quarta-feira, 31 de março de 2010

O tal roteiro.

O olhar não tem esquinas, preciso de um bisturi para ver por dentro das pegadas no concreto A cidade que construíram para mim não deixou rastros. Minha vida já começou fora dos planos. Descarrilou quando nasci, em meio aos berros e aos olhos arregalados.


Vidros velozes refletem meu vazio na multidão. Estes meus olhos refletem as pessoas sem rumo. Entre manter e mudar fico com a primeira, enquanto a segunda me contamina. Docemente encima do muro, o essencial me cega, não me permite agir, me escapa.

Incomoda todo mundo decidir por si mesmo, apesar de saberem que espero contato.

Quero entrar nessa boca enorme que me enfrenta. Seus ruídos me atraem. Uma freada uma música qualquer, uma cor. Vertigem no centro do vazio planejado. Cidade plano, cidade plana. Usamos nossas asas para correr nos espaços abertos. É como se os prédios também tivessem uma esperança. Em meio ao turbilhão as coisas perdemos o contorno. O que me tornei? Apegada a um enquadramento, tão a deriva quanto eles, que me estendam uma mão por cima dessa barreira é questão de sorte.

Um silêncio me veste. Não consigo tocar quase nada por aqui porque rodopio. O céu afasta meu corpo deste planalto. Se a utopia ruiu, é hora de restaurar meu peito ou as calçadas? Não sei, mudei de mim e a cidade nem é mais a mesma. Apagamos os esboços.

Preciso perder um pouco da vontade de situações. Viver é respirar sem culpa. Tropeço com gente, as cores em meus olhos vão na frente colorindo o resto. Ou o mundo está fora de foco ou sou eu com meus devaneios.

sábado, 27 de março de 2010

veio um vento/derrubou o que há ao redor
sou o silêncio velho de um final
daqueles bem clichê.

on the road/off the tracks

                                                                                                                  headlights pointing at the dawn
                                                                                                                                       Smashing Pumpkins

um adeus à casa vazia
ao rosto sem rugas, ao dinheiro
à casa cujas ruínas habito
carbonizadas em mosaico
de lembranças caleidoscópicas
um resto de sofá, colheres sujas
um sorriso de que talvez sinta falta
uma mão na minha seria bom
pois não decidi meu jeito novo
a arrumação dos móveis e a cor das cortinas

um passo indeciso
que não cabe em mim:
as pegadas e as digitais
da minha sombra

carrego como sísifo
nunca consegui descansar minhas sombras
assim que ela voltar
até a isto digo adeus

em murmúrios
sem afagos
um taxi perde o caminho
sou uma ponte entre dois vazios
não sei articular/
a boca se move não dubla,
só diz desencontros
adeus aos meus
ao que despencou do meu corpo

um adeus que perfura os tímpanos do ar
surdo e sonolento
vem a manhã com um hálito frio
com um cheiro de náusea

peço e despeço
o que me faz ir para manter.
uma mão ao longe
um aperto de mão
um abraço e três beijos na bochecha
contaminados por meu olhar cabisbaixo
porque olhar para trás e lembrar
tem sido andar vendado nestas calçadas
cobertas por uma constelação de cacos de vidro

uma mão acenando desvenda
o que move um coração está no horizonte

em câmera lenta percorre o corpo
                                                      [meu
                                                              seu
                                                                    nosso céu] morto
que abandona aos poucos
um em um milhão de cadáveres volta
com a chance de fazer o que faltou
o braço repelido daquilo em que os dedos
quase encostaram.

àquilo que meus olhos não tocaram
a noite sobreveio
desaprendi a falar para não sentir
saudades
sou um verso escrito na areia
que a maré vem apagar
só uma palavra na multidão
de grãozinhos ásperos contra a multidão
de gotas lúcidas
só uma palavra para aqui a partir de agora
só uma palavra para o que a partir de agora
me desconhecerá: adeus.

