terça-feira, 8 de setembro de 2009

Nochevieja

Era perto de quatro da manhã e havia sons que nunca abandonavam o mundo a essa hora. Desde as dez perambulava em trajetos curtos e já sabia de cor o que veria neles. Só voltaria quando totalizasse vinte e dois reais, dos quais já tinha dezoito. A partir de certa hora, certas coisas ficam mais fáceis, enquanto outras ficam mais difíceis. Sente algum medo de que algum bêbado o agredisse de novo e tomasse seu dinheiro. Um vigia gira o chaveiro nos dedos e assovia uma música da novela. Nenhum bar fica mais aberto a esta hora, quando ficavam o escorraçavam. Uma vez fizeram mais e lhe bateram: merecera uma justificativa ao menos, fedia. Não se afastava muito da porta do mercado vinte e quatro horas. As pessoas que entravam lá, pelo menos as que não eram como ele, tinham dinheiro pra gastar, até pra desperdiçar se as comovesse o suficiente. Era melhor ter armado a barraca num lugar mais escondido, pra dentro dos bambus; os guris dão muita bandeira. Faria diferença se não voltasse ou não voltasse com os vinte e dois reais? Conseguiriam sem ele? Não, eram os fardos. A mulher era uma inútil que só queria ser bem-tratada, não cuidava dos filhos e não conseguia trabalhar em nada. Dos filhos era difícil lembrar o nome de todos de uma vez, eram muito parecidos porque sempre estavam com fome e fazendo barulho. Por que será que trepar uma vez significou ter de trabalhar pra outros pra sempre? A senhorinha se assusta com a abordagem e se desvencilha dele rapidinho. Nem dá tempo de contar a história ensaiada para levá-la às lágrimas. Porque será que os filhos não podiam fazer aquele trabalho? A barba está muito desgrenhada e ela e ele se separam bufando, cada um com suas razões. Mulher é mais provável de dar dinheiro, homem dá dinheiro quando quer se livrar logo e não é forte o suficiente para xingá-lo. Consegue setenta centavos de um casal que deve ir comprar camisinhas. Deve ter dado o troco por causa do alívio de não terem sido assaltados logo ao sair do carro. Estavam com cara de assustados. Está escorado numa barra de ferro onde acorrentam-se motos e vê um carro entrar muito rápido no estacionamento. Sai de dentro um homem de camisa regata e boné, trôpego e desacompanhado. Forte, sem dúvida, mas seu tempo de reação a esta altura deveria ser lentíssimo. Ignora três tentativas de abordagem e por fim cambaleante escora-se nele. Eu e minha família estamos acampados em um terreno aqui em baixo. Há três dias não temos o que comer e só volto pra lá com uma cesta básica. Já tenho dezoito reais e preciso de vinte e dois. Se o senhor achar que estou mentindo e quiser conferir a gente entra lá e compra juntos a cesta. O do boné está visivelmente alterado e há uma chance. É fácil perceber que tem dinheiro, tanto pelo tênis que usa quanto pela carteira que tira do bolso. Solta-se do apoio do outro para conseguir mais mobilidade. Abre a carteira para buscar alguma coisa, sem notar a existência do outro. Se pergunta se irá ajudá-lo. Está muito distraído vasculhando a carteira. Não hesita, dá-lhe um encontrão que ele não percebe de onde veio. O outro tão bêbado não esboça reação alguma ao cair no chão. A carteira que caíra a poucos metros é prontamente chutada longe. Uma mão grossa e afável o ajuda a levantar. Se incorpora dá uma gargalhada e entra no mercado. Olha debaixo de carros e não vê a carteira. Será que já a levaram. Não lembra o rumo que ela tomara quando a chutou. Caiu dentro de uma boca-de-lobo. Levanta com dificuldade a grade. Enfia a mão na massa viscosa e procura. A carteira caiu aberta dentro do bueiro e todo seu conteúdo está molhado e fedendo. Primeiro atira os documentos longe e os perde de vista porque caíram em algum lugar entre um carro e o meio-fio . Tira algumas notas do compartimento, não poderia usar os cartões sem ser detectado mesmo. As notas encharcadas se desfazem entre os dedos. Salva duas mais intactas, deterioradas mas melhores que as outras que não conseguiria passar adiante. Uma de cinco e uma de vinte reais. Tem agora quarenta e três reais e a frustração de não poder comprar duas cestas básicas, e isso que já tivera sonhos. Nenhum estabelecimento dá desconto a alguém vestido como ele. Tudo sai mais barato pra quem é rico e não é só porque eles tem mais dinheiro. Entra no mercado sob o olhar incrédulo do vigilante, já conhecia esse, ele sempre tinha cara de desconfiado. Vê o homem da carteira debruçado sobre carrinhos de compras, brincando de deslizar pelo chão liso do mercado. Bate contra uma gôndola, o som dos vidros se espatifando, quem sabe se encima dele, é engraçado. Está feliz de ter dinheiro. Vai comprar algo para si com os vinte e um reais que sobrarem. Sem saber como, antecipa-se a isto e já está na seção de queijos. Afinal de contas tem quarenta e três reais e isso o desobriga . Toma um queijo nas mãos e pela primeira vez não se importa com o preço que possa ter. Aproveita a doce indução a que submetem os clientes os mercados. Pega um vinho e para completar um charuto. Os charutos não estão à mostra, tem que abrir um armário protegido para buscá-lo. Chega no caixa sob o olhar condescendente da atendente, será que os quarenta e três reais que está prestes a gastar o tornam menos desgrenhado? O gerente olha desconfiado para ele quando retorna com os charutos. Não se importa sempre olharam assim mesmo, mas o mundo é dele agora. Paga tudo, sai do mercado. Hesita pois sempre pode voltar à barraca ou não.

Um comentário:

* L. disse...

Adorei. =) Narrativa crua mas não exacerbadamente, digo, não de modo a subestimar certos detalhes. Só não tenho certeza de ter entendido o título, apesar de não ter ainda parado pra pensar sobre