quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Tive algum

E houve esse dia em que percebeu que nunca a vira sorrir. O que não era motivo para desespero. Eu não sorrio nunca percebeu. Te achava normal até hoje. À mesa de um bar. Ambos com sono e sede. Seria momento perfeito para alguma explicação. Ansiava por isso. Ela encarava fixamente tentando perscrutar em vão alguns desígnios. Ele o mesmo. Traz mais uma por favor. Me passa o isqueiro. Mas você nunca tentou sorrir. Eu tentei uma vez quando minha mãe me deu o lordbyron de presente de aniversário. E conseguiu. Eu gosto muito do lordbyron. Lembrar como ele ia me arranhar toda e destruir meus móveis e livros me fez me abster de uma emoção mais incontida. Como você contém uma emoção incontida. Lembrando de como o gato arruinaria minha vida. Apesar de eu gostar muito dele. Nunca quis inconter uma emoção. Em especial alguma que te fizesse sorrir. Não. Você ficaria mais bonita. Eu não preciso ser bonita porque sei que idiotas como você morrem de amores por mim. Ficaria mais magra. E isso me faria morrer mais ainda de amores por você. Mentira. Você já morre muito de amores. Não é possível superar isso. E se eu te largar você sorri. Não. Por quê. Porque você não destruiu meus móveis e livros.
Houve um dia em que percebera que a resignação ante este fato era o único caminho. Com cócegas você ri. A última pessoa que me faz cócegas foi meu pai há mais de quinze anos. E já então eu não ria. Então tá. Faz-se um pacto. Você me dá um sorriso de leve e eu pago toda a conta. Minha reputação e dignidade não valem tão pouco. Valem. Muito você se engana. Então paga a conta sozinha. Eu não. Você bebeu tanto ou mais que eu. Mas você não quis me dar o sorrisinho. E daí. Que todos os problemas têm origem em você. Paga a conta logo e vamos embora de uma vez. Não. Só se você der o sorrisinho. Quer morar no bar agora então. A gente vai assim que você sorrir. Que insistente. Só por isso. Prepare-se para dormir aqui nesta mesa mesmo que eu vou indo embora.

5 comentários:

* L. disse...

Não sei se é dado retirado da realidade ou se é mesmo criação sua, mas either way achei lordbyron um ótimo nome pra um gatinho :} Novamente, conto ágil cheio de períodos sem paragrafação; novamente, isso tudo super adequado e mol bom o conto, gostei! Aquela ideia de tempo meio deturpada que fica interessante

* L. disse...

Observaçõezinhas: "inconter" é neologismo ou existe? No último período, acho que faltou o "r" de "dormi". =)

Plas disse...

Nossa, eu tive um travesseiro chamado Byron. =D

* L. disse...

"traduzir sob a forma de narrativa em terceira pessoa um discurso meio indireto livre" conseguiu, sim, com certeza, apesar de isso às vezes acarretar ambiguidades (como já te falei também sobre outro conto seu). Mas isso não é necessariamente ruim, então este terceiro comentário é um meio-termo (já que você definiu os outros dois como um bom e um ruim). haha. Neutro.

Hugo Crema disse...

Further explanations: Eu estava num bar e tive uma conversa parecida, o grande problema é que recriar qualquer coisa, distancia-a da realidade então o conto saiu meio torto, mas eu alcancei o que eu pretendia: traduzir sob a forma de narrativa em terceira pessoa um discurso meio indireto livre