quinta-feira, 25 de março de 2010


Percebi logo - pelo bigode, na verdade - porque aquela mulher chorando no meio-fio disse que ele gostava de se auto-proclamar o rei das façanhas inverossímeis.
Quando ele me disse que eu tinha olhos de estátua grega duvidei de estar falando com a pessoa certa. Cheguei até a duvidar de por que alguém que eu conheci nesse mesmo dia estaria dentro do meu carro a essa hora fumando um baseado comigo. Conheço muita gente há muito mais tempo que ele, e não necessariamente fumo com elas no carro. Talvez eu já o conheça e tenha esquecido do rosto dele. Bem que foi meio esquisito alguém sentar na minha mesa e já saber que eu gosto de Janis Joplin e dizer que estava aqui pra cuidar de mim, que a minha complexidade na sua dava arrepios. Apesar de meio esquisita o tempo todo a tarde foi boa, banho de chuva, querendo me convencer de, se não era a pessoa certa, pelo menos a errada não era de ser e tal. O engraçado é ele tentando me convencer de que não bebe, de que baste olhar meus olhos para se viciar no improvável. Quem sabe ele não é poeta, isso explicaria ele falar desse jeito, mas não seria muito genial. Difícil confiar em promessas dessa gente.
Meu peito nasceu nublado
num jardim de navalhas
o sol enferrujado se esconde

olhos de estátua grega
gestos de arame farpado me arrastando por um labirinto de veias e artérias sem saída
com este fio cor-de-carne que alguém amarrou na entrada
porque não quer se perder em/de mim
minha metade meio-vazia meio-cheia
cheirando a um ranço de luar que nem
andar por aí e tentar arranjar um emprego conseguiu extinguir
meu tórax é um pomar de lâminas
regado de fluoxetinas
ali o mármore de um braço
metal retorcido de um queixo esperando algo vir do horizonte
meu nariz de barro caiu de podre
espatifado no chão a um canto perto da fonte
eros barbudo com ninfas
dança circular/ ali o riacho/ aqui as raízes dos meus dedos
contaminando
dança circular pisoteando a grama recém cortada
não dá pra dormir com o barulho de pés encima do meu teto
fazem tudo em qualquer lugar

o espelho não me reconheceu
vi alguém parecido comigo sussurar algo ao seu ouvido
não podia ser eu, você sorriu.

quarta-feira, 24 de março de 2010

pra Ferdi.

O sim da sua presença
contra o não da distância na estrada
a lua enlouqueceu
sobraram seus olhos em mim
mais nada.

terça-feira, 23 de março de 2010

cem palavras
uma centena
uma catedral
uma cachoeira
de vidro
esparramado

dia nascer sem
seus olhos
intocado por
seus dedos
trazendo sol
e recados
em papéis
amassados
terrenos arrasados
portões escancarados
da sua presença
perdida

Poema geral

o corpo não me abriga mais
ter o céu como cobertor ao invés do chão
e a lua como lua, não seus olhos
                                                     [gatos

gatos em todas as janelas vendo passar
a multidão que me arrasta como um rio
os dedos não alcançam só levam o corpo
na correnteza de versos em cada boca que
como um poste meio apagado cheirando a querosene
não fazer menção
de ouvir ladainha nas ruas de pedra
apodreço debaixo de um sol na frente de tudo
igreja matriz apóstolos cegos carrinho de pipoca
um pó de inconfidência atravessa o paço do governo
filtrado amarelo pela luz que despenca
das montanhas de casinhas brancas penduradas nas montanhas
um verso ladeira abaixo
esquartejado em público acéfalo
um ponto final nesses morros coloniais
a vírgula é o rio
o mar não há mais/ ficou o chão a poeira a maré
seu sorriso subterrâneo sob minha pele a sete palmos
sou eu debaixo da capa de poeta a pena em ebulição
a árvore escandalosa raiz
partindo a cavalo o fruto leva e traz
calabouço de madeira claustrofóbica
baú com os escritos tomba da carroça
me atiro e sou um desfiladeiro
urubus a postos/minha queda não deixa rastros.

domingo, 21 de março de 2010

nuvens: versos brancos arranham de raspão não o céu
rimas imperfeitas entre si assimétricas malabares na rua deserta
um quarto entupido de gatos se deslocando com o vento

encima da pia no parapeito das janelas debaixo das camas
nos corredores e nas luminárias sob papéis em gavetas
nos olhos que mudam de cor pela posição de sol
na voz cansada que não muda de tom não modula

sábado, 20 de março de 2010

if there's a god

cada olhar é uma via na contra-mão
nós contra-via
contraria a direção

sexta-feira, 19 de março de 2010

Ritmos do pulso nas artérias dos edifícios da cidade




para Júlia V. e Hannah Arendt


silêncio bolha
silêncio contato

eu sozinho sou dois
eu sem mim nem isso nem cercas farpadas


isolar dos escombros do meu olhar
cabisbaixo num espelho

eu comigo
conspiro contra minhas máscaras

eu sem mim na multidão sou um

eu na minha companhia
não preciso olhar nos olhos do que não quero
mas devo ver o que me faz fugir

