quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

são dois que andam em calçadas separadas
estreita a calçada estreitos eles mesmos
ensimesmados querem saber sem olhar para a rua
o porquê das árvores e dos carros estarem delineados pelas montanhas ao fundo
e estas pelo céu que não acaba, mais ao fundo ainda,
atravessam as ruas transversais sem prestar atenção
trombam com cada pessoa levando cachorro e com cada caixa do correio
já pisaram em mais de um pé
foram atropelados por mais de uma porta súbita
seguem absortos cada um sobre um trilho na mesma direção ignorando
presenças mútuas perguntas que compartilham
resmungos que provavelmente serão recíprocos se confrontados

são dois que dividem um rumo que não é um destino
querendo o mesmo sem esforço para conseguir
nenhuma pessoa vai dizer que soube ou que quis saber
mas eles se encontram
lá no final da avenida
como um encontro marcado desde sempre
um surge com ar meio ressabiado sem saber a quem se dirigir
tem que esperar o outro perguntar
ah, você também veio
é mesmo, que coincidência, não sabia que você gostava de andar por aqui
pois é, vim pensando nessas coisas de sempre
e seguiriam não sei se pela mesma calçada,
pelo meio da rua
ou em em calçadas diferentes

pensaram no mesmo
quiseram o mesmo
se encontraram no labirinto da cidade
se encontraram no labirinto de si mesmos
nos intervalos de cada um, na brecha que cada um
soube aproveitar só porque não tinha planejado fazer isso
caminharam pelas artérias um do outro desde já
ignorando ou fingindo
é melhor não deixar transparecer
vai que o outro percebe
o que há por dentro dos gestos por trás das palavras
aí não tem mais graça, é melhor manter sem saber
e ficar na sombra da dúvida
vai que se encontram por ali

quase todo mundo sabia:
os prédios previram
os carros a toda velocidade mentem, eles também previram
as coisas enfileiradas, que são a forma da cidade:
postes
canos
fios
anseios
represas
amanheceres
caminhões
poças de água
mendigos sob marquises;
a imensa fila que a cidade é previu -
se corriam paralelos na mesma direção
se perguntavam o porquê da cidade e da vida serem assim
se se encontraram, como quaisquer paralelas, num infinito
que é o âmbito dos pensamentos disfarçados de palavras
não importando a timidez narcisista de um
ou a ambição recalcada do outro
ou se quererão se ver quaisquer outras vezes
naquela convergência do esgoto de onde vivem
esgoto/vísceras/entranhas/sangue&pus ali desemboca tudo
o que corre desplanejado pelas ruas -
a colisão era visível a curto prazo

como um jazz modal
sem harmonia mirando um alvo bem longe
um jazz mortal/o saxofonista é um atirador cego
de facas cegas que só perfuram os órgãos
deixam intacta a pele das intenções que os juntaram
um uivo bem longe que cruza a rua
avança o sinal muda o sentido do que há até ali
naquele ponto final depois do desvio
perto da ponte que ninguém usa mais

sob andaimes e ao longo de entradas do metrô
antes de esbarrar já se perderam sem aviso
sem pânico para não dar mostras
não precisar parar para pedir informações

são dois que andam
um pelos olhos do outro

Um comentário:

* L. disse...

As calçadas podem ser separadas, mas rumam pro mesmo lugar enquanto forem dois lados opostos de uma mesma rua (ou seja, calçadas paralelas, jamais transversais; encontros casuais se dão em calçadas transversais, encontros planejados de pessoas que sabem o que querem, coisas marcadas desde sempre, essas se dão em quaisquer ruas). Resta saber em que cruzamento a rua muda.
Duvido serem calçadas estreitas, espero vê-los andando com folga, com espaço, enquanto estiverem naquela rua. O horizonte delinear qualquer coisa não faz diferença se não sabemos decifrar o que é delineado e o que é o horizonte em si. Apenas se anda e isso basta pra viver, o andar é que tem que ser bom, não o horizonte que é nada mais que uma interrogação, uma promessa. Mesmo se não se sabe onde se está andando, pode-se continuar lá, se estiver confortável. Eu espero que os andares todos, de todos, sigam confortáveis.
Mesmo que se saiba ou não que não quiseram exatamente o mesmo, que não pensaram exatamente o mesmo, não há grandes dificuldades de duas calçadas paralelas, que não se encontram, mas seguem meio que juntas, prosseguirem assim, se em ambas está tudo bem e se a visão, mesmo que periférica, da outra, ao lado, não é ruim.