domingo, 3 de janeiro de 2010

Àquela altura da noite enevoada ninguém repararia se aquele menino cego atravessando a rua sobre uma corda bamba se olhasse no espelho e fizesse a mesma pergunta em uma língua morta a se debater no asfalto recém-frio

as órbitas vazias de intenções pairam sobre o pavimento misturando-se à fumaça que sai dos bueiros

um caminhão quando vem à toda e acerta o menino o motorista é que se pergunta em língua morta por que a lataria não amassou

mas ele segue

a rua também é uma corda bamba e sempre pode vir algo maior que o caminhão e levá-lo e seguir

o próprio menino já havia feito isso atingindo a si mesmo quando se contemplou no espelho sem respostas

os faróis vazios de significados por isso mesmo dilaceram tudo inclusive o que não quis saber

tudo à tona de localizações de países distantes a atividades secretas das pessoas próximas do asfalto recém-turbulento

a placa do mendigo à margem da cena diz deus é cego surdo mudo e paralítico

como eu espantalho das moscas com meu chapéu sem copa e botas furadas

trepidando o caminhão a corda o menino o espelho e a rua sob um olhar atento de estrelas que se fazem pergunta nenhuma

sob um olhar atento de revoada de andorinhas carnívoras de ossos

otimistas todos em suma sabendo a corda é bamba e o atropelamento iminente

uma pergunta é uma bomba um monumento ao que se quer destruir seja por hesitação ou por vontade de descer da corda e sair do meio de uma rua que é simples artéria de muitas outras

Um comentário:

* L. disse...

Prosa boa, já te apontei as linhas que mais me agradaram - o pensamento do mendigo entrou com força, assim como sua imagem, mesmo estando à margem.
#rhymingcomment