eu entre pessoas atravesso a rua na corda bamba
não é fácil
só segurar a mão de quem não conheço

eu me reflito
à minha imagem e semelhança

não projeto (não mais)
linhas em rostos que não o meu

compulsões em gestos alheios
a calçada em convulsão
[vendendo berrando eletrocutando faíscas de ferragens retorcidas manchadas de sangue] 
meus dentes caem por descuido

desaprender a sorrir
rir por dentro basta

uma em mil gotas de colírio
nos olhos cegos da cidade
um em mil casos de delírio


monólogo coletivo em um anfiteatro vazio

dead end roads placas ordenam não vá fora de si não derrape



chuva num para-brisas
repelindo

relendo a caligrafia torta
da água em meus óculos

quinta-feira, 18 de março de 2010

* i'm relapsing into desire your tongue reaching for mine
all things must pass
only me looking for both your eyes and smile shall remain
standing still til some end come strolling into my way


* tenho recaído em desejar sua língua alcançar a minha
tudo passa
só eu procurando seus olhos e seu sorriso permaneço
de pé até um fim qualquer vir se arrastando pelo meu caminho

free-jazz

Eu sou a fúria que te encontra, tromba numa avenida de propósito.
Luzes de mercúrio, vapores de mercúrio nos embebedam e dançamos sob holofotes e focos destinados a nós mesmos
a nos encontrar numa praça em que o concreto se liquidifique em tango
e o vinho se subscreva em versos.

você é a cama
eu sou o espelho no teto
cinco e meia da manhã
olhos vidrados e café
nego fogo um pássaro pousa o ventilador desligado
querendo dizer alguma coisa
pois não consigo desligar a mim mesmo
ou fazer dormir a televisão
o cinzeiro fumegante é a prova
que transborda de provas de que
não estou aqui
deixei meus olhos vidrados
minha perna inquieta, minhas mãos catalépticas
a um canto de mim
guardado embaixo da cama

sou o verso na porta do banheiro
rabisco no vidro traseiro de ônibus
me decompus
descompus
a madrugada leva num vento
meus restos por aí
construímos uma cidade na areia
com torres e fossos e quartos e todos os detalhes
sem prever como a maré

os ritmos tortos da terra indecisa
rearranjam os montinhos mudam de lugar
o que tinha sido planejado
e querido

descobri a cor verdadeira dos seus olhos ainda que você tenha me avisado
bem antes qual era
foi só olhá-los contra o sol

celofane

o horizonte de papel em chamas
pôde ser mentira se não pudessem tocá-lo com os dedos
queimar um enxame de dedos que tenta tocar
pôde ser mentira e tudo pôde ser diferente
conhecer pessoas ninguém conhece mesmo
mas pôde ser obrigado a vagar sozinho
gosto de cigarro na garganta
iluminado por algo que é apenas cenário
que todos querem ter em mãos
acariciar o sol e o que o sustenta
acariciar o rosto da lua que sorridente
maré maresia por cima do muro
de pé aprecia encima do muro

merecendo não merecendo
o céu na palma da mão
no castanho dos olhos mais aqui

quarta-feira, 17 de março de 2010

aproximei afastei e isso ainda não é apagar presença
eclipse lunar minha cabeça é uma cela
orbitando ao redor do que quero não saber

segunda-feira, 15 de março de 2010

my cat on the trunk
a pack of cigarrettes
all i'm taking with me
is all i could leave behind

skycrapers yell at me craving
for blood and money
big money and my old car
i'm ready to believe in every lie
is told the roads the whores
the whiskey the tires the engine
the bar's neon lights the window pane
one single lie to bring'em together
under a ceiling of purple piece-of-shit-shaped clouds
construir um universo novo
no momento em que as tochas apagam/eletrocutadas

da pré-história da pré-história
à pré-história de mim
só preciso de papel a mão e caneta

qualquer semelhança de
olhos arregalados e voz de inquisição
entre vocês e eles
é só coincidência

se sonho que quero me mover
e não em sonhos me movo
o braço dói diz ginsberg

mas e se sonho que estou parado
e meu corpo dormindo se move?

