sexta-feira, 16 de outubro de 2009

A culpa

Ele soube e por isso se condoía, queria negar. Se estavam juntos por algum motivo, se havia algo mais ou menos estável para ser celebrado naquele dia, era porque havia uma admiração implícita em tudo o que faziam. Ela o incentivava, revisava, elogiava; gostava dele porque, segundo ela, era o melhor poeta que ela já havia lido.  Descobriu que, na verdade, o contrário acontecia e era um problema. A primeira vez que se falaram foi sobre poesia. As conversas antes e depois do sexo eram entremeadas por poesias, mais de uma noite já fora arruinada por um verso mal-posicionado. Vinham se aprimorando e tentavam agora caminhar olhando nos olhos um do outro e declamando. Tropeçava-se um pouco, mas era necessário. Não é difícil perceber que este era o leitmotiv da junção destas duas pessoas, nada de assomos líricos instantâneos, almejavam à poesia integral. No começo, bem no comecinho, ele não soubera que ela escrevia também. A relação centrou-se na produção dele, elogiadíssima por ela, o que o fazia se sentir muito bem em relação a ser poeta. Um dia em um café surgiu uma caderno onde ela passava a limpo todas as poesias, gerando nele um outro tipo de interesse. A fase de agora era problemática. Se tudo surgiu de um interesse dela pela poesia dele, a constatação de que ela escrevia não melhor, mas de um jeito que ele queria escrever, era avassaladora. Seus versos analíticos, descritivos, comedidos ansiavam e suplicavam por ser escritos na forma dela, personalista desmesurada, num desvario único e indisciplinado. Não era difícil associar as diferenças na escrita a diferenças de personalidade, ele monótono, ela passional desvairada. Incomodava saber que se ela gostava dele, ele não retribuía a altura. Se ela o fazia querer cada vez mais ser poeta, ele negligenciava a produção dela. Estava embaraçado, devia valorizá-la ou ela gostava de tudo desta maneira? A admiração da poesia dele era a clef de voûte da catedral que haviam construído dentro daquele apartamento minúsculo que alugaram, sem ela tudo ruiría. Estava prestes a ruir mesmo. No dia em que percebeu que gostava mais da poesia de outro que da sua própria, ele que sempre fora orgulhoso, começou a achar defeitos desagradáveis nela, saiu de casa. Sentado no bar na esquina do quarteirão pede um uísque de milho e compra uma carteira dos cigarros de sempre. Não sabe se volta à catedral, já profanara todo o sentido de sagrado que ele lhe dava. Vem à mente o conto do Fonseca onde a mulher vive com um escritor por quem é apaixonada e modifica todo o livro que ele lhe dita, transformando na obra-prima que não era antes. O escritor, é claro, só descobre isso depois da morte da mulher. Pede mais uma dose e acende outro cigarro, talvez peça uns torresmos, mas não sabe se é lá muito poético. Se recusa a entabular conversa com o garçom, fecha-lhe a cara. A vê na porta do bar com uma expressão exigente de uma explicação, ela vem senta-se à mesa com ele e pergunta.

4 comentários:

Katrina disse...

Espero que demore muito ainda para descobrir meus defeitos.
E porra, nem sei o que dizer, mesmo. Sou péssima para comentar quando todas as palavras se transformam em expressões, como um sorriso que ora vai, ora vem, sem controle.
E acredite, meus pés tem ficado cada vez mais quentes.

Plas disse...

"Vem à mente o conto do Fonseca onde a mulher vive com um escritor por quem é apaixonada e modifica todo o livro que ele lhe dita, transformando na obra-prima que não era antes."

Oi, onde eu acho? *.*

Hugo Crema disse...

Não sei eu leio muito Rubem Fonseca solto por aí; não sei onde encontrar só garanto que existe.

* L. disse...

Hmm, gostei, haverá uma continuação? Fiquei ansiosa por ver o quebra-pau ou a reconciliação meiga.