novo

Para o meu patinho

As lágrimas de fogo que escorrem do céu são pífias
se comparadas às multidões de gritos
e sorrisos e sons

a noite é uma língua que leva a todos os lugares
mal-iluminada serpenteia jurando
no ano que vai nascer
um dia que é promessa se erige em concreto ali
promessa intermitente como um farol
num horizonte de todas as cores

cada sofá e banco de carro é um pedido de desculpas
cada camisa branca veste um atestado
em cada taça de qualquer coisa flutua a garantia
de que ali as garantias estão suspensas
e a brisa à beira do lago é um sussurro respondido com um sorriso

os violões rasgam as roupas da neblina
com seus dedos inábeis sob o olhar atento
de um deus menos presente
menos antediluviano

cobertos pelo lençol da chuva frágil insistente

viver é esperar a próxima espera
mas nessa noite ninguém pensa nisso
dentro da espera, faz-se
e não importa como vai voltar

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

A bíblia resumida

Saio do bar sem ter como voltar para casa
segundo uns eu não devia fazer
sair sem saber

uma amiga me perguntou quantas melhores amigas eu tenho
e na sua frente
o que eu respondo numa ocasião dessa?
se não te considero uma amiga comum
o que te torna aos meus olhos inclassificável
não queria que o que digo soasse falso depois de ter bebido
ver seu sorriso, que você virtuosisticamente varia,
é sempre bom
tem o contraído que presta atenção na conversa
tem o que se escancara quando você vê alguém
que há muito não via
tem o sem graça quando eu tento olhar nos seus olhos
prestar toda a atenção te elogiar
e puxar assunto ao mesmo tempo e falho

ler a carta também é sempre bom
mas você ali
supera tudo
a presença com que eu contava
mas que ainda assim surpreende
cito de memória algo
a incapacidade de apreender a peculiaridade um do outro