inaugurar um novo universo
seja  cabeça
ferida ou civilização de tijolos por terra

domingo, 14 de março de 2010

saí na rua depois de você
gente mutilada sem saber a onde ir
me perguntar o caminho
e o que são portas e o que são muros

indo mais rápido que nunca
gente cega tromba
cai na rua

sexta-feira, 12 de março de 2010

ando pela L2 como num deserto
um deserto de rostos irreconhecíveis
novas máscaras
desfiguradas que sempre quis evitar
todos os rostos são repulsivos
o meu mais que todos
reflete um rosto vazio de magritte

por baixo de um pano
tudo de que corro
um panfleto na rua
entre o meio-fio e uma boca-de-lobo
amassaram ele está meio enrugado
mas ainda dá pra ler
que anuncia salvação
milagrosa segundo os depoimentos no verso
infalível adverte quem entrega
em doze sessões
várias formas de pagamento
podendo ser parceladas algumas vezes
nos parabrisas em fila
abarrotando as lixeiras
as mãos das pessoas ávidas
o estrondo dos passos no cimento

ecoam a sede de salvação
cada muro que leva escrito
o amor é importante, porra
e lata de lixo que tombou pela enxurrada
e homens invadindo apartamentos com escadas
são a cidade pela janela
se contorcendo com sensação de membro fantasma
pedindo doze sessões
talvez de eletro-choque

América Abstrata

céu da sua boca é uma constelação
de promessas não-cumpridas
em alto-relevo gosto de cigarros baratos sob a chuva
na calçada de tijolos amarelos/você deixou seus olhos suas pernas
gravados a faca na casca de alguma árvore nossa
sol no solo
rachaduras são versos vistos dos aviões
só o solo, e a luz é
um sopro vindo do alto
sons varrendo a terra com um sim
não mudam a oscilação das plantas
não carregam insetos pequenos
pra dentro da blusa e da pele das mulheres

o pó do solo
poeira no sótão
o que quis dizer já passou
o trem ignorou a estação
a lua errou de rumo
de número da rua

debaixo deste pilotis tudo é silêncio em mim

quarta-feira, 10 de março de 2010

vivo no hiato entre hiatos
gritos e suspiros no recesso
entre te ver e cegar
ouvir a sua voz e mudar de rumo

terça-feira, 9 de março de 2010

uma voz transparente
golpe volumoso desferido no escuro
em que só ouço máquinas de escrever

já estava lá
ontem entre folhagens e o céu
vertical:a linha dos olhos à altura do horizonte

cigarra à espera
pássaros nos ombros
quando começa uma palavra
pneus no asfalto murmuram

portas duplas a guardam da chuva
a porta de si para outros
e a jaqueta meio velha
de observadora de pássaros

lágrima e insetos rolam por seu rosto impassível
não é estátua gárgula carranca
de noiva abandonada no altar
uma voz que é um teto de estrelas na multidão

segunda-feira, 8 de março de 2010

Spleen #1 / demóstenes

todos los poetas vivirán en comunas 
artísticas llamadas cárceles o manicomios
Bolaño

vigiei uma rua vazia
lágrima suspensa por dizer
estertor

minha língua passiva-agressiva
poesia consonantal
álcool queimando a garganta
não recitei
                         [ninguém recitou
me dei conta
                         [como pregar num púlpito em silêncio
das pedras em minha palavra
sussurrando contra as ondas

multidão

aprender a ser só
só aprender a ser dói
reaparecer nos destroços
como quem constrói uma cidade
inabitada inabitável

dentro de mim deserto

domingo, 7 de março de 2010

três quatro sensações por metro quadrado
a calçada na contra-mão me abriga a toda velocidade
a tristeza trêmula
                          que sinto
                                        que invento

[três por quatro na carteira
resma de segundos
filas e bancos inesperados de praça
mãos suas: versos indecisos]

delimitada não acaba com o poema
a noite/o asfalto/o minuto
                                    [a secura dos lábios inseguros
percorre minha pele
lembrando olhos lúcidos
fixos na calçada
medusa: estátua romana
sou pedra você é água

marés dedilho
meio-fios-silhueta
fios e meio de olhar
traz aqui
deixa aqui, vamos

sábado, 6 de março de 2010

um passo em silêncio
gesto calado
olhar cabisbaixo
rosto ao contrário
de pedra suas rachaduras
curso das lágrimas

mundo surdo
sol que vem
prédios não respondem

quinta-feira, 4 de março de 2010

fechou às onze e meia
não devíamos nem ter tentado
peguei o último vagão/pressenti que ela não estaria aqui
eu não pressenti
não fuma perto de mim/tem que certeza que é seguro ir por aí?
se eu não viesse você ia ter que dormir aqui
é verdade, mas parece arriscado
vamos logo, quanto mais demora mais perigoso fica
pobre bloco de carne, pensei: só tem a repetição
João Gilberto Noll

sentei 
a borda da janela não reclamou/ainda não tenho peso
me equilibrei sem usar as mãos
lembrei do começo de guerra e paz
petya rostov: uma garrafa de vodca o parapeito de uma janela
cem rublos
será que quase tudo antes dos trinta vale cem rublos?

