terça-feira, 4 de maio de 2010

a minha janela não dá pra rua
dá pra um pátio espinha dorsal do prédio
oco com varais e um eco
a luz na clarabóia promete pássaros
e sorriso da mulher que amo

a minha janela não dá pro mar
vidro e maresia não combinam
porque bom mesmo é ter nada que separe
dos espaços abertos
deitar na areia e contar as nuvens
não posso, tenho a minha janela

a minha janela não dá pro céu
mas também não é bueiro
não dá pro esgoto
não é uma ilha e nem um espelho
não vejo fábricas da minha janela
só a madeira um pouco gasta da moldura

dobradiças emperradas
meus olhos não dobram a esquina

a minha janela tampa a vista de uma língua
escondida quem usa
sabe de minuto a minuto
uma farsa entre enxergar e dizer


a minha janela não desagua em mim
desagua em palavras súbitas
se enrola num discurso meio sem-fim
                             meio-(sem-)fio
como legendando a minha janela
dar não no resto, mas em você
que é poema que leio em braille
outdoor que saboreio

a janela é o eixão à minha frente
movimento a despeito de mim
o asfalto lá embaixo
e meu pronunciamento são tudo
que enxergo daqui

3 comentários:

Ferdi disse...

A sua janela está aberta?

/youwerethebesthingthateverhappenedtome

Eloisa disse...

discurso meio sem-fim meio-(sem-)fio

discurso longo como um meio-fio que não acaba e sempre volta a ser o mesmo em determinado estagio.

Aqui, todas as janelas são minhas janelas, todas dão pra um lugar que não tem nada de ninguém - muro e gatos, verde e pedra cinza.

Negresco Envenenado disse...

É sinceramente muito bonito este aqui.