ao que parece a palavra russa que designa guerra
também designa comunidade e mundo
será que tolstoi opôs mesmo?
como bom eremita starietz/zosima
paz e comunidade.
paz e mundo.
paz e pessoas juntas.

sentei 
à borda da janela
como um vietnamita que largou as plantações
o arroz em platôs 
para ir trabalhar na cidade e sente falta
de sentar à janela de sua própria calma
cabana ao relento
a palha e o tabaco entre os dedos
olhar o céu roxo se afastando
fugindo e sugerindo
que façamos também antes do gás dos aviões
hanoi não é tão longe

as pegadas das nuvens
o cadáver de deus
à borda de uma janela
mil braços
estala os dedos
acende um cigarro dando forma 
aos pássaros da minha tristeza
com fumaça

perdi a linha
ignoro meu começo intermitente

se o dia acabar de pôr o sol

pneumônico

deu certo
gritei com ele e ele fugiu como um cachorro
pra debaixo de uma cama
ele não estava errado
talvez por isso fugiu
um relâmpago em cada pupila assustada
dilatada cada veia dilata
o poema neo-concretista que são seus olhos
dinheiro não adianta
o roquenrou morreu
grita com ele que ele sai de lá
tão distante
movimento rápido do olho
chicoteia
dedos enormes nas entrelinhas
rostos em argila com pássaros pousados
trens de carga
folhas de papel virgens
círculos de bancos numa praça inominada
                                                               [pássaros pousados
                                                                                   realejo
                                                                          lambe-lambe
                                                                              altofalante
                                                                      cigana eventual
                                                                                 mendigo
                                                                                  o circo]

farsante vai embora
a despeito das donzelas que suplicam nos varais
choram a partida querem ver o homembaladecanhão cuspir fogo atirar facas
de cadilaque preto
os trombonistas saúdam, até o cara da tuba /não gordo/ saúda
sol;meteoro;"hail!"

o que há dentro de mim
é o passado com que sonhei
black is weird
Hunter S. Thompson

negro na água
negro no céu
dedos estáticos
portas escancaram ao sabor da maré de gente
janelas emudeceram
o velho kafkiano foi embora
madeira crepita
vento diapasão fustiga
não/absorta/se atreve a dizer
sonhou
acordou veio à tona
súbita
no silêncio de olhos arregalados
levita

negra a água tinge
pane elétrica
negro o céu
quarto asfixiado
sem janelas
negro hálito de deus
moribunda escultura
à beira da estrada

braços abertos
olhos recusam
a boca recusa
recuam

negro sim no precipício de concreto armado
nega o fim porque fim
por que não? amargo
estatelada no asfalto
Gente preta apertada
no útero de um vagão
de trem vai
relógio no pulso
chibata nas costas

gente aprisionada
preta
preta a pressa
preto o chão dos trilhos
ensangüentam engrenagens
sangue preto é carvão

passa o trem de hora em hora
dar de comer aos fornos
as vísceras que o tempo deixou
os restos das pessoas presas
abortadas por segundos
por centésimos de milésimos
perderam o caminho do trabalho
erraram o ponto do trem
o ponto da hora atrasou

quarta-feira, 3 de março de 2010

as respostas transparentes
barras de uma cela
moscas entre quatro paredes
separadas do resto por quatro respostas
à mesma pergunta

um suspiro toma coragem
antes de desistir
exausto

décimoquinto décimossétimo

por trás das pálpebras cerradas 
inflamaram-se chamas verdes 
Mikhail Bulgákov

ia te chamar de louco se não se achasse melhor que ele que estranho isso porque eu sonhei ou pensei que eu falaria isso pra alguém.
não sou melhor que ele se eu fosse ele não teria o que eu quero.
se ele for pior é porque ela não te mereceu mesmo.
não é por isso a sede tem meandros inexplorados e que ninguém que visitou descreve e alguém sempre sonha que vai dizer algo nunca se sabe qual é o lado certo do espelho se é o que o sonha ou o que sonhado retribui.
as pessoas têm preferências misteriosas também preferem névoa sempre.
prefiro a luz da lua projetando versos em um rosto.
mármore sangue prédios em ruínas tudo o que percorro são escombros.
prefiro o sol e o vento que cortam a respiração em dois sua voz petrificada em silêncios me perfurar.
impregnados por um cheiro transparente elevamos no ar o que trouxe as pessoas aqui.
a sede é a solução por não ser o alvo solução para problemas que não sendo nossos atingem pessoas que ignoramos que nos ignoram e são mais felizes por isso.
a cada respiração na noite hesito tropeço a cada presença que se afasta com passos silenciosos e sei o que há por trás da névoa cruzando invadindo este espaço.
mutilados obesos em passarelas só enxergo a ponta vermelha do cigarro aceso e já sei.
não são felizes não podemos ser felizes sem enxergar mais que a ponta única do cigarro a noite solitária fora tão promissora tão poucas horas antes.
nesse caso suas presenças seriam cortinas descontínuas a revelar uma intenção que ninguém concretizou.
nesse caso um taxi desgovernado atropelaria as pontas ambulantes não sabem o que é a sede não sabem que não está no jornal no horóscopo sequer nem num toque do cadáver fortuito de uma lembrança.
nesse caso os obesos sabendo que as ausências da sede.
períodos bem longos em que nem o labirinto de lençóis sujos assusta mais.
são o motivo de andar fumando numa cidade cujo ritmo da respiração a esta hora não é mais que um sussurro.
ficariam em casa à prova de desilusões os bueiros gritam escancaram o que é a quem para e olha.
concordo é bem provável que aquele cara cego sem pernas escorado na parede do prédio tocando sanfona saiba o que é a sede porque ele é imune.
mas não é imunização não é uma vacina também não é a doença é um carro com um altofalante encima  o pneu furou ele está parado no acostamento mas o autofalante continua incansável.
com pássaros chocando contra o parabrisa?
não esse é o ciúme.

terça-feira, 2 de março de 2010

tropecei um vento que trazia uma voz me derrubou
lembrei de quando você disse
não morremos
e escreveu isso em nossa pele
em cada esquina dos nossos toques

agora somos dois

segunda-feira, 1 de março de 2010


se eu te digo te amo 
que te baste por ora 
sem remoer o passado
os rios erraram o percurso

o moinho quebrou
Só gira adiante, agora

her divine shadow

flutua ressoa paira
reverbera afasta colide
tangencia

translúcida atravessa minhas pálpebras
habita minha retina
ia te chamar de louco se não se achasse melhor que ele, que estranho isso porque eu sonhei ou pensei que eu falaria isso pra alguém
não sou melhor que ele, se eu fosse ele não teria o que eu quero
se ele for pior é porque ela não te mereceu mesmo
não é por isso, o amor tem meandros inexplorados e que ninguém que visitou descreve e alguém sempre sonha que vai dizer algo, nunca se sabe qual é o lado certo do espelho, se é o que o sonha ou o que sonhado retribui
as pessoas têm preferências misteriosas também, preferem névoa sempre
prefiro a luz da lua projetando versos em um rosto
mármore sangue. prédios em ruínas tudo o que percorro são escombros
prefiro o sol e o vento que cortam a respiração em dois sua voz petrificada em silêncios me perfurar
impregnados por um cheiro transparente elevamos no ar o que trouxe as pessoas aqui
o amor é a solução por não ser o alvo. solução para problemas que, não sendo nossos, atingem pessoas que ignoramos que nos ignoram e são mais felizes por isso.

arestas de cotidiano/ à undécima hora

acho que levei uma multa outro dia
comprei os cigarros mas não tinha isqueiro
não deixa cair o violão
eu te espero
preciso subir e buscar o ingresso
não era um pássaro era uma borboleta grande
pára aqui
ficou parecendo o willie caolho
é rápido já volto pode esperar ali
olha a lua
por que você derramou
ele tem sido arrogante em relação a mim
sob impressão de estar tendo recaídas em relação a ela
prefiro frio não precisa desligar
busca lá
abaixa o volume
passos na noite calçada vazia
vou de escada
prazer
meu batom acabou
será que precisa comprar gelo
ela morava num edifício chamado marcel proust
é uma questão de epistemologia comparada
esse não precisa de receita médica
vontade de tomar sorvete
o que foi esse barulho
imagina não há de que
quem lembrou de trazer copos
a cada amanhecer seu olhos comigo
não conseguiria não caindo do décimo quinto andar
retalhos das vozes
restos dos gestos
crateras
ecos falsos nas paredes

olheiras marcas de pneu asfalto em mim

não acabo de desacostumar
seu rosto